Nacionalismo: Problemas Globais exigem Respostas Globais

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), argumenta: o gênero humano constitui agora uma única civilização, todos os povos compartilhando desafios e oportunidades comuns. Então, por que britânicos, americanos, russos e diversos outros grupos voltam-se para o isolamento nacionalista? O retorno ao nacionalismo oferece soluções reais para os problemas inéditos de nosso mundo global? Ou é uma indulgência escapista com possibilidade de condenar o gênero humano e a biosfera à catástrofe?

Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à psique humana e não tem raízes biológicas.

Os humanos são animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes. No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que algumas dezenas de pessoas.

Humanos desenvolvem facilmente lealdade a grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos poucos milhares de anos — em termos evolutivos, “ontem de manhã” — e exigem imensos esforços de construção social.

[Fernando Nogueira da Costa: este é meu incômodo com a análise de Harari: o relativismo em relação ao tempo. O que é “real”, para ele, é a evolução biológica. Seria uma narrativa ficcional a criação de instituições. Estas são restrições criadas para dar forma às interações humanas: as “regras do jogo” são tanto as informais como os códigos, os costumes e as tradições sociais, quanto as formais como as regras consolidadas na lei e na política de cada País. Embora sejam já seculares, ele alega com base em qual métrica não terem sido intrometidas na mente humana? Não são “reais”?!]

As pessoas se deram ao trabalho de construir coletividades nacionais porque se confrontavam com desafios que não podiam ser resolvidos por uma única tribo. Por exemplo, nenhuma tribo poderia resolver sozinha seus problemas, porque cada tribo só dominava uma pequena seção do rio e não poderia mobilizar mais do que poucas centenas de trabalhadores. Somente um esforço comum para construir enormes barragens e cavar centenas de quilômetros de canais poderia conter e controlar o rio à beira do qual moravam. “Esse foi um dos motivos pelos quais as tribos aos poucos coalesceram numa única nação que teve o poder de construir barragens e canais, regular o fluxo do rio, construir reservatórios de grãos para os anos de escassez e estabelecer um sistema de transporte e comunicação abrangendo todo o país.”

Essa é a alegação de Harari. Outra é possível, por exemplo, referente à união dos milhares de feudos em cortes monárquicas (e dinásticas): aliança de forças bélicas para defesa e ataque contra adversários. Foi (e é) uma tremenda economia de escala a união europeia. Talvez algum dia chegue a ser os Estados Unidos da Europa (EUE).

É pueril o argumento do historiador Harari neste ponto. “Para se dar conta de como é difícil identificar-se com essa nação, você só precisa se perguntar: “Eu conheço essas pessoas?”.

Segundo o Número de Dunbar, cada pessoa não conhece intimamente com afeto mais do que 150 pessoas. Harari alega: “Não sei o nome das 8 milhões de pessoas que compartilham comigo a cidadania israelense, nunca me encontrei com a maioria delas, e é muito pouco provável que as encontre no futuro. Minha capacidade de, apesar disso, sentir que sou leal a essa massa nebulosa não é um legado de meus ancestrais caçadores-coletores, e sim um milagre da história recente”.

Quem vê apenas a evolução do Homo sapiens sob o ponto de vista liberal individualista se torna incapaz de adivinhar esses “macacos” da espécie “humanos” serem capazes de desenvolver laços comunitários com milhões de estranhos. Harari afirma: “para convencer-me a ser leal a “Israel” e seus 8 milhões de habitantes, o movimento sionista e o Estado israelense tiveram de criar um gigantesco aparelho de educação, propaganda e patriotismo, assim como sistemas nacionais de segurança, saúde e bem-estar social”.

Isso não quer dizer que haja algo de errado com vínculos nacionais. Sistemas imensos não são capazes de funcionar sem lealdades de massa. Expandir o círculo de empatia humana tem seus méritos. As formas mais amenas de patriotismo têm estado entre as mais benevolentes criações humanas.

Acreditar minha nação ser única e ela merecer minha lealdade e daí eu tenho obrigações especiais com seus membros inspira-me a me importar com os outros e a fazer sacrifícios por eles. Nesse sentido, aumenta a empatia com outros humanos.

É perigoso acreditar na crítica da direita xenófoba ao chamado por ela de “marxismo cultural globalista”: sem nacionalismos estaríamos todos vivendo em paraísos liberais. Mais provavelmente, estaríamos vivendo em um caos tribal. Mas o liberalismo em costumes sociais, não na economia de mercado, seria um horror para os reacionários.

Países pacíficos, prósperos e liberais, como a Suécia, a Alemanha e a Suíça, cultivam todos um forte senso de nacionalismo. A lista de países aos quais faltam ligações nacionais robustas inclui o Afeganistão, a Somália, o Congo e muitos outros Estados em estágios ainda primitivos.

O problema começa quando o patriotismo benigno se transforma em ultranacionalismo chauvinista. Em vez de acreditar apenas em sua nação é única — o que é verdadeiro para todas as nações —, os ultranacionalistas tacanhos começam a sentir sua nação é suprema… e só Deus acima dela. Todo o cidadão deveria a ela toda a sua lealdade e não teria obrigações relevantes com mais ninguém. Essa lavagem-cerebral da casta de guerreiros-militares é um terreno fértil para conflitos violentos.

Durante gerações a crítica mais básica ao nacionalismo era ele levar à guerra. Mas a constatação de que havia relação entre nacionalismo e violência dificilmente era capaz de conter os excessos nacionalistas. Particularmente, quando toda nação justificava sua própria expansão militar alegando a necessidade de se proteger contra as armações de seus vizinhos.

Enquanto a nação provia a maior parte de seus cidadãos com níveis inéditos de segurança e prosperidade, eles estavam dispostos a pagar o preço com sangue. No século XIX e início do século XX esse compromisso nacionalista ainda parecia muito atraente.

Embora o nacionalismo estivesse levando a terríveis conflitos numa escala sem precedente, os Estados-nação modernos também construíam sistemas robustos de saúde, educação e bem-estar social. Os serviços nacionais de saúde faziam com que as batalhas parecessem ter valido a pena.

Tudo mudou em 1945. A invenção de armas nucleares abalou fortemente o equilíbrio do arranjo nacionalista. Depois de Hiroshima, as pessoas não temiam que o nacionalismo pudesse levar meramente à guerra — começaram a temer que levaria a uma guerra nuclear.

A aniquilação total serviu para aguçar a mente das pessoas, e graças, não em pequena medida, à bomba atômica, o impossível aconteceu: o gênio do nacionalismo foi espremido, ao menos em parte, de volta para sua garrafa. Na Era Nuclear, uma comunidade global aos poucos se desenvolveu além e acima das várias nações, porque somente uma comunidade desse tipo seria capaz de conter o demônio nuclear.

Durante a Guerra Fria o nacionalismo cedeu lugar a uma abordagem mais global da política internacional. Quando a Guerra Fria (e o anticomunismo, viu, direita retrógrada brasileira?) acabou, em 1991 com o fim da URSS, a globalização parecia ser a irresistível onda do futuro.

Esperava-se que o gênero humano abandonasse a política nacionalista, como se fosse uma relíquia de tempos mais primitivos que atrairia no máximo os mal-informados habitantes de alguns países subdesenvolvidos. Acontecimentos em anos recentes provaram, no entanto, que o nacionalismo ainda é capaz de seduzir até mesmo cidadãos da Europa e dos Estados Unidos, mais ainda da Rússia, da Índia e da China.

Alienadas pelas forças impessoais do capitalismo global, e temendo pelo destino de seus sistemas nacionais de saúde, educação e bem-estar social, pessoas dos países avançados em crise de desemprego, desde 2008, vão buscar conforto e sentido no seio da Nação. Eles se posicionam contra os imigrantes, quando seus antepassados foram também imigrantes conquistadores de territórios dos nativos habitantes desde tempos ancestrais.

Vamos criar um mundo no qual todos os humanos possam viver juntos ou vamos entrar na escuridão? Donald Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Narendra Modi e seus pares menores, submissos e reacionários, serão capazes de salvar o mundo apelando para nossos sentimentos nacionais, ou será a atual torrente nacionalista uma forma de evadir o intratável problema global enfrentado hoje?

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