Narrativas Econômicas (por Robert Shiller)

Narrative Economics by Robert J. Shiller (Cowles Foundation Discussion Paper No. 2069 – Cowles Foundation For Research In Economics – Yale University – http://Cowles.Yale.Edu/ January 2017), ganhador do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2013, passou a ser uma referência para debate entre os economistas. É seu discurso presidencial proferido na 129ª reunião anual da American Economic Association, no dia 7 de janeiro de 2017, em Chicago.

Ele analisa a epidemiologia das narrativas relevantes para as flutuações econômicas. O cérebro humano sempre esteve muito sintonizado com as narrativas, factuais ou não, para justificar ações contínuas, até mesmo ações básicas como gastar em consumo ou investir. As histórias motivam e conectam as atividades a valores e necessidades profundamente sentidas. As narrativas “se tornam virais” e se espalham longe, até mesmo em todo o mundo, com impacto econômico.

A Depressão de 1920-21, a Grande Depressão dos anos 1930, a chamada “Grande Recessão” de 2007-9 e a controversa situação político-econômica atual são consideradas os resultados das narrativas populares de seus respectivos tempos. Embora essas narrativas sejam fenômenos profundamente humanos e difíceis de serem estudados de maneira científica, a análise quantitativa pode nos ajudar a entender melhor essas epidemias no futuro.

Por economia narrativa, Shiller quer dizer o estudo da disseminação e dinâmica de narrativas populares, as histórias, particularmente aquelas de interesse e emoção humanos, e como elas mudam através do tempo, para entender as flutuações econômicas.

Uma recessão é uma época quando muitas pessoas decidiram gastar menos, por exemplo, ficar por enquanto com aquele móvel antigo em vez de comprar novo, ou adiar o início de um novo negócio, adiar a contratação de nova ajuda em um negócio existente. ou para expressar apoio ao governo fiscalmente conservador. Eles podem tomar qualquer uma dessas decisões em reação à recessão em si, ou seja, feedback.

Mas para entender por que uma recessão começou, precisamos de ir mais além de uma teoria de feedback. Temos de considerar a possibilidade de, às vezes, a razão dominante pela qual uma recessão se torna grave está relacionada à prevalência e à vivacidade de certas histórias, e não ao feedback puramente econômico ou aos multiplicadores modelados pelos economistas.

O campo da Economia deve ser expandido para incluir um sério estudo quantitativo das mudanças nas narrativas populares. Segundo Shiller, não houve experimento controlado para provar a importância de mudar as narrativas causadoras de flutuações econômicas.

Não podemos provar facilmente qualquer associação entre a mudança de narrativas e os resultados econômicos não ser uma causalidade reversa, desde os resultados até as narrativas. Mas tem havido verdadeiras experiências controladas mostrando que as pessoas respondem fortemente às narrativas, nos campos do marketing (Escalas 2007); jornalismo (Machill et al. 2007); educação (McQuiggan et al. 2008); intervenções de saúde (Slater et al. 2003); e filantropia (Weber et al. 2006).

O objetivo de Shiller neste artigo é descrever o sabido por cientistas sobre as narrativas e a inclinação da mente humana para serem engajadas por elas, para considerar razões para esperar as narrativas poderem ser vistas como importantes. Em grande parte, narram choques exógenos à economia agregada.

Esta comunicação estende alguns trabalhos anteriores feitos por Shiller com George Akerlof (Akerlof e Shiller, 2009, 2015) e alguns dos seus trabalhos anteriores feitos há décadas (Shiller 1984), mas desenvolve a análise e captura uma literatura relevante muito mais ampla.

É claro quase nada além de “tudo sob o sol” é verdadeiramente exógeno na economia, mas novas narrativas podem ser consideradas como inovações causativas, uma vez que cada narrativa se origina na mente de um único indivíduo ou uma colaboração entre alguns.

Joel Mokyr (2016) chama tal indivíduo de “empreendedor cultural”, e remete o conceito a David Hume (1742). Ele escreveu: “o que depende de poucas pessoas pode, em grande medida, ser atribuído ao acaso, ou a um segredo com causas desconhecidas; o que surge de um grande número pode muitas vezes ser explicado por causas determinadas e conhecidas” (Hume (1788) XIV p. 101)

Shiller apresentar neste artigo alguns pensamentos sobre esses efeitos de “poucas pessoas” e oferece uma classe de modelos matemáticos para algumas dessas causas determinadas e conhecidas do caminho das narrativas, quantificando a dinâmica das narrativas. Considerará como nossa compreensão pode ser reforçada por narrativas a respeito de grandes eventos econômicos: a Depressão de 1920-21, a Grande Depressão dos anos 1930, a Grande Recessão de 2007-2009, e o nosso tempo presente, logo após a nossa eleição presidencial de 2016, cheia de narrativas.

Ele usa o termo narrativa para significar uma história simples ou uma explicação facilmente explicável de eventos, os quais muitas pessoas querem colocar em conversas ou em notícias ou mídias sociais, porque podem ser usadas para estimular as preocupações ou emoções dos outros, e/ou porque defende um interesse próprio. Para ser estimulante, geralmente tem algum interesse humano direto ou implícito.

Como Shiller (e muitos outros) usam o termo, uma narrativa é “uma jóia para a conversa”. Ela pode tomar a forma de um conto extraordinário ou heroico, ou mesmo de uma piada. Não é geralmente uma história pesquisada, e pode ter furos gritantes, como em “lendas urbanas”.

A forma da narrativa varia ao longo do tempo e através de relatos, mas mantém um elemento contagioso central, quando tem formas bem-sucedidas em se espalhar. Porque um elemento é contagioso, quando pode até “se tornar viral”, pode ser difícil de entender, a menos que reflitamos com cuidado a razão pela qual as pessoas gostam de espalhar a narrativa. As mutações nas narrativas surgem aleatoriamente, assim como nos organismos da biologia evolutiva, e quando são contagiosas, as narrativas mutantes geram mudanças aparentemente imprevisíveis na economia.

As narrativas podem ser baseadas em vários graus de verdade. O pensamento positivo pode melhorar o contágio (Benabou 2013). O impacto de narrativas não factuais pode ser um pouco maior no mundo de hoje em relação ao de décadas passadas, porque a mídia de notícias estabelecida está em reviravolta após o recente advento da moderna tecnologia da informação e rede social.

Mas, nas últimas décadas, também podemos observar que narrativas sem base factual foram amplamente disseminadas e acreditadas. Por exemplo, até os tempos modernos, afirmava-se as mulheres não serem capazes de aprender as ocupações dos homens (Goldin 2014). Da mesma forma, argumentou-se alguns grupos raciais ou étnicos não serem realmente capazes de se integrar na sociedade civilizada (Myrdal, 1974). Como as pessoas poderiam acreditar nessas visões no passado parecem difícil de imaginar hoje porque não estamos mais imersas em suas narrativas.

De forma perturbadora, o Oxford Dictionary de 2016 deu “pós-verdade” como “palavra internacional do ano”.  As narrativas estão cada vez mais baseadas em ideias falsas?

Essa possibilidade é algo necessário de tentarmos entender melhor. Entre as pessoas normais, as narrativas são com frequência um tanto desonestas e manipuladoras. Em um mercado competitivo, quando os concorrentes manipulam os clientes, e as margens de lucro têm sido levados a níveis normais, nenhuma empresa pode optar por não se engajar em manipulações semelhantes. Se eles tentassem, poderiam ser forçados à falência. Um equilíbrio de phishing com um certo nível aceitável de desonestidade na narrativa é estabelecido (Akerlof and Shiller, 2015).

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