Ameaças Práticas ao Liberalismo

Yuval Noah Harari, no livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), identifica várias ameaças práticas ao liberalismo. A primeira é a de que humanos podem se tornar militar e economicamente inúteis. Trata-se, obviamente, de uma possibilidade, e não de uma profecia. Dificuldades técnicas ou objeções políticas podem desacelerar a invasão algorítmica do mercado de trabalho.

Alternativamente, como grande parte da mente humana permanece como um território não mapeado, não sabemos na realidade o que talentos humanos ainda poderão descobrir e que empregos poderão criar para substituir os que forem perdidos. Isso, contudo, pode não ser suficiente para salvar o liberalismo. Pois o liberalismo acredita não apenas no valor dos seres humanos — acredita também no individualismo.

A segunda ameaça com que se defronta o liberalismo é que no futuro, embora o sistema ainda possa precisar de humanos, não vai precisar de indivíduos. Humanos continuarão a compor música, a ensinar física e a investir dinheiro, porém o sistema vai compreendê-los melhor do que eles compreendem a si mesmos e tomará a maioria das decisões em seu nome. Portanto, o sistema vai destituir indivíduos de sua autoridade e de sua liberdade.

A crença liberal no individualismo fundamenta-se em três importantes premissas  já comentadas antes neste livro:

  1. Eu sou um indivíduo. Possuo uma essência una que não pode ser dividida em partes ou subsistemas. Esse cerne central está envolvido por muitas camadas externas. Mas, se eu me esforçar por descascar essas crostas externas, vou encontrar bem fundo dentro de mim uma voz interior clara e única, que é o meu eu autêntico.
  2. Meu eu autêntico é completamente livre.
  3. Decorre das primeiras duas premissas que posso saber coisas de mim mesmo que ninguém mais é capaz de descobrir. Somente eu posso acessar meu espaço interior de liberdade, e somente eu posso ouvir os sussurros do meu eu autêntico. É por essa razão que o liberalismo confere ao indivíduo tanta autoridade. Não posso confiar em mais ninguém que faça escolhas por mim, porque ninguém mais pode saber quem realmente sou, como me sinto e o que quero. É por isso que o eleitor sabe o que é melhor, que o cliente sempre tem razão e que a beleza está nos olhos de quem vê.

No entanto, as ciências biológicas desafiam as três premissas. De acordo com as ciências biológicas:

  1. Organismos são algoritmos e humanos não são indivíduos — são “divíduos”. Isto é, humanos são uma montagem de muitos algoritmos diferentes que não têm uma voz interior única ou um eu único.
  2. Os algoritmos que constituem um humano não são livres. São configurados por genes e pressões ambientais e tomam decisões determinística ou aleatoriamente — mas não livremente.
  3. Segue-se daí que um algoritmo externo é teoricamente capaz de me conhecer muito melhor do que eu jamais poderia fazê-lo. Um algoritmo que monitorasse cada um dos sistemas que compõem meu corpo e meu cérebro poderia saber exatamente quem eu sou, como me sinto e o que quero. Uma vez desenvolvido, esse algoritmo poderia substituir o eleitor, o cliente ou o observador de arte. Então, esse algoritmo vai ter mais conhecimento, sempre terá razão e a beleza estará nos cálculos por ele realizados.

Durante os séculos XIX e XX, a crença no individualismo tinha um sentido bem prático porque não havia algoritmos externos efetivamente capazes de me monitorar. Estados e mercados podem ter tido a pretensão de fazer isso, mas careciam da tecnologia necessária.

A tecnologia do século XXI pode capacitar os algoritmos externos a serem “hackers da humanidade” e a me conhecerem muito melhor do que eu conheço a mim mesmo. Quando isso acontecer, a crença no individualismo entrará em colapso e a autoridade vai se transferir de indivíduos humanos para algoritmos em rede.

As pessoas não mais se verão como seres autônomos que levam suas vidas de acordo com o seu bem querer. Na verdade, vão se acostumar a se verem como uma coleção de mecanismos bioquímicos que é constantemente monitorada e guiada por uma rede de algoritmos eletrônicos.

Para que isso se concretize, não há necessidade de um algoritmo externo que me conheça perfeitamente e que nunca cometa nenhum erro. Basta que esse algoritmo me conheça melhor do que eu me conheço e que cometa menos erros do que eu. Então fará sentido confiar a eles cada vez mais decisões e escolhas na vida.

O liberalismo santifica o eu da narrativa e permite que ele vote nas seções eleitorais, no supermercado e no mercado matrimonial. Durante séculos isso fez muito sentido, porque, embora o eu da narrativa acreditasse em todo tipo de ficções e de fantasias, nenhum sistema alternativo me conhecia melhor. Mas, uma vez que disponho de um sistema que realmente me conhece melhor, seria temerário deixar a autoridade nas mãos do eu da narrativa.

Hábitos liberais, como eleições democráticas, irão se tornar obsoletos, porque o Google será capaz de representar até mesmo minhas opiniões políticas melhor do que eu mesmo. Quando estou na cabine de votação, o liberalismo me instrui a consultar meu eu autêntico e a escolher que partido ou candidato reflete meus desejos mais profundos. Entretanto, as ciências biológicas apontam que, quando estou ali, na verdade não me lembro de tudo o que senti e pensei nos anos que se passaram desde a última eleição. Além disso, sou bombardeado por uma barragem de propaganda, memórias oscilantes e aleatórias que podem muito bem distorcer minhas escolhas. Assim como no experimento de Daniel Kahneman com água fria, também na política o eu da narrativa segue a regra do pico-fim. Esquece a grande maioria dos eventos, lembra apenas alguns acontecimentos extremos e atribui um peso totalmente desproporcional aos acontecimentos recentes.

Durante quatro longos anos posso ter me queixado repetidamente da política do primeiro-ministro, dizendo a mim mesmo e a quem quisesse me ouvir que ele seria “a ruína de todos nós”. No entanto, nos meses que antecedem as eleições, o governo corta impostos e gasta dinheiro generosamente. O partido governante contrata os melhores marqueteiros para que conduzam uma campanha brilhante, com uma mistura bem dosada de ameaças e promessas, que fala direto ao centro do medo no meu cérebro. Na manhã das eleições, acordo com um resfriado que tem impacto nos meus processos mentais e faz com que eu prefira a segurança e a estabilidade acima de quaisquer outras considerações. E voilà! Reelejo o homem que seria “a ruína para todos nós” por mais quatro anos.

As novas tecnologias do século XXI podem, assim, reverter a revolução humanista, destituindo humanos de sua autoridade e passando o poder a algoritmos não humanos. Se você está horrorizado com essa possível direção dos fatos, não culpe os fanáticos da computação. Os responsáveis na verdade são os biólogos. É crucial dar-se conta de que toda essa tendência é alimentada mais por insights biológicos do que pela ciência da computação. Foram as ciências biológicas que chegaram à conclusão de que organismos são algoritmos. Se não for esse o caso — se organismos funcionam de maneira inerentemente diferente à dos algoritmos —, então os computadores poderão até mesmo fazer maravilhas em outros campos, porém não serão capazes de nos compreender e de direcionar nossa vida, e certamente não serão capazes de se fundir conosco. Mas, depois de concluir que organismos são algoritmos, os biólogos derrubaram o muro entre o orgânico e o inorgânico, transformaram o viés da revolução computacional de uma questão puramente mecânica num cataclismo biológico e transferiram a autoridade de humanos individuais para algoritmos em rede.

Algumas pessoas ficam realmente horrorizadas com esse desenvolvimento, mas o fato é que milhões o abraçarão de bom grado. Hoje, muitos de nós já “abrimos mão de nossa privacidade e individualidade, registramos cada uma de nossas ações, conduzimos nossa vida on-line e ficamos histéricos se nossa conexão com a rede se interrompe mesmo que por alguns minutos. A transferência da autoridade de humanos para algoritmos está acontecendo a nossa volta, não como resultado de uma decisão governamental, e sim devido a uma inundação de escolhas mundanas.

Se não tivermos cuidado, o resultado disso poderia ser um estado de polícia orwelliano, que constantemente monitora e controla não somente todos os nossos atos, mas até mesmo o que acontece dentro de nossos corpos e cérebros. Imagine-se apenas os usos que Stálin poderia achar para sensores biométricos onipresentes e que usos Putin ainda pode achar para eles. No entanto, enquanto os defensores da individualidade humana temem uma repetição dos pesadelos do século XX e se preparam para resistir aos familiares inimigos orwellianos, a individualidade humana enfrenta agora uma ameaça ainda maior que vem da direção oposta. No século XXI há mais probabilidade de que o indivíduo se desintegre suavemente por dentro do que brutalmente esmagado de fora.

Hoje em dia a maior parte das corporações e dos governos prestam homenagem a minha individualidade, e prometem fornecer medicina, educação e entretenimento customizados para minhas necessidades e meus desejos, que são únicos, somente meus. Mas, para poder fazer isso, corporações e governos precisam primeiro me decompor em meus subsistemas bioquímicos, monitorar esses subsistemas com sensores ubíquos, e decifrar seu funcionamento com poderosos algoritmos. Nesse processo, será revelado que o indivíduo não é senão uma fantasia religiosa. A realidade será uma malha de algoritmos bioquímicos e eletrônicos, sem fronteiras bem definidas, e sem centros de controle individuais.

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