Terceira Ameaça Prática ao Liberalismo

Yuval Noah Harari, até o nono capítulo do livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), examina duas das três ameaças práticas ao liberalismo:

  • a primeira, a de que humanos percam totalmente seu valor;
  • a segunda, a de que humanos ainda continuem a ter valor coletivamente, mas percam sua autoridade individual e passem a ser manejados por algoritmos externos.

O sistema ainda vai precisar que você componha sinfonias, ensine história ou escreva programas de computador, entretanto vai conhecê-lo melhor do que você mesmo se conhece e, portanto, tomará em seu lugar a maioria das decisões importantes — e você ficará perfeitamente feliz com isso. Não será necessariamente um mundo ruim; será, contudo, um mundo pós-liberal.

A terceira ameaça ao liberalismo é que algumas pessoas continuarão a ser indispensáveis e indecifráveis, porém constituirão uma elite diminuta e privilegiada de humanos elevados a um grau superior. Esses super-humanos serão dotados de aptidões ainda desconhecidas e de uma criatividade sem precedente, o que permitirá que tomem muitas das decisões mais importantes no mundo.

Eles vão prestar serviços cruciais ao sistema, ao passo que o sistema não os compreenderá nem conseguirá controlá-los. No entanto, os humanos em geral não teriam esse upgrade e, consequentemente, se tornariam uma casta inferior, dominada pelos algoritmos computacionais e pelos novos super-humanos.

Dividir o gênero humano em castas biológicas destruirá os fundamentos da ideologia liberal. O liberalismo pode coexistir com brechas socioeconômicas. Realmente, como privilegia a liberdade em detrimento da igualdade, ele aceita essas brechas como um fato. Porém, o liberalismo ainda pressupõe que todos os seres humanos têm igual valor e autoridade.

Do ponto de vista liberal, é perfeitamente correto uma pessoa ser um bilionário que vive num palácio suntuoso, enquanto outra é um pobre camponês morando em uma palhoça. Porque, de acordo com o liberalismo, a experiência única do camponês tem o mesmo valor que a do bilionário. Por isso, autores liberais escrevem longos romances sobre as experiências de camponeses pobres — e os bilionários leem esses livros avidamente.

A mesma lógica funciona em um dia de eleições, quando o voto do camponês pobre conta exatamente tanto quanto o do bilionário. A solução liberal para a desigualdade social é dar valor igual a experiências humanas diferentes, em vez de tentar criar experiências iguais para todos. Qual será, contudo, o destino dessa solução quando ricos e pobres estiverem separados não apenas pela riqueza, mas também por brechas biológicas reais?

É provável o custo dos testes de DNA diminuir ao longo do tempo, mas procedimentos novos e caros inovam-se constantemente. Assim, enquanto tratamentos mais antigos gradativamente se tornam acessíveis às massas, as elites sempre permanecerão alguns passos à frente.

Através da história, os ricos usufruíram de muitas vantagens sociais e políticas, porém nunca houve uma imensa brecha biológica a separá-los dos pobres. Aristocratas medievais alegavam que um sangue azul, superior, corria em suas veias, e os brâmanes hindus insistiam que por natureza eram mais inteligentes que todo mundo, mas tudo isso era pura ficção. No futuro, no entanto, brechas reais nas aptidões físicas e cognitivas vão se abrir entre uma classe superior que passou por um upgrade e o restante da sociedade.

Quando confrontados com esse cenário, os cientistas apresentam uma resposta-padrão: no século XX muitas descobertas médicas começaram com os ricos, mas acabaram por beneficiar toda a população e ajudaram mais a estreitar do que a ampliar as brechas sociais. Por exemplo, as vacinas e os antibióticos no início favoreceram sobretudo as classes mais altas nos países ocidentais, mas no presente melhoram a vida de todos os humanos, em toda parte.

Contudo, a expectativa desse processo se repetir no século XXI pode ser apenas uma ilusão otimista, por dois importantes motivos.

Primeiro, a medicina está passando por uma tremenda revolução conceitual. A medicina do século XX visava curar os doentes. A medicina do século XXI visa cada vez mais aprimorar a condição dos saudáveis.

Curar os doentes era um projeto igualitário, pois se pressupunha a existência de um padrão normativo de saúde física e mental que cada um pode e deve usufruir. Se alguém sentir que está abaixo da norma, cabe aos médicos resolver o problema e ajudá-lo a “ser como todo mundo”.

Em contrapartida, aprimorar os saudáveis é um projeto elitista, porque rejeita a ideia de um padrão universal e busca dar a alguns indivíduos uma vantagem sobre outros. As pessoas querem ter memórias melhores, inteligência acima da média e aptidões sexuais inigualáveis. Se alguma forma de upgrade se torna barata e comum, de modo que todos possam desfrutar dela, isso será considerado a linha básica que a próxima geração de tratamentos se empenhará em superar.

Como poderão as crenças liberais sobreviver ao surgimento de super-humanos com aptidões físicas, emocionais e intelectuais excepcionais? O que acontecerá quando se constatar que esses super-humanos têm experiências fundamentalmente diferentes das do Sapiens?

Os grandes projetos humanos do século XXvencer a fome, a peste e a guerra — visavam salvaguardar uma norma universal de abundância, saúde e paz para todas as pessoas, sem exceção.

Os novos projetos do século XXIalcançar a imortalidade, a felicidade e a divindade — também esperam servir a todo o gênero humano. No entanto, como esses projetos têm o propósito de superar e não de salvaguardar a norma, eles podem resultar na criação de uma nova casta super-humana que abandonará suas raízes liberais e tratará os humanos normais não melhor do que os europeus do século XX trataram os africanos.

Se descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológicos dividirem o gênero humano em uma massa de humanos inúteis e uma pequena elite de super-humanos aprimorados, ou se a autoridade passar totalmente das mãos humanas para as de algoritmos altamente inteligentes, então, o liberalismo entrará em colapso. Que novas religiões ou ideologias poderão preencher o vácuo resultante e orientar a evolução de nossos descendentes divinoides?

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