A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global

Niall Ferguson, no prefácio do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma a palavra network (rede) ter sido raramente utilizada antes do fim do século XIX. Hoje, é usada em excesso tanto como verbo quanto como substantivo na língua inglesa.

Para um jovem ambicioso vale sempre a pena ampliar a rede de contatos (networking). Por sua vez, para um idoso, a palavra “rede” tem outra conotação. Suspeita de o mundo ser controlado por redes poderosas e exclusivas: Os Banqueiros, A Elite Governante, O Sistema, O Mercado, Os Judeus, Os Maçons, etc. As teorias conspiratórias não seriam tão persistentes se essas redes de “caça às bruxas” ou “sacrifício de bodes-expiatórios” não existissem de nenhuma forma.

O problema em defender essas teorias conspiratórias é, se excluídos, sentem-se lesados, e daí eles invariavelmente têm dificuldades para entender e interpretar o modo como as redes operam. Em particular, eles tendem a partir do princípio de redes de elite controlarem em segredo e com facilidade as estruturas formais do poder.

A pesquisa de Niall Ferguson – assim como a sua própria experiência – indica não ser esse o caso. Pelo contrário, as redes informais costumam ter uma relação altamente ambivalente, às vezes até hostil, com as instituições estabelecidas.

Os historiadores profissionais, em contraste, tendiam até há bem pouco tempo a ignorar, ou pelo menos subestimar, o papel das redes. Mesmo hoje, a maioria dos historiadores acadêmicos prefere estudar os tipos de instituição capazes de criarem e conservarem arquivos, ignorando quem não deixa um rastro de papel organizado.

Ferguson reitera sua pesquisa e experiência lhe ensinaram a ter cautela diante da tirania dos arquivos. Muitas vezes, as maiores mudanças na história são os feitos de grupos de pessoas organizados de maneira informal e com pouca documentação.

Este livro é sobre o fluxo e refluxo irregular da história. Ele distingue as longas épocas quando as estruturas hierárquicas dominaram a vida humana das eras mais raras e dinâmicas quando as redes foram favorecidas, graças em parte às mudanças na tecnologia. Em termos simples:

  • quando a hierarquia é a ordem do dia, o poder de cada um equivale ao do seu degrau na escada organizacional de um Estado, corporação, ou instituição sistematizada de modo similar;
  • quando as redes têm a vantagem, o poder de cada um equivale ao da sua posição em um ou mais grupos sociais estruturados horizontalmente.

Como veremos, essa dicotomia entre hierarquias e redes é uma simplificação exagerada.

Ferguson pergunta: é melhor hoje fazer parte de uma rede influente em lugar de uma hierarquia poderosa? Qual descreve melhor a sua posição?

Todos nós somos necessariamente membros de mais de uma estrutura hierárquica. Somos quase todos cidadãos de pelo menos um Estado. Muitos de nós somos empregados de pelos menos uma corporação – e uma quantidade surpreendentemente alta das corporações do mundo é ainda controlada pelo Estado de maneira direta ou indireta.

A maioria das pessoas com menos de 20 anos de idade no mundo desenvolvido provavelmente está em algum tipo ou outro de instituição educacional. Não importa o que essas instituições aleguem, a estrutura delas é fundamentalmente hierárquica.

Um número significativo de jovens em todo o mundo, embora relativamente bem menor em lugar dos últimos quarenta séculos, está cumprindo serviço militar, por tradição a mais hierárquica das atividades. Sob a casta dos guerreiros-militares, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Se você “responde” a alguém, mesmo que seja apenas a um Conselho de Administração, então faz parte de uma hierarquia. Quanto mais pessoas respondem a você, mais longe você está da base da pirâmide.

Contudo, a maioria de nós pertence a mais redes em lugar de a hierarquias. Isso não se refere apenas às contas no Facebook, no Twitter ou em uma das outras redes de computador surgidas na internet nos últimos dez anos.

Temos redes de parentes (e poucas famílias no mundo ocidental de hoje são hierárquicas), de amigos, de vizinhos, de pessoas com compartilhamento dos nossos interesses. Somos ex-alunos de instituições educacionais. Somos torcedores de times de futebol. Somos membros de clubes e sociedades, ou apoiadores de instituições de caridade. Até a nossa participação nas atividades de instituições com estrutura hierárquica como igrejas ou partidos políticos têm maior relação com redes em vez de submissão ao trabalho, pois participamos como voluntários e não temos expectativa de compensação monetária.

Os mundos das hierarquias e redes se encontram e interagem. Dentro de qualquer grande corporação há redes bem distintas do “organograma” oficial. Quando um chefe é acusado de favoritismo por alguns funcionários, a insinuação é de ter alguns relacionamentos informais capazes de tomar precedência sobre o processo formal de promoções, administrado pelo “Departamento de Recursos Humanos” no quinto andar.

Quando funcionários de firmas diferentes se encontram para beber após o trabalho, eles passam da torre vertical da corporação para a praça horizontal da rede social. De modo crucial, quando um grupo de indivíduos se reúne, e cada um tem poder em uma estrutura hierárquica diferente, essa rede de contatos pode levar a consequências profundas.

Neste livro, Niall Ferguson quer demonstrar essas redes serem encontradas em quase toda a história humana. Elas são muito mais importantes se comparado ao sugerido pela maioria dos livros de história.

Antigamente, historiadores não primavam pela reconstrução de redes do passado. Elas eram negligenciadas em parte porque a pesquisa histórica tradicional utiliza sobremaneira como fonte de material os documentos produzidos por instituições hierárquicas como os Estados. As redes mantêm registros, mas estes não são tão fáceis de se encontrar.

Por muitos anos, como a maioria dos historiadores, Ferguson foi casual na maneira como pensava e escrevia sobre as redes. Na sua mente, havia um vago diagrama onde conectava os membros da elite de negócios alemão-judaica por meio de vários laços de parentesco, parcerias e “afinidade eletiva”. Mas não lhe ocorreu pensar de modo rigoroso naquela rede. Contentou-se em pensar, de forma preguiçosa, nos seus “círculos” sociais, um termo muito imperfeito da Arte de Interconexões.

Ele receia não ter sido muito mais sistemático quando escreveu, anos mais tarde, a história dos bancos interconectados dos Rothschild. Concentrou-se demais na complexa genealogia da família, com seu sistema nada incomum de casamentos entre primos, e muito pouco na rede mais ampla de agentes e bancos afiliados. Esta rede bancária não foi menos importante em tornar aquela família a mais rica do mundo no século XIX.

Em retrospecto, ele deveria ter prestado mais atenção àqueles historiadores de meados do século XX, pioneiros em prosopografia (biografia coletiva), sobretudo como um modo de diminuir o papel da ideologia como ator histórico autônomo. No entanto, os esforços deles não chegaram a constituir uma análise formal de rede.

Além disso, eles foram suplantados por uma geração de historiadores sociais (“socialistas”, na classificação do historiador liberal, em vez de “marxistas”) determinada a apontar as classes ascendentes e decadentes como propulsoras da mudança histórica. Ele havia aprendido pela Teoria das elites, elaborada por Vilfredo Pareto, desde os “notáveis” da França revolucionária até os Honoratioren da Alemanha Guilhermina, em geral terem mais importância em lugar do ensinado nas aulas baseadas em Karl Marx para análise do processo histórico. Na verdade, ele não aprendera bem como analisar as estruturas de elite.

Este livro é uma tentativa de se redimir desses pecados de omissão. Conta a história da interação entre redes e hierarquias desde a Antiguidade até o passado bem recente. Junta noções teóricas de inúmeras disciplinas. Elas vão da Economia à Sociologia, da Neurociência ao Comportamento Organizacional.

Sua tese central é: as redes sociais sempre foram mais importantes na história do concebido pela maioria dos historiadores, com sua fixação em organizações hierárquicas como os Estados – e especialmente em dois períodos.

  • A primeira “Era Interconectada” seguiu a introdução da prensa tipográfica, na Europa, no fim do século XV e durou até o fim do século XVIII.
  • A segunda – a nossa própria época – começou na década de 1970, embora Ferguson argumente a revolução tecnológica associada com o Vale do Silício ter sido mais consequência em vez de causa de uma crise das instituições hierárquicas.

O período intermediário, do fim da década de 1790 até o fim dos anos 1960, observou a tendência oposta: as instituições hierárquicas reestabeleceram o controle e conseguiram fechar ou cooptar as redes. O zênite do poder organizado de modo hierárquico ocorreu, na verdade, em meados do século XX: a Era dos Regimes Totalitários – e da guerra total.

Ferguson suspeita: não teria chegado a essa conclusão se não houvesse se decidido a escrever a biografia de um dos indivíduos mais adeptos das redes nos tempos modernos: Henry Kissinger. Quando chegou à metade do projeto – com o volume I terminado e o volume II parcialmente pesquisado –, uma hipótese interessante lhe ocorreu. Se o sucesso, a fama e a notoriedade de Kissinger resultaram não só de seu poderoso intelecto e formidável força de vontade, mas também de sua habilidade excepcional para construir uma rede eclética de relacionamentos, não apenas com colegas nas administrações de Nixon e Ford, mas também com pessoas fora do governo: jornalistas, donos de jornais, embaixadores estrangeiros, chefes de Estado – e até produtores de Hollywood?

Muito deste livro sintetiza (espera Ferguson sem simplificações exageradas) a pesquisa de outros estudiosos, todos os quais credita da maneira devida, mas em relação à rede de Kissinger oferece uma tentativa inicial e, acredita, original de descrever a questão.

Um livro é, em si, o produto de uma rede de autores.

Este livro, em resumo, tenta encontrar um meio-termo entre:

  1. a historiografia convencional, com tendência a atenuar o papel das redes, e
  2. os defensores de teorias conspiratórias, com o hábito de exagerar esse papel.

Ele propõe uma nova narrativa histórica, onde é possível mudanças importantes – desde a Era das Descobertas e a Reforma, se não antes – serem compreendidas, em essência, como desafios desestabilizadores apresentados às hierarquias estabelecidas pelas redes.

O livro também desafia as suposições confiantes de alguns comentaristas, feitas hoje em dia, de haver algo inerentemente benigno no distúrbio causadas pelas redes na ordem hierárquica. Estuda a experiência dos séculos XIX e XX para identificar modos como as energias revolucionárias transmitidas pelas redes podem ser contidas.

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