Aproveitamento da Crença para Imposição de Sacrifícios

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: as narrativas capazes de nos proverem de sentido e identidade são todas ficcionais, mas os humanos precisam acreditar nelas. Então como fazer que a narrativa pareça real? É óbvio por que humanos querem acreditar na narrativa, mas como vão efetivamente fazer isso? Já milhares de anos atrás sacerdotes e xamãs acharam a resposta: rituais. Um ritual é um ato mágico que faz o abstrato virar concreto e o ficcional, real. A essência do ritual é o feitiço mágico.

“Quase tudo pode ser transformado em um ritual, ao se dar a gestos mundanos, como acender velas, tocar um sino ou contar contas um profundo significado religioso. O mesmo vale para gesticulações físicas, como curvar a cabeça, prostrar-se de corpo inteiro, ou juntar as mãos.”

Rituais semelhantes também têm sido usados para finalidades políticas. Durante milhares de anos, coroas, tronos e cetros representaram reinos e impérios inteiros, e milhões de pessoas morreram em guerras brutais travadas pela posse do “trono” ou da “coroa” de uma monarquia dinástica.

“O poder do Hocus Pocus [este é o nome de um encantamento utilizado por mágicos do século XVI com a função de criar um ar de mistério em suas performances] está vivo e bem de saúde em nosso moderno mundo industrial. Para muitas pessoas, em 2018, dois pedaços de madeira pregados um no outro são Deus, um pôster colorido na parede é a Revolução, e um pedaço de pano drapejando ao vento é a Nação. Você não consegue ver ou ouvir a França, porque ela só existe em sua imaginação, mas certamente pode ver a bandeira tricolor e ouvir A Marselhesa. Assim, ao agitar uma bandeira colorida e ao cantar um hino você transforma uma narrativa abstrata numa realidade tangível.”

O viés da “prova social” é uma falácia lógica. Se você sofrer por causa de sua crença em Deus ou na Nação, isso não prova suas crenças serem verdadeiras. Quem sabe você só esteja pagando o preço de sua credulidade? Contudo, a maioria das pessoas não gosta de admitir ser tola. Consequentemente, quanto mais sacrifícios fazem por uma determinada crença, mais forte é sua fé. Essa é a misteriosa alquimia do sacrifício.

Para nos trazer ao âmbito de seu poder, o sacerdote pregador faz o sacrifício sem precisar nos dar nada — nem chuva, nem dinheiro, nem vitória na guerra. O que ele precisa fazer é tirar alguma coisa. Uma vez tendo nos convencido a fazer algum sacrifício doloroso, estamos presos na armadilha.

O autossacrifício é extremamente convincente não apenas para os próprios mártires, mas também para os espectadores. Poucos deuses, nações ou revoluções são capazes de se sustentar sem mártires. Se você ousar questionar o drama divino, o mito nacionalista ou a saga revolucionária, será imediatamente repreendido: “Mas e os abençoados mártires morreram por isso! Você ousa dizer que eles morreram por nada? Você acha que esses heróis foram tolos?!”.

Se mártires são escassos e as pessoas não estão dispostas a se sacrificar, os sacerdotes sacrificadores podem cooptá-los para de modo a sacrificar outros em vez deles. Você pode sacrificar um humano para um vingativo deus Baal, queimar um herege na estaca para maior glória de Jesus Cristo, executar mulheres adúlteras porque assim disse Alá, ou enviar inimigos da classe para o gulag. Feito isso, uma alquimia do sacrifício ligeiramente diferente começa a exercer sua mágica em você.

Quando você inflige sofrimento a si mesmo em nome da alguma narrativa, isso lhe dá uma escolha: “Ou a narrativa é verdadeira ou eu sou crédulo e tolo”. Quando você inflige sofrimento a outros, você também tem uma escolha: “Ou a narrativa é verdadeira ou sou um vilão cruel”. E, assim como não queremos admitir que somos tolos, tampouco queremos admitir que somos vilões, preferimos acreditar que a narrativa é verdadeira.”

Quando pensamos em sacrifício humano geralmente temos em mente rituais horríveis em templos. É comum alegar o monoteísmo ter dado fim a essa terrível prática. Na verdade, os monoteístas praticavam o sacrifício humano em escala muito maior se comparada à maioria dos cultos politeístas. O cristianismo e o Islã mataram muito mais gente em nome de Deus que os seguidores de outros deuses. Ao mesmo tempo, os conquistadores espanhóis davam fim a todos os sacrifícios humanos aos deuses astecas e incas, mas, em casa, na Espanha, a Inquisição queimava hereges aos montes.

Sacrifícios podem vir em todos os formatos e tamanhos. Nem sempre envolvem sacerdotes empunhando facas ou pogroms sangrentos. O judaísmo, por exemplo, proíbe que se trabalhe ou viaje no dia sagrado do Shabat (o significado literal da palavra shabat é “ficar imóvel” ou “descansar”). O Shabat começa ao pôr do sol na sexta-feira, e vai até o pôr do sol no sábado, e entre os dois os judeus ortodoxos não fazem nenhum tipo de trabalho, inclusive o de rasgar papel higiênico do rolo, no banheiro.

Pior, ao impor dificuldades, como proibição de transporte público durante o Shabat, a centenas de milhares de cidadãos, os partidos religiosos comprovam e consolidam sua inabalável fé no judaísmo. Embora nenhum sangue seja derramado, o bem-estar de muita gente está ainda assim sendo sacrificado.

Se o judaísmo é apenas uma narrativa ficcional, então é algo cruel e impiedoso impedir uma avó de visitar seus netos ou impedir um estudante pobre de procurar alguma diversão na praia. Ao, apesar disso, agir assim, os partidos religiosos estão dizendo ao mundo — e a si mesmos —realmente acreditarem nessa narrativa judaica. Afinal, eles têm prazer em prejudicar pessoas sem motivo algum?

O sacrifício não apenas fortalece sua fé na narrativa, mas muitas vezes é um substituto de todas as suas outras obrigações para com ela. A maior parte das grandes histórias do gênero humano estabeleceu ideais que a maioria das pessoas não é capaz de realizar. Quantos são os cristãos que realmente cumprem os Dez Mandamentos ao pé da letra, e nunca mentem ou cobiçam? Quantos budistas atingiram até agora o estágio de ausência de ego? Quantos socialistas trabalham com sua máxima capacidade sem receber mais do que realmente necessitam?

Incapazes de corresponder ao ideal, as pessoas voltam-se para o sacrifício como uma solução. Um hindu pode fraudar seus impostos, sair com uma prostituta de vez em quando e tratar mal seus pais idosos, mas depois convence a si mesmo de que é uma pessoa muito piedosa, porque apoia a destruição de uma mesquita e até doa dinheiro para a construção de um templo hindu em seu lugar. Assim como na antiguidade, também no século XXI a busca humana por sentido na vida acaba frequentemente em uma sucessão de sacrifícios.

1 thought on “Aproveitamento da Crença para Imposição de Sacrifícios

  1. Prezado Fernando,

    o único sentido para a vida é “viver” (sacrifícios são tolices), não é necessário buscar nada, nem aderir a qualquer tipo de ideologias, nascemos com um grau de liberdade infinito e precisamos apenas adquirir conhecimento para viver o máximo de vida possível. A transposição do vazio {0} existente em nós é determinado pelo tempo de vida que acaba no momento de nossa morte!

    O mais interessante dessa conclusão é: {0} não viemos de lugar algum e não vamos para lugar nenhum {0}.

    Claro! Com uma Lana ao Lado ninguém quer morrer, não é mesmo? 😉

    Born To Die – Lana Del Rey (Nascido para morrer)

    (Lyrics)

    https://www.vagalume.com.br/lana-del-rey/born-to-die-traducao.html

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