Narrativas como Obras Criativas Essencialmente Humanas

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, comenta: prever o sucesso dos trabalhos criativos com o público é uma tarefa extremamente difícil, fundamentalmente relacionada ao desafio de sermos capazes de prever as taxas de contágio das narrativas.

Não observamos com precisão os processos mentais e sociais possíveis de criar contágio. Por exemplo, é amplamente sabido a previsão do sucesso dos filmes, antes de serem lançados, é bastante difícil (Litman, 1983).

Jack Valenti, ex-presidente da Motion Picture Association of America, disse:

“Com toda a experiência, com todos os instintos criativos das pessoas mais sábias em nossos negócios, ninguém, absolutamente ninguém pode lhe dizer o que um filme vai fazer no mercado… Não, até o filme se abrir em um teatro escuro e as luzes surgirem entre a tela e o público, você pode dizer esse filme estar com sucesso garantido.”

Por analogia, a razão pela qual os escritores extraem citações, especialmente as citações de tamanho de parágrafo, e as exibe – como Shiller acabou de fazer é muitas vezes para transmitir uma narrativa, para dar ao leitor um senso histórico de uma narrativa passada. Ela teve impacto e pode ter impacto novamente no leitor, se for repetido, assim como se foi redigido com perfeição.

Tal como acontece com as piadas, uma narrativa deve ser entregue corretamente para ser eficaz. Da mesma forma, com a música, queremos ouvir uma e outra vez uma apresentação soando exatamente certa ao ser tocada/cantada pelo artista perfeito. É por isso mesmo a dificuldade de as narrativas serem estudadas. Por essa razão, há limitações na análise textual, envolvendo contagens de palavras ou contagens de n-gramas para quantificá-las e estudá-las.

Desde o início do século XX, estudiosos de uma ampla gama de disciplinas começaram a pensar: as narrativas, histórias aparentemente apenas com valor de entretenimento, são realmente centrais para o pensamento e a motivação humanos.

Por exemplo, em 1938, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre escreveu:

“Um homem é sempre um contador de contos, vive cercado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que acontece com ele através delas. Ele tenta viver sua vida como se estivesse contando uma história”.

Os contos tendem a ter interesse humano, mesmo se for apenas sugerido. Por analogia, quando dormem à noite, as narrativas aparecem para nós na forma de sonhos. Nós não sonhamos com equações ou figuras geométricas sem algum elemento humano.

Os neurocientistas descreveram o sonho como envolvessem personagens, cenários e uma estrutura hierárquica de eventos. Seria como um instinto de contar histórias. Ele se assemelha à atividade cerebral de uma forma de confabulação espontânea causada por lesões do sistema límbico anterior e suas conexões subcorticais (Pace-Schott, 2013).

Os antropólogos conduzem pesquisas sobre o comportamento de diversas tribos em todo o mundo e observaram um comportamento “universal”: as pessoas “usam a narrativa para explicar como as coisas vieram a ser e para contar histórias” (Brown, 1991).

Os visitantes de qualquer sociedade humana observarão pessoas de frente um para o outro, sentadas ao redor da televisão – ou a fogueira – juntas, e vocalizando, e mais recentemente, twitando, histórias. Ao mesmo tempo, esperam aprender as reações dos outros, porque estão interessadas nesse feedback para confirmar ou não os pensamentos. Parece a mente humana se esforçar para alcançar uma compreensão duradoura dos eventos, formando-os em uma narrativa embutida nas interações sociais.

Alguns sugeriram as histórias serem o que mais nos distinguem dos animais. Até mesmo nossa espécie pode se chamar Homo narrans (Fisher, 1984) ou Homo narrator (Gould, 1994) ou Homo narrativus (Ferrand e Weil, 2001), dependendo do latim usado. Esta pode ser uma descrição mais precisa do que o Homo sapiens, ou seja, o homem sábio? É mais lisonjeiro pensar em nós mesmos como Homo sapiens, mas não necessariamente mais preciso.

É importante notar as narrativas geralmente não poderem ser consideradas reflexivamente, porque, nas palavras dos psicólogos Schank e Abelson (1977), elas podem ser tomadas como roteiros. Quando em dúvida sobre como se comportar em uma situação ambígua, as pessoas podem pensar em narrativas e adotar um papel como se estivessem atuando em uma peça vista antes. As narrativas têm a capacidade de produzir normas sociais. Elas governam parcialmente nossas atividades, incluindo nossas ações econômicas.

As narrativas populares podem ter um espírito de “nós contra eles”, um tom maniqueísta do mal revelado descrito por outros na história. As piadas são muitas vezes à custa de alguém – membros de algum outro grupo. Em casos extremos, eles podem se concentrar em eventos como evidência de algum tipo de conspiração imaginária.

É claro, é racional as pessoas estarem atentas às conspirações, porque a história está repleta de exemplos reais delas. Mas a mente humana parece ter um interesse embutido em conspirações, uma tendência a formar uma identidade pessoal e lealdade a amigos construídos em torno de tramas percebidas de outros.

Essa disposição parece estar relacionada a padrões humanos de reciprocidade, de vingança contra inimigos presumidos, uma tendência considerada relevante para o comportamento econômico (Fehr e Gächter, 2000). A disposição pode ser amplificada individualmente por danos cerebrais, em um “distúrbio de personalidade paranoide”. É reconhecido no Manual Diagnóstico e Estatístico, Quinta Edição (DSM V) da Associação Americana de Psiquiatria como afligindo 2,3% a 4,4% da população adulta dos EUA.

A Associação Americana de Psiquiatria interrompeu a designação do DSM V com o termo “esquizofrenia paranoide” e outros termos antes usados para descreverem formas paranoicas entre outros transtornos psicóticos. Aqueles antes diagnosticados como esquizofrênicos paranoicos podem ter hoje dois diagnósticos de uma só vez: transtorno de personalidade paranoide e esquizofrenia.

Há uma quantidade assustadora na literatura acadêmica sobre narrativas, em vários departamentos acadêmicos e conceitos associados de mimética, normas, epidemias sociais, contágio de ideias. Embora possamos nunca ser capazes de explicar por que algumas narrativas “se tornam virais” e influenciam significativamente o pensamento, enquanto outras narrativas não o fazem, seria sensato adicionar algumas análises sobre o que as pessoas estão falando se quisermos buscar a fonte das flutuações econômicas.

Nós, economistas, não devemos apenas levantar nossas mãos e decidir ignorar essa vasta literatura. Precisamos entender a base narrativa das flutuações macroeconômicas e pensar em como a Economia Narrativa deveria ser mais informativa sobre as ações políticas agora e no futuro.

As narrativas são os principais vetores de mudanças rápidas na cultura, no zeitgeist e, por fim, no comportamento econômico. Muitas vezes há muitas narrativas paralelas em torno de um tema comum. Narrativas dispersivas têm criado mudança cultural muito antes da revolução da Internet, quando houve o surgimento do fenômeno paralelo dos vírus de computador. Ele se espalhou por contágio de computador para computador e então se popularizou a metáfora do vírus.

Falar da disseminação epidêmica de narrativas remonta a séculos. David Hume escreveu em 1742: “… quando qualquer causa gera uma inclinação ou paixão particular, em um certo tempo e entre certas pessoas, embora muitos indivíduos possam escapar do contágio e serem governados por paixões peculiares a si mesmos, todavia, a multidão certamente será apanhada pela afeição comum e governada por ela em todas as suas ações”.

Charles McKay chamou a atenção para a propagação contagiante de “delírios populares extraordinários” (1841). Gustave Le Bon disse em seu livro Psychologie des foules (Psicologia da multidão): “Ideias, sentimentos, emoções e crenças possuem em multidões um poder contagiante tão intenso quanto o dos micróbios” (Le Bon, 1895).

Termos relacionados foram consciência coletiva (Durkheim 1897), memória coletiva (Halbwachs 1920s), memes (Dawkins 1976). O contágio também está relacionado a questões de identidade, porque uma parte importante da maioria das narrativas descreve eventos passados ​​envolvendo pessoas. Exige empatia, pois se deve imaginar como no lugar de outra pessoa e, assim, momentaneamente, pelo menos, sentir uma identidade compartilhada com outra pessoa (Akerlof e Kranton 2011).

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