Debate entre o Individualismo e Holismo Ontológico

Segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), o debate entre individualismo-holismo ontológico diz respeito ao status ontológico dos fenômenos sociais (ou fatos) e, como parte disso, sua relação com os indivíduos (ou fatos sobre indivíduos).

Ontológico é relativo a (ou próprio da) ontologia, a investigação teórica do ser. No heideggerianismo, é relativo ao ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental, em oposição ao ser ôntico. Este se refere aos entes múltiplos e concretos da realidade.

Os holistas ontológicos argumentam: os fenômenos sociais existem sui generis, ou acima de indivíduos, enquanto individualistas ontológicos negam isso. Antes de olhar para várias interpretações da ideia de fenômenos sociais existirem de modo sui generis, é instrutivo brevemente caracterizar as noções de fenômenos sociais e indivíduos.

Sui generis é uma expressão em latim com significado “de seu próprio gênero” ou “de espécie única”. Representa a ideia de unicidade, raridade e particularidade de algo ou alguma coisa. Quando se diz, no ramo filosófico, determinada coisa ser sui generis significa ser “especial”, ou seja, dotada de uma particularidade e peculiaridade não comparável a qualquer outra coisa.

Dentro do debate individualismo-holismo, de forma mais geral, é comum distinguir entre vários tipos de fenômenos sociais. Alguns dos mais frequentes mencionados são:

(a) organizações sociais, como exemplificado por uma nação, uma empresa e uma universidade;

(b) propriedades estatísticas como a taxa de alfabetização ou suicídio de um grupo de indivíduos;

(c) normas e regras, conforme ilustrado pela regra para dirigir para a direita e proibição de sexo com familiares próximos;

(d) culturas como a cultura maia; e

(e) estruturas sociais tipicamente identificadas com um ou vários dos tipos de fenômenos sociais já listados.

O debate ontológico concentrou-se principalmente na questão de saber se as organizações sociais existem para além dos indivíduos. Neste contexto, as organizações sociais são simplesmente referidas por meio de termos como “universidade”, “hospital” e similares.

É menos óbvio como os indivíduos devem ser caracterizados a partir dessa perspectiva, oferecendo uma análise ontológica de sua relação com os fenômenos sociais. Não surpreendentemente, portanto, as opiniões divergem nessa questão. Mais notavelmente, é uma questão de disputa exatamente sobre quais tipos de interações e inter-relações entre os indivíduos é permissível invocar como parte de análises ontológicas deste tipo.

Além disso, e relacionados a isso, é discutido se é admissível mencionar as crenças dos indivíduos sobre organizações sociais como nações e empresas. Ou, para mencionar um último exemplo, há diferentes visões sobre se uma especificação de indivíduos deve ser tomada amplamente e incluem os objetos usados por eles e, mais geralmente, o ambiente físico onde eles se encontram.

Ao longo da história do debate ontológico, uma variedade de sugestões tem sido feita como condição para os fenômenos sociais existirem de modo sui generis. Aqui estão algumas das muitas, e por vezes sobrepostas, formas em que esta ideia tem sido exposta:

  1. o critério primordial causal: fenômenos sociais como organizações sociais existem além dos indivíduos na medida em que eles têm poderes causais que são independentes de, e anulam, os poderes causais dos indivíduos.
  2. o critério de tradução: fenômenos sociais como organizações sociais existem além dos indivíduos, na medida em que termos, como “nação” e “escola”, referem-se a esses fenômenos e não podem ser traduzidos em afirmações sobre indivíduos.
  3. o critério de composição: fenômenos sociais como organizações sociais existem além dos indivíduos, na medida em que eles não são apenas compostos de conjuntos de indivíduos.
  4. o critério de determinação: fenômenos sociais como organizações sociais existem para além dos indivíduos na medida em que os indivíduos não causalmente determinar quais tipos de organizações, propriedades e similares estão sendo instanciados.
  5. o critério de agência: fenômenos sociais como organizações sociais existem sobre e acima dos indivíduos na medida em que se qualificam como agentes de grupo que têm atitudes supervenientes às atitudes dos indivíduos.

Em seus escritos de toda a virada do século XIX, Durkheim é comumente tomado como o autor capaz de distinguir o fato social. Apela a ele como critério primordial causal ao sustentar os fenômenos sociais existirem sui generis (ver Durkheim, 1897). A visão oposta é particularmente associada ao trabalho de Popper e Watkins por volta dos anos 50.

Tanto Popper quanto Watkins repudiaram a alegação de os fenômenos sociais terem poderes causais substitutos dos poderes dos indivíduos. Ela vai junto com a visão historicista de as sociedades passarem por fases de desenvolvimento de acordo com as leis determinísticas do desenvolvimento histórico, isto é, leis cujos indivíduos participantes dessa história não podem mudar de forma alguma (ver Popper [1957] e Watkins [1957]). Popper argumentou não poder haver tais leis e, como tal, ele rejeitou a ideia da existência sui generis de fenômenos sociais em relação ao critério primordial causal.

Voltando para o critério de tradução, foi apelado em um artigo muito discutido por Mandelbaum, publicado em 1955. Ele sustentou ser impossível traduzir termos referentes a fenômenos sociais em termos referentes apenas aos pensamentos e ações dos indivíduos. Isso mostra, ele argumentou, fenômenos sociais não serem idênticos às decisões de indivíduos específicos, os quais têm certos pensamentos e realizam determinadas ações. Assim, ele concluiu os fenômenos sociais deveriam ser considerados existentes de modo sui generis.

Atualmente poucos são os teóricos defensores das teses de ontologia, seja do holismo, seja do individualismo, por apelarem à sobre determinação causal e ao critério de tradução. Em vez disso, a maioria dos teóricos tende a se preocupar com a composição e os critérios de determinação.

Mais especificamente, a maioria dos participantes no debate se assumem como individualistas ontológicos por referência a um ou a ambos critérios. Eles subscrevem a visão de os fenômenos sociais serem compostos de, e não causalmente determinados por indivíduos.

Mas o que exatamente significa dizer os fenômenos sociais não serem causalmente determinados pelos indivíduos? Essa questão recebeu muita atenção no debate recente.

Uma sugestão influente é para soletrar essa relação como uma superveniência. Aplicado aos fenômenos sociais, esta é a afirmação de não pode haver diferença no nível dos fenômenos sociais sem haver diferença no nível dos indivíduos. Grosso modo, este nível significa, se indivíduos com certas propriedades, permanecendo em certas relações, etc. instanciar uma universidade, então eles não podem deixar de fazê-lo a menos se houver alguma mudança de lugar quanto às suas propriedades, inter-relações e assim por diante. Esta maneira de soletrar a noção de superveniência é apenas uma entre muitas.

Além disso, várias outras noções, tais como as noções de emergência, realização e aterramento, foram trazidas em jogo na tentativa de sacar a noção de determinação não-causal. Cada especificação exata, também, é uma questão de discussão.

A ampla aceitação da visão de os fenômenos sociais não serem causalmente determinados por indivíduos significa os critérios mais recentes de existência sui generis serem tomados em total compatibilidade com esse ponto. Para ilustrar essa observação, considere a critério de agência como atualmente defendido por List e Pettit (2011).

O pensamento por trás do critério é: para as organizações sociais e semelhantes se qualificarem como agentes de grupo deve ser possível atribuir a elas certas atitudes supervenientes às atitudes dos indivíduos. É muito difícil, no entanto, definir as atitudes individuais exatas onde essas atitudes de agentes do grupo supervenientes se assentam em cima. Por esta razão, List e Pettit sustentam: os fenômenos sociais, caso sejam agentes de grupo, devem ser considerados como existentes para além dos indivíduos.

Em discussões sobre o status ontológico dos fenômenos sociais, o termo “explicação” às vezes é usado para se referir a análises ontológicas de como os indivíduos devem estar relacionados, quais propriedades eles devem ter, e assim por diante, para fenômenos de vários tipos. Explicações desse tipo mapeiam relações não causais ou sincrônicas entre fenômenos sociais e indivíduos. Eles deviam distinguir-se das explicações capazes de mapear as relações causais ou diacrônicas entre eventos ou estados, envolvendo fenômenos sociais e indivíduos. Isto é explicações no sentido causal ou diacrônico constituem o foco da abordagem metodológica do debate individualismo-holismo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s