Crítica ao Coletivismo Marxista

Geralmente, o marxismo é considerado cientifico, materialista, holístico, antipositivista, dialético e histórico, enquanto a teoria burguesa é considerada individualista e positivista. Mas estudiosos como Jon Elster (1985), John Roemer (1994), Adam Przeworski (1977) e G.A. Cohen (1995) contestaram esta interpretação padronizada de Marx.

O argumento influente e controverso de Elster, segundo Vijay Kumar Yadavendu, no livro “Shifting Paradigms in Public Health: From Holism to Individualism”,  é o individualismo metodológico (MI) também orientar certos aspectos do pensamento de Marx. Sua reivindicação é interessante não só porque rompe com a noção generalizada de o pensamento de Marx não envolver MI, mas também porque ele a usa para se concentrar nas “microfundamentos” da afirmação de Marx sobre causalidade.

Marx fornece um relato exemplar de como desvendar o complexo labirinto de relações entre ações individuais situadas e seus resultados não intencionais, relações através das quais as forças sociais e históricas ganham suas lógicas quase independentes. Ao adotar essa abordagem, escreve Elster, Marx conseguiu transformar a percepção de seus antecessores de Vico a Hegel de a história ser o resultado da ação humana, mas não de design humano.

Além disso, Elster argumenta Marx nem sempre seguir sua metodologia, muitas vezes não elaborar relações entre ações individuais e resultados sociais. Isso, em parte, explica o fato de tantos marxistas usarem conceitos referentes a atores coletivos, como classes ou Estados nacionais, como se esses atores tivessem e intenções com um poder explicativo autônomo.

O projeto de Elster é fornecer uma explicação teórica dos microfundamentos implícitos do trabalho de Marx através da Teoria do Ator Racional. Isso é o que o motiva a ler Marx à luz de MI.

Nas palavras de Elster, MI é a doutrina onde todos os fenômenos sociais, tanto sua estrutura, quanto sua mudança, são, em princípio, explicáveis de maneiras a envolverem apenas indivíduos: suas propriedades, seus objetivos, suas crenças e suas ações. O individualismo metodológico assim concebido é uma forma de reducionismo. Para ir de instituições sociais e padrões agregados de comportamento para os indivíduos é o mesmo tipo de operação como ir de células para moléculas.

A razão pela qual Elster prevê a aplicação do princípio do reducionismo às propriedades dos indivíduos, no entanto, é a conveniência de reformular explicações para eventos sequenciais, isto é, MI de eventos. Ele elabora na epistemologia do realismo mecanicista.

A lógica do reducionismo pode ser resumida da seguinte maneira. Se o objetivo da ciência é explicar por meio de leis, há uma necessidade de reduzir o intervalo de tempo entre causa e efeito, tanto quanto possível, a fim de evitar falsas explicações. Esses riscos são reduzidos quando nos aproximamos do ideal de uma cadeia contínua de causa e efeito. É quando reduzimos o intervalo de tempo entre as causas explicativas e os efeitos explicados.

Novamente, isso está intimamente associado a ir do agregado para o menos agregado no nível de fenômenos. Não é apenas a nossa confiança na explicação, mas a nossa compreensão é também melhorada quando passamos do macro para o micro, de mais para menos tempo. Para explicar, é necessário fornecer um mecanismo para “abrir a caixa preta” e mostrar as porcas e parafusos, as engrenagens e as rodas, os desejos e as crenças capazes de gerarem os resultados agregados.

Entre essas “porcas e parafusos” estão as intenções racionais dos agentes, as razões por trás do feito por eles. Para Elster, isso é uma analogia com a Ciência Natural, como fossem as “moléculas” das explicações sociais, a realidade última para a qual explicações de intenções devem se referir.

Segundo Elster, o microfundamento de explicações macrossociais não apenas melhora a confiança nas teorias, mas também as aprofunda. A relevância da análise microfundamentada para a teoria macroestrutural pode ser ilustrada pela discussão de Elster de formação de classes.

A formação de classes é o processo pelo qual as classes são constituídas como atores coletivos das lutas de classes. Os marxistas têm se interessado em resolver as relações entre diferentes tipos de formações de classe.

Elster afirma: o fundamental para compreender a formação de classes é entender os mecanismos facilitadores ou impeditivos do desenvolvimento da consciência de classe nos indivíduos. Para explicar esses mecanismos, Elster emprega uma série de conceitos derivados da teoria de interação estratégica racional ou “teoria dos jogos”.

O processo de formação de classes pode ser entendido em termos de formas de resolver o problema familiar do ‘free rider’ (caroneiro oportunista). O problema é motivar os indivíduos a contribuir para se alcançar algum “bem público”, benéfico para todos, independentemente da contribuição individual.

Elster descreve o problema da seguinte forma: “claramente, o que quer que alguém faça, é do meu interesse abster-me. Se todos os outros se envolverem ação coletiva, eu posso evitar a perda do unilateralismo pela abstenção, e se todo mundo abstive-me, posso evitar a perda do unilateralismo, abstendo-me também. Se o raciocínio aplica-se a cada agente … todos decidirão a abstenção e nenhuma ação coletiva estará disponível.

Elster sustenta muitas das análises de Marx sobre a formação da classe trabalhadora podem ser interpretadas à luz de. Por exemplo, Marx atribuiu considerável importância à concentração e à interdependência de trabalhadores em grandes fábricas. Esses fatores são importantes, devido à forma como aumentam o nível de informação entre os trabalhadores sobre as preferências e comportamentos prováveis ​​dos colegas de trabalho.

A afirmação mais clara de Marx para este efeito está em A ideologia Alemã, onde ele sugere o idealismo alemão não ter pensado no que está conceitualmente implícito na atividade histórica. Portanto, deve entrar em explicações.

Ele identifica pelo menos cinco dessas implicações. A primeira “premissa de toda a existência humana” é ativamente orientada para os requisitos materiais da vida, isto é, atividade produtiva destinada a satisfazer a necessidade imediata da natureza externa. O segundo é a “produção de novas necessidades”, isto é, uma relação reflexiva com a natureza interna. O terceiro conjunto de relações é a rudimentar sociabilidade das relações da família [clã, dinastia, etc.], relações necessárias existirem para a propagação da espécie. Um quarto conjunto é composto de relações sociais, sendo por social entendida a cooperação de vários indivíduos, não importa em quais condições, de qual maneira e a destinada a qual fim. Finalmente, essas relações são condições para a linguagem e autoconsciência, desenvolvidas através dessas relações historicamente situadas para se tornarem intrínsecas propriedades das práticas sociais – e individuais.

No caso de Elster, a importante implicação dos conceitos do “eu”, incluindo “eus” cujos comportamentos são imaginados de maneira instrumentalmente racional, devem ser explicados como produtos (não pressupostos) de atividades individuais situadas em contextos específicos.

Um ponto semelhante se aplica mutatis mutandis em relação à visão de Louis Pierre Althusser (2005) e Nicos Poulantzas (2000). Em suas obras, as estruturas sociais são conceitualmente fundamentais. Em contraste, a análise de Antônio Gramsci (1971) de Marx como o filósofo das práxis aponta o ponto certo: práxis, e não a maximização do comportamento ou da estrutura de classes, é o conceito mais abrangente para captar o pensamento de Marx. Esses outros conceitos são elaborações secundárias de conceitos de relações constrangidas.

A real dificuldade com Marx é ele ter criado sua ontologia de prática com base em atividades produtivas, mas não estéticas, morais e linguísticas. Isto deixou espaço para sua obra ser mal-entendida sobre o status lógico das estruturas sociais, como um encontra-se em Althusser (2005) e Poulantzas (2000). Eles são “holistas absolutos”.

Eles entenderam Marx ter se recusado a reificar as necessidades e capacidades individuais. Mas eles também acreditavam: rejeitar o MI requer o oposto, ou seja, conceber os indivíduos como nada além dos efeitos das estruturas sociais. Como Foucault observou, “relações sociais de poder envolvem freqüentemente atributos de subjetividade como parte de relações de poder” (Foucault 1978: 65).

Em contraste com Elster e os estruturalistas, a posição de Marx envolvia ver atributos derivados de subjetividade, incluindo capacidades de ação racional, como possibilidades através do intercurso social. Para ele, a polaridade da determinação social e a livre agência individual são um produto de um tipo específico de sociedade, assim como outras polaridades do eu e da sociedade. O ponto teórico de Marx é dever usar conceitos de modo a explicar a polaridade do eu e da sociedade, e não tratar a si mesmo e a sociedade como conceitos axiomáticos.

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