Revolução Tecnológica e Desocupação Não Criativa

1. A expectativa de vida na Itália é de 83 anos. Em dezembro de 2018, o país aumentou a idade a partir da qual a pessoa é considerada idosa de 65 para 75 anos. A reforma da Previdência no Brasil prevê que os cidadãos tenham de trabalhar por mais tempo. Afinal, o que é ser idoso neste começo de século XXI?

Nossos trisavós viveram 350 mil horas, das quais trabalharam 150 mil. Nossa geração trabalha 80 mil horas. À medida que o tempo passa, mudam os conceitos de juventude, antiguidade e velhice. Na Roma Antiga, aos 16 anos os jovens passsavam a usar a toga branca e, daquele momento em diante, eram considerados adultos. Para nós, pós-modernos, a passagem para a vida adulta se tornou mais gradual. Na Itália, por exemplo, é possível se casar aos 16 anos, mas quase todo mundo se casa em torno dos 30. Aos 18 anos a pessoa é considerada maior de idade e pode votar para deputado, aos 25 pode votar para senador, mas muitos não estão inseridos no mercado de trabalho.

É ainda mais difícil definir quando alguém se torna velho, já que cada um morre em uma idade e uma condição diversa dos demais: alguns já estão velhos e doentes aos 50 anos, outros, como Michelangelo, morrem aos 90 anos ou, como Oscar Niemeyer, aos 105 e produzindo obras-primas até o último dia de vida.

Do ponto de vista sociológico, noto que a maioria das pessoas torna-se velha apenas nos dois últimos anos de vida, quando se vê obrigada a gastar na farmácia, nesse curto espaço de tempo, a mesma quantidade de dinheiro que gastara em todos os anos anteriores de vida. De onde se deduz duas coisas: à medida que a expectativa de vida aumenta, deve-se adiar a idade para a aposentadoria, como está sendo feito na Itália e no Brasil. Mas, ao mesmo tempo, é preciso diminuir a quantidade de horas da jornada de trabalho, caso contrário não haverá vagas para os jovens. Em segundo lugar, é absurdo que todas as profissões, do minerador ao jornalista, se aposentem com a mesma idade. Sobretudo para quem trabalha com o intelecto, seria oportuno que cada um negociasse sua aposentadoria com o próprio patrão ou empregador, sem se prender à idade, como fazem os professores universitários nos Estados Unidos.

2. O livro traz dados alarmantes sobre o desemprego entre os jovens. O senhor afirma que em muitas casas “o despertador toca para os pais enquanto os filhos ficam ociosos”. Como reverter esse quadro?

Criar novos empregos é difícil, mas distribuir os novos empregos é ainda mais difícil. Em muitas famílias, o pai trabalha dez horas por dia e o filho está desempregado. Nos países protestantes, como a Alemanha, todos os gerentes e funcionários trabalham oito horas por dia e vão embora do escritório às 5 da tarde. Já nos países católicos, como Itália e Brasil, ficam pelo menos um par de horas a mais no escritório, sem ganhar hora extra por isso. Esse tempo a mais impede a entrada de jovens no mercado. Na Itália, por exemplo, as horas extras dos funcionários equivalem a 321 mil postos de trabalho que não são abertos.

A proposta neoliberal, de resolver esse problema deixando os contratos de trabalho mais flexíveis e dando incentivos fiscais às empresas, é uma solução enganosa. Defende ainda que para criar novas vagas de trabalho é preciso crescimento econômico. Mas, se há crescimento na economia e os empresários têm mais dinheiro em caixa, eles não estão investindo em pessoas, e sim em tecnologia, comprando robôs. Portanto, a única solução válida para o desemprego é a redução da jornada de trabalho proporcional ao aumento da produtividade, graças ao progresso tecnológico. Na Alemanha, onde esse critério é seguido, a jornada de trabalho é de 1.371 horas por ano, o índice de população empregada chega a 79% e o PIB per capita é de mais de € 41 mil. Na Itália, onde a jornada de trabalho é de 1.725 horas, a taxa de ocupação é de 58% e o PIB per capita é de € 30 mil. Ou seja: um italiano trabalha 20% mais que um alemão, mas produz e ganha 20% menos. Além disso, a Itália tem uma taxa de desemprego três vezes maior que a Alemanha.

3. “Para ter a sensação de viver mais, é preciso indignar-se”. Gostaria que o senhor explicasse um pouco essa ideia, contida no livro.

Nossa sociedade e nossa economia tendem a criar desigualdade excessiva: de riqueza, de poder, de conhecimento, de trabalho e de oportunidade. Diante dessa injustiça social, pode-se ficar inerte, podem-se aceitar as dificuldades como um castigo divino ou pode-se reagir, indignando-se. Eu sou por essa terceira opção. Perde-se muito tempo discutindo reformas, e, quando se chega a uma conclusão, depois de um longo processo burocrático, talvez elas já não sirvam. Hoje, em cada setor de nossa vida social, ocorrem revoluções. Só a indignação permite ser útil à sociedade.

4. Que análise o senhor faz das redes sociais?

As redes de tecnologia de comunicação representam o maior progresso do homem social e político. As relações virtuais permitiram que as redes se expandissem às relações marcadas pela presença física. Milhões de jovens que neste momento estão sozinhos em casa, enquanto os pais estão no trabalho, podem dialogar com outros jovens de todo o mundo graças às redes. O mesmo se pode dizer sobre os doentes, os idosos ou os que têm alguma dificuldade de locomoção. A tecnologia da comunicação impede o isolamento, a perda, o esquecimento e o tédio.

5. O senhor afirma que as maiores empresas de tecnologia do mundo desviam dinheiro para paraísos fiscais. Não há uma grande crise ética nesse mercado?

A crise ética deriva do fato de que nossa sociedade pós-industrial, diferente de todas as sociedades anteriores, nasceu sem um suporte sólido de modelo sociopolítico. Não ter essa referência significa não ter um parâmetro para diferenciar o que é bom do que é mau, o que é verdade do que é falso, o que é esquerda do que é direita. Como disse o filósofo Sêneca, “nenhum vento é favorável para o marinheiro quem não sabe para onde ir”. A ética neoliberal das multinacionais prega ganhar o máximo possível, evitando controles e impostos do Estado. Mas os impostos servem para prover o bem-estar social, portanto, quanto menos pagam, pior é o equilíbrio social e maior é quantidade de pobres.

6. Até 2020 a automação se apropriará de 5 milhões de empregos, como balconistas e bancários. Que empregos sobrarão para os humanos?

Enquanto a população mundial aumenta — seremos mais 1 bilhão de pessoas até 2030 —, também cresce a população economicamente ativa à procura de emprego. As máquinas e os robôs substituíram, sobretudo, os operários de fábrica; os computadores substituíram os empregados; a inteligência artificial substituirá os profissionais criativos. A única profissão em que o homem não será substituído por uma máquina é a de padre! A solução mais eficiente é reduzir e redistribuir as horas da jornada de trabalho proporcionalmente à introdução das novas máquinas. Caso contrário, aumentará o número de desempregados, com grave prejuízo à ordem pública.

7. O senhor defende que as mulheres podem “reinventar o que entendemos como trabalho”. Acredita numa diferença de gestão por gênero?

Em 2030 as mulheres viverão três anos a mais que os homens. Cerca de 60% dos estudantes universitários, graduados e mestrandos serão mulheres. Muitas têm e continuarão a ter filhos sem a necessidade de um marido, enquanto aos homens não será ainda possível procriar sem uma mulher. Por tudo isso, as mulheres serão o centro do sistema social, e valores ainda associados ao universo “feminino” — como estética, emoção, flexibilidade e subjetividade — influenciarão também os homens. ( A escritora francesa ) Françoise Giroud disse que a igualdade entre os gêneros só será alcançada de verdade no dia em que uma mulher incompetente ocupar um posto importante. Isso já está acontecendo, mas, infelizmente, muitas mulheres que se tornaram executivas importantes nas empresas se comportam como homens quando têm poder, já que foram selecionadas e formadas por eles.

8. Há cinco anos o Brasil assiste aos desdobramentos da Operação Lava Jato, inspirada na Operação Mãos Limpas. Que herança a operação italiana deixou para o país, e que avaliação o senhor faz da operação brasileira contra a corrupção?

A Operação Mãos Limpas prendeu o poderoso Berlusconi, um empresário pouco interessado em política — para nossa sorte — e muito interessado em proteger seus negócios. Tratava-se do primeiro caso no mundo da concentração de quase todo o poder midiático do país nas mãos de uma única pessoa. Vinte anos depois, os italianos estão profundamente modificados, mais materialistas e consumistas. Além disso, o magistrado Di Pietro, equivalente ao juiz brasileiro Sergio Moro, se lançou na política, mas sua aventura foi um fracasso. Não sei que avaliação fazer da Operação Lava Jato, mas o combate à corrupção é positivo se vai até o fim e se, ao final das investigações, o país sai mais democrático.

9. Seu livro O ócio criativo está completando 20 anos de lançamento. Como o avalia duas décadas depois?

Parece-me que as previsões se confirmaram. Como eu imaginava, os postos de trabalho se tornaram mais escasso em todos os níveis — seja do operário, seja do empresário —, sendo absorvidos pelas máquinas. Mas isso é sorte! O trabalho criativo permanece como monopólio do homem escolarizado. A atenção do mundo socioeconômico se deslocou mais em direção ao tempo livre, às necessidades culturais. Meu editor italiano me pediu para retomar essas questões, 20 anos depois, em um novo livro-entrevista, centrado nos problemas atuais. Assim surgiu um novo livro, que acaba de ser lançado na Itália e que chegará em breve ao Brasil. Eu o batizei com um título otimista, uma frase do grande filósofo italiano Giambattista Vico: O mundo ainda é jovem .

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