Uso maciço do WhatsApp também na Eleição da Índia

Madhumita Murgia, Stephanie Findlay e Andres Schipani (Valor, 17/05/19) informam: na gigantesca eleição geral da Índia, com cerca de 900 milhões de eleitores, a ser completada neste domingo, o partido do premiê indiano, Narendra Modi, o Bharatiya Janata (BJP), está usando o WhatsApp para fazer uma das campanhas políticas digitais mais sofisticadas do mundo, contando com um enorme exército de voluntários.

A proliferação de smartphones aumentou significativamente o acesso à internet na Índia. Mais de 300 milhões de indianos estão agora no WhatsApp, o que torna o país, de longe, o maior mercado do aplicativo. O WhatsApp se tornou a arena central da eleição na Índia. Ela começou em 11 de abril de 2019.

O pleito indiano segue-se à desagregadora eleição no Brasil, na qual o candidato da extrema-direita, um obscuro capitão ignorante e desqualificado para o cargo presidencial, saiu vencedor. Ele foi ajudado, em parte, pela mídia provocada por uma suposta facada, em outra parte, por uma onda de boatos tóxicos e de desinformação, boa parte dos quais disseminados por meio do WhatsApp.

A Índia é o mais novo teste da capacidade do aplicativo de mensagens de moldar uma eleição, agora na maior democracia global.

O problema, evidentemente, não está na tecnologia, mas sim no uso dela por pessoas ignorantes e/ou mal-educadas. Se o aplicativo ajudou a unir famílias e amigos com uma ferramenta de comunicação barata, ele também se tornou um canal de divulgação de notícias falsas impossível de monitorar.

As pessoas intolerantes de extrema-direita encontraram seus pares e perderam a vergonha anterior, quando tinham um certo pudor em mostrar sua ignorância e seu anti-intelectualismo. Sem o anterior complexo de inferioridade, viram poderem ser maioria em uma eleição se unissem a ignorância e a má-fé.

“O WhatsApp é a câmara de ressonância de todas as mentiras deslavadas, notícias falsas e besteiras na Índia, é um esgoto tóxico“, diz Palanivel Thiagarajan, político e diretor do departamento de informática do DMK – partido regional do Estado de Tamil Nadu. Ele disputa as eleições contra o BJP.

O aplicativo tem 1,5 bilhão de usuários no mundo, mas é mais popular fora dos EUA, em países onde sua controladora, o Facebook, espera ter novos fluxos de receita.

Claire Wardle, pesquisadora da Universidade Harvard e cofundadora do grupo sem fins lucrativos First Draft, voltado para a detecção da desinformação nas redes sociais, diz o WhatsApp ter se deslanchado com a explosão de usuários de smartphones em países como Brasil, Nigéria e Índia, onde virou a “principal fonte de informação”.

“Essas dívidas sobre o seu papel na disseminação de desinformação não têm só a ver com as eleições”, diz ela. “Têm a ver com o papel do WhatsApp nas sociedades.”

Nos últimos anos, foi o Facebook quem atraiu a maior parte das críticas sobre propagação de notícias falsas e manipulação eleitoral. Mas o WhatsApp, adquirido em 2016 pelo Facebook por US$ 22 bilhões, se tornou a plataforma preferida, não só na Índia e no Brasil como também em partes da Europa, como Espanha e Reino Unido.

Nos últimos doze meses, mais ou menos, foi observada uma migração dos feeds de notícias no Facebook para canais mais privados, como o WhatsApp e o Messenger, especialmente em lugares cheio de “idiotas inúteis” como os direitistas do Brasil.

Seu sistema de criptografia leva a concluir as conversas pelo WhatsApp serem inacessíveis mesmo para a própria empresa que o opera. Mas isso o tornou mais vulnerável ao uso indevido, principalmente em eleições, dizem os críticos. Eles acusam aplicativo de ter se tornado uma plataforma de disseminação de desinformação política.

Esse risco alcançou seu auge no Brasil no ano passado, a primeira “eleição movida a WhatsApp”. Com 120 milhões de usuários de WhatsApp em um país de mais de 211 milhões de pessoas, a plataforma foi tomada por falsos boatos, fotos manipuladas e áudios falsos — boa parte dos quais ajudaram a eleger um candidato desqualificado para ocupar um cargo de respeitabilidade. Pesquisadores estudaram 100 mil imagens circulantes em 347 grupos. Detectaram apenas 8% delas eram “plenamente verdadeiras”. Mas a má-fé junto com a ignorância levaram a acreditar nelas.

A desinformação foi gigantesca no Brasil. Foi uma eleição assolada por fake news que deixou um país dividido ao meio pelo ódio“, diz Fabrício Benevenuto, da Universidade Federal de Minas Gerais. “A discussão política acabou sendo reduzida a um meme.”

Na Índia, o BJP é o mais ativo entre os principais partidos no uso do WhatsApp para ganhar votos. “Tenho tentado chegar a todas as famílias por meio do WhatsApp”, diz Punit Agarwal, coordenador de redes sociais do BJP em Déli.

Agarwal diz: o partido tem 74 mil voluntários encarregados de difundir sua mensagem pelo WhatsApp. “Havia um público limitado da última vez”, diz. “Desta vez, temos um público enorme.”

O WhatsApp se tornou a plataforma preferida dos políticos não só devido ao seu enorme alcance, extrapolando a base de eleitores fiéis de um partido, mas também devido à falta de vigilância. Mensagens encaminhadas por meio do sistema não têm informações sobre seu local de origem, mas se beneficiam da confiança instilada pelo fato de virem de um contato.

Agarwal nega que o BJP esteja disseminando conteúdo polarizador, mas dados do WhatsApp reunidos por analistas, além de provas factuais, mostram: os indianos estão sendo inundados por memes de propaganda, boa parte antimuçulmana e crítica ao Partido do Congresso, de oposição.

Kiran Garimella, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), está estudando a desinformação na Índia. Ele analisou mais de 5 milhões de mensagens de WhatsApp postadas em 5.000 grupos públicos nos últimos cinco meses, envolvendo aproximadamente 1 milhão de pessoas.

Observamos ela ser focada especificamente em desinformação sutil, baseada em imagens“, diz Garimella. As principais imagens compartilhadas acusavam o líder do Partido do Congresso, Rahul Gandhi, de ser “um falso hindu” e inventavam uma ligação dele com Vijay Mallya — empresário bilionário fugitivo da Índia.

Por pressão do governo indiano, o WhatsApp contratou executivos e adotou medidas para dificultar o compartilhamento, limitando o número de destinatários de uma mensagem encaminhada e reduzindo o tamanho dos grupos.

Essas medidas tiveram impacto limitado, segundo acadêmicos. Houve muitos casos quando a mesma mensagem foi enviada por vários grupos, mais de 20 grupos dentro de um intervalo de 10 segundos; isso significa haver um robô ou um software enviando as mensagens.

O WhatsApp disse ter gastado US$ 10 milhões na Índia para veicular uma campanha na mídia tradicional (TV, rádio e jornais) de esclarecimento público sobre os perigos da desinformação.

“É ótimo que o WhatsApp… [esteja] fazendo campanhas e [adotando] outros mecanismos, mas receio que isso não alcance as pessoas que efetivamente o usam”, diz Aviv Ovadya, fundador do Thougtful Technology Project, na Califórnia.

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