Pressuposição da Racionalidade dos Agentes Econômicos: Autoestima do Animal Humano

Alan P. Kirman, autor do ensaio “Comportamento individual e agregado: de formigas e homens”, considera outra visão do mundo, onde os indivíduos funcionam em um local limitado e a maioria de suas informações vem daqueles com quem eles interagem. Além disso, suas capacidades de raciocínio são limitadas e eles se adaptam ao invés de otimizar. Não é possível, em tal mundo, o resultado coletivo ter certas propriedades desejáveis?

O que ele descreve tem grande correspondência com a situação em um ninho de formigas ou em uma colmeia. Isso é muito diferente de um mundo onde, pela dotação de inteligência, indivíduos calculistas antecipam eventos futuros racionalmente.

Uma visão da economia como uma colônia de insetos sociais é um anátema para aqueles convencidos de os animais humanos, ao contrário das formigas, terem intenções conscientes a respeito de o que eles querem fazer. Embora isso seja verdade até certo ponto, também é verdade as escolhas feitas por qualquer entidade econômica serem fortemente restringidas pelo lugar onde essa entidade ocupa na estrutura econômica.

Se aceitarmos isso, somos imediatamente confrontados com um dilema. O comportamento de um indivíduo, e sua contribuição para a atividade econômica, depende do papel cumprido por ele ou ela – e não apenas de algumas características intrínsecas a cada qual. Isso significa não bastar olhar para algum “agente representativo”, a fim de entender o que vai acontecer no nível agregado. Você não imaginaria olhar para o comportamento de uma formiga representativa se você quisesse prever a evolução da atividade do seu ninho.

Nessa visão, a atividade agregada não é uma versão ampliada do comportamento individual. A passagem do micro para o macro é mais complexa do que uma simples soma de indivíduos independentes. Comportamento macroeconômico certamente reflete o comportamento microeconômico subjacente, mas “não tem a forma de boneco de corda”. Se nós somos interessados em relações macroeconômicas relativas à reação a mudanças em várias variáveis ​​agregadas não devemos começar no nível isolado do agente racional.

Mais uma vez, isso não será bem-vindo aos economistas desejosos de estabelecer a Macroeconomia sobre “micro-alicerces sólidos”. Nesse caso, cada agente resolveria um problema de otimização bastante complicado, enfrentado com o bem-definido conjunto de restrições, e mesmo assim o resultado ótimo se traduz diretamente no agregado.

Naturalmente, não queremos dizer “resolver” de maneira consciente e calculista. Cada agente é dotado de preferências capazes de satisfazerem certos padrões amplamente aceitos de propriedades correspondentes à racionalidade. Ele ou ela simplesmente escolhe a melhor alternativa, de acordo com essas preferências, entre o conjunto de alternativas disponíveis.

A pergunta óbvia para um recém-chegado ao estudo da Economia, mas esquecida rapidamente, é: “propor os axiomas relativos à racionalidade dos indivíduos corresponde a alguma noção de senso comum de racionalidade?”

Os primeiros esforços de economistas para racionalizar o comportamento culminou com o estabelecimento dos três axiomas formais do neoclassicismo: racionalidade, atomismo e informações perfeitas. São geralmente considerados como governantes de o que constitui a racionalidade. Mas de onde vieram esses axiomas? Eles foram o resultado de exame intensivo do comportamento humano? Certamente não.

Esses axiomas são os resultados de introspecção realizada por economistas – e pior, alguns de nós nem suspeitam deles –, estão lá como premissas indiscutíveis por conveniência matemática, em vez de estarem como uma descrição válida de o que constitui racionalidade. Se examinarmos essas hipóteses, poderíamos bem questionar sua plausibilidade.

Uma suposição, como continuidade de preferências, corresponde à noção natural de racionalidade, a menos que se tenha uma interpretação muito ampla de o que significa ser racional. Podemos fazer com que pareça plausível dizendo algo como: “Se o pacote de mercadorias x é estritamente preferido para empacotar y, então, qualquer pacote suficientemente próximo de x será estritamente preferido para qualquer pacote suficientemente dentro da restrição orçamentária”. Alterar as quantidades dos vários bens nos dois pacotes em quantidades muito pequenas, de fato, não devem mudar preferências sobre eles. No entanto, tudo isso se transforma em outra suposição padrão: os bens são infinitamente divisíveis, os quais, como bem sabemos, não são.

Fazemos essas suposições porque com elas somos capazes de mostrar que demanda individual é uma função contínua de preços. Quando somamos tudo, isto é, nossas demandas individuais contínuas, obteremos demanda agregada contínua, e seremos capazes de provar a existência de um equilíbrio. Este parece de alguma forma vindo de trás, ou seja, surge do pano-de-fundo do espetáculo do mercado competitivo atuando livremente.

Mesmo se os bens fossem demandas indivisíveis e individuais, portanto, descontínuas, bem poderiam ser, no nível agregado, as coisas suavizarem e nós observaríamos a demanda agregada essencialmente contínua. Além disso, nós podemos muito bem observar o que parece ser um contínuo e monótono declínio na curva de demanda do mercado.

Em outras palavras, compradores de um bem, de maneira conjunta, desejam comprar menos desse bem, quando o preço do último aumenta, e isso ocorre de um jeito bem suave. No entanto, isso não necessariamente ocorre porque todos os compradores estão reagindo tranquilamente e mesmo na direção certa para as mudanças nos preços. Como nos movemos para o nível agregado, a natureza indivisível dos bens torna-se sem importância. Logo, os saltos nas demandas individuais, quando os preços mudam, se tornam insignificantes.

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