Acionistas em longo prazo e acionistas em curto prazo ou especuladores

Adrian Wood em seu livro, denominado “Uma Teoria dos Lucros” (Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra; 1980), disserta a respeito do tempo de conservação de determinada ação por um acionista. Nem todos os acionistas alteram constantemente suas carteiras de ações de acordo com os preços correntes das ações e suas expectativas da situação futura. Se houvesse uma propensão à variação de ações em suas carteiras, o interesse dos acionistas não focalizaria o comportamento das empresas.

Consideradas as condições de incerteza, são as variações as facilitadoras da especulação, baseada em tentativas de superar os outros investidores quanto às previsões do comportamento das empresas e às expectativas do mercado de ações. Porém, na realidade, os acionistas não consistem em um grupo tão mutável, porque o período médio de conservação de ações ocorre entre cinco e dez anos. Uma parcela significativa das ações boas pagadoras de dividendos são mantidas por períodos ainda mais longos.

Nenhum acionista antecipa o momento exato das flutuações dos preços das ações e das expectativas em relação a elas de modo a alterar sua carteira em intervalos curtos e frequentes, mesmo porque ele incorreria em elevados custos de transação. Estes explicam em parte:

  1. os longos períodos de conservação das ações,
  2. a inércia e a irracionalidade dos investidores.

Contudo, a principal razão da duração desses períodos reside no desconhecimento do curso futuro, tanto do comportamento da empresa, quanto do mercado de ações. Além disso, as atividades especulativas de parcela de acionistas influentes causam alterações substanciais em curto prazo nos preços das ações. Como são virtualmente imprevisíveis para a maior parte dos investidores, esta evita entrar nesse jogo especulativo grafista e se pauta por análise dos fundamentos estruturais e mais permanentes da empresa.

Os acionistas em longo prazo se prendem às suas ações na esperança de uma série temporal de dividendos e ganhos de capital favoráveis até um momento quando tenham segurança de, eventualmente, se desfazer delas, senão as deixar como legado para a(o) viúva(o). Nesse caso, não se importam com flutuações em curto prazo por não poderem as predizer. E nem observam o custo de oportunidade com variações de cotações de outras empresas. Sobre estas ignoram ainda mais.

Assim, devido à ignorância e à incerteza, os proprietários de empresas de capital aberto não são muito diferentes em relação aos comportamentos de muitos proprietários de empresas fechadas sem ações cotadas no mercado. Os acionistas em longo prazo não necessariamente estão presos à empresa até a morte, mas não consistem em um bando itinerante de especuladores.

Logo, dependendo do peso destes no mercado de ações, a segurança dos investidores em “segurar ações” se relaciona mais com a política de dividendos das empresas cujas ações eles possuem. A performance de cada uma delas referente ao pagamento de dividendos ou retenção de ganhos é observada e avaliada. Em longo prazo, o aumento de ativos por ação é a principal (e certamente a mais confiável) fonte de ganhos de capital.

O acionista em longo prazo vai empenhar-se para comprar suas ações em baixo do ciclo do curto prazo e para vendê-las nas altas, mas quanto mais longo o período de conservação das ações, em relação à duração do ciclo de curto prazo, tanto menor será a importância dos momentos de compra e venda.

Existe também um outro grupo de acionistas composto por especuladores em curto prazo. Visam ganhar dinheiro, principalmente, fazendo uma suposição mais acertada do que o restante dos participantes do mercado no curto prazo.

As empresas tendem a ser indiferentes aos interesses desses acionistas infiéis. Seus dirigentes buscam atender, principalmente, os interesses dos acionistas em longo prazo. Os próprios dirigentes muito frequentemente são também substanciais acionistas em longo prazo. Além disso, os administradores podem temer a direção de suas firmas ser assumida por outras pessoas, caso os preços das ações caiam muito.

Mesmo combinados, esses três fatores não conferem poder absoluto aos acionistas de modo uma empresa aberta ser administrada de forma a satisfazer unicamente os interesses de seus proprietários em curto prazo. Não visam o crescimento máximo de suas ao invés de maximização de seus ganhos.

As mais importantes decisões administrativas são as políticas de distribuição de dividendos e de novas emissões de ações.

Ambos, dirigentes e acionistas em longo prazo têm bastante interesse na lucratividade da empresa. Ela provê meios para uma rápida taxa de expansão e fundos para elevados dividendos. Sabendo privilegiar cada qual, em certos períodos, em longo prazo haverá uma alta taxa de crescimento de ativos por ação e, em consequência, um impacto favorável na avaliação da companhia. Os interesses comuns, obviamente, não implicam em inexistência de conflitos de interesses entre os administradores e os acionistas em longo prazo.

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