Brasil Acima de Todos, Deus Acima de Tudo: Lema Fascista

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), avalia: todas as histórias de deuses em que as pessoas hoje acreditam — seja a lista de divindades (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_divindades), a Nação ou a Revolução — estão incompletas, cheias de buracos e eivadas de contradições. Por isso as pessoas raramente depositam toda sua fé numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade. Essas dissonâncias cognitivas são inerentes a quase todas as sociedades e movimentos.

Considere um típico adepto do ultraconservador norte-americano Tea Party. Ele de algum modo concilia isso com uma fé ardente em Jesus Cristo, com uma firme objeção a políticas de bem-estar social do governo e um firme apoio à National Rifle Association.

Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres em lugar de quanto a armar você até os dentes? Isso pode parecer incompatível, mas o cérebro humano tem muitos nichos e compartimentos, e alguns neurônios [Tico e Teco] simplesmente não falam com outros.

Harari acha uma contradição encontrar aqueles que têm uma vaga crença em uma futura revolução, ao mesmo tempo acreditarem também na importância de investir sensatamente seu dinheiro. Eles são capazes de passar com facilidade de uma discussão sobre a distribuição injusta de riqueza no mundo para uma discussão sobre o desempenho de seus investimentos em Wall Street. Ele cobra uma coerência lógica de ser revolucionário e ser asceta: devoto dedicado a privações e mortificações, praticante de exercícios espirituais de autodisciplina?!

Quase ninguém tem apenas uma identidade. Ninguém é só um muçulmano, ou só um capitalista. Mas de vez em quando surge um credo fanático e insiste as pessoas deverem acreditar em apenas uma única narrativa e ter somente uma identidade.

Nas gerações recentes o mais fanático desses credos foi o fascismo. O fascismo insistia que as pessoas não deveriam acreditar em nenhuma narrativa a não ser a nacionalista, e não deveriam ter nenhuma identidade, exceto sua identidade nacional.

Nem todos os nacionalistas são fascistas. A maioria dos nacionalistas têm uma grande fé na história de sua nação e enfatizam o mérito exclusivo de sua Nação e as obrigações que têm exclusivamente para com ela. No entanto, reconhecem que no mundo há mais do que sua nação.

Posso ser um brasileiro leal com obrigações especiais para com a nação brasileira, e ainda assim ter outras identidades. Posso ser também socialista, católico, marido, pai, cientista e vegetariano, e cada uma dessas identidades envolve obrigações adicionais. Às vezes várias de minhas identidades puxam-me para diferentes direções, e algumas de minhas obrigações entram em conflito uma com a outra. Mas quem disse que a vida é fácil?

Fascismo acontece quando o nacionalismo quer tornar a vida fácil demais para ele, negando todas as outras identidades e obrigações. Recentemente tem havido muita confusão quanto ao significado exato de fascismo. Pessoas chamam quase todas as pessoas das quais não gostam de “fascistas”. O termo corre o risco de degenerar num insulto genérico.

Então, o que fascismo realmente significa? Em resumo, enquanto o nacionalismo me ensina que minha nação é uma só e que tenho obrigações especiais em relação a ela, o fascismo diz que minha nação é suprema, portanto, devo a ela obrigações exclusivas.

Nunca devo preferir os interesses de qualquer grupo ou indivíduo aos interesses de minha nação, não importam quais sejam as circunstâncias. Se minha nação se disponha a obter uma vantagem insignificante ao infligir muita miséria sobre milhões de estrangeiros em uma terra distante não devo ter escrúpulos em apoiar minha nação. De outro modo, sou um traidor desprezível.

Se minha nação exigir eu matar milhões de pessoas — devo matar milhões de pessoas. Se minha nação exigir eu trair a verdade e a beleza — devo trair a verdade e a beleza.

Como um fascista avalia a arte? Como um fascista sabe se um filme é bom? É muito simples. Só existe um parâmetro. Se o filme atende aos interesses nacionais — é um bom filme. Se não atende aos interesses nacionais — é um filme ruim.

E como um fascista da Escola Sem Partido decide o que se deve ensinar às crianças na escola? Ele emprega o mesmo parâmetro. Ensinar às crianças tudo o que atenda aos interesses da nação; a verdade não tem importância para o Ministro da Educação!

O culto à nação é extremamente atraente, não só porque simplifica muitos dilemas difíceis, mas também porque faz as pessoas pensarem no seu pertencimento à coisa mais importante e mais bela no mundo — sua nação. Os horrores da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto mostram as terríveis consequências dessa linha de pensamento.

Infelizmente, quando pessoas falam sobre os males do fascismo, elas muitas vezes fazem um trabalho ruim, porque tendem a descrever o fascismo como um monstro oculto, sem explicar o que é tão sedutor nele. Por isso, hoje em dia, as pessoas às vezes adotam ideias fascistas sem se dar conta disso. Elas pensam: “Ensinaram-me que o fascismo é feio, e quando olho no espelho vejo algo muito bonito, então não posso ser um fascista”.

O problema com o mal é que, na vida real, ele não é necessariamente feio. Pode ser muito bonito na aparência. O cristianismo sabia disso melhor do que Hollywood, por isso a arte cristã tradicional tendia a representar o diabo como um galã. Por isso é tão difícil resistir às suas tentações.

É por isso que também é difícil lidar com o fascismo. Quando você narcisista olha o espelho fascista, o que vê lá não é feio. Quando os alemães olhavam o espelho fascista, na década de 1930, eles viam a Alemanha como a coisa mais bonita no mundo. Eles vão querer se perder dentro desse lindo coletivo.

A palavra “fascismo” vem do latim fascis. Significa “feixe de varas”. Isso soa como um símbolo sem nenhum glamour para uma das mais ferozes e mortais ideologias na história do mundo. Mas ele tem um significado profundo e sinistro. Uma vara isolada é muito fraca, e você pode facilmente quebrá-la em dois. No entanto, quando você junta muitas varas em um fascis, é quase impossível quebrá-las.

Isso implica que um indivíduo é uma coisa irrelevante, mas enquanto o coletivo estiver unido ele será muito poderoso. Portanto, os fascistas acreditam no ato de privilegiar os interesses do coletivo aos de qualquer indivíduo, e exigem que nenhuma vara isolada ouse quebrar a unidade do feixe. Nunca está claro onde um “feixe de varas” humano termina e outro começa.

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