Liberdade versus Big Data Vigilante

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), alerta: a narrativa liberal preza a liberdade humana como seu valor número um. Alega toda autoridade, em última análise, ter origem no livre-arbítrio de indivíduos humanos, conforme expresso em seus sentimentos, desejos e escolhas.

Na política, o liberalismo acredita que o eleitor sabe o que é melhor. Por isso apoia eleições democráticas. Na economia, o liberalismo afirma que o cliente sempre tem razão. Por isso aclama os princípios do livre mercado. No aspecto pessoal, o liberalismo incentiva as pessoas a ouvirem a si mesmas, serem verdadeiras consigo mesmas e seguirem seu coração — desde que não infrinjam as liberdades dos outros. Essa liberdade pessoal está consagrada nos direitos humanos.

No discurso político ocidental hoje, especialmente na esquerda norte-americana, o termo “liberal” é às vezes empregado em um sentido muito mais estreito e partidário para denotar aqueles apoiadores de causas específicas, como o casamento gay, o controle de armas e o aborto.

Porém, a maioria dos assim chamados conservadores também abraçam a visão estreita de mundo neoliberal, especialmente o liberalismo econômico e o conservadorismo em costumes sociais e políticos.

Especialmente nos Estados Unidos, há ocasiões em que tanto republicanos como democratas fazem uma pausa em suas acaloradas discussões para se lembrarem de que todos eles concordam em coisas fundamentais como eleições livres, um Judiciário independente e direitos humanos.

Aqui, no conservadorismo brasileiro, os estúpidos bolsonaristas são anticomunistas da época da Guerra Fria (50 anos atrás), evangélicos submissos à casta de pastores-sabidos e violentos milicianos para extorsão dos pobres favelados. Acham “engraçadinho” dizer a esquerda defender “direitos humanos para desumanos”. Ora, desumanos têm falta de humanidade, são bárbaros, cruéis e desalmados contra “os diferentes” de si próprio. Os bolsonaristas demonstram sim desumanidade, um caráter anti-humano, atroz, duro.

Heróis da direita, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, foram grandes paladinos de liberdades econômicas e não de liberdades individuais. Em 1987, Thatcher disse: “Não existe essa coisa chamada sociedade. Há [uma] trama viva feita de homens e mulheres… e a qualidade de nossa vida dependerá de quanto cada um de nós está preparado para assumir a responsabilidade por si mesmo”. Era uma pregadora do individualismo egoísta.

Os herdeiros de Thatcher no Partido Conservador concordam totalmente com o Partido Trabalhista em que a autoridade política vem dos sentimentos, das escolhas e do livre-arbítrio de eleitores individuais. E aqui, a direita assina em acordo ou contrato social?

Referendos e eleições sempre dizem respeito a sentimentos humanos, não à racionalidade humana. Se a democracia fosse questão de tomadas de decisão racionais, não haveria nenhum motivo para dar a todas as pessoas direitos iguais em seus votos — ou talvez nem sequer o direito de votar. Existe ampla evidência de que algumas pessoas são muito mais informadas e racionais que outras, principalmente quando se trata de questões econômicas e políticas específicas.

Na esteira da votação do Brexit, o eminente biólogo e militante ateísta, Richard Dawkins, protestou argumentando: nunca se deveria pedir à grande maioria do público britânico — inclusive ele mesmo — que votasse no referendo, porque lhe faltava a formação necessária em Economia e Ciência Política. “É o mesmo que convocar um plebiscito nacional para decidir se a álgebra de Einstein estava correta, ou deixar os passageiros votarem para decidir em que pista o piloto deve pousar.”

No entanto, para o bem ou para o mal, eleições e referendos não têm a ver com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos. Quando se trata de sentimentos, Einstein e Dawkins não são melhores que ninguém.

A democracia supõe:

  1. sentimentos humanos refletirem um misterioso e profundo “livre-arbítrio “,
  2. este “livre-arbítrio” ser a fonte definitiva da autoridade e
  3. apesar de algumas pessoas serem mais inteligentes do que outras, todos os humanos serem igualmente livres.

Assim como Einstein e Dawkins, uma trabalhadora doméstica sem instrução também tem livre-arbítrio. Por isso, no dia de eleições seus sentimentos — representados por seu voto — contam tanto quanto os de qualquer outra pessoa.

Os sentimentos orientam não apenas os eleitores, mas também os líderes. Essa lealdade ao próprio coração pode acabar sendo” o calcanhar de Aquiles” da democracia liberal. Pois se alguém, seja em Pequim, seja San Francisco, adquirir capacidade tecnológica para hackear e manipular o coração humano, a política democrática vai se tornar um espetáculo de fantoches emocional.

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