Heterodoxia X Ortodoxia = Mainstream

Em “The Changing Face of Mainstream Economics”, escrito por David Colander, Ric Holt e Barkley Rosser (Middlebury College Economics Discussion Paper No. 03-27 – Department Of Economics – Middlebury College – http://www.middlebury.edu/~econ, November 2003), os coautores reconhecem ser útil para o argumento deles em defesa da Ordem dos Economistas considerarem cuidadosamente os termos mainstream, ortodoxia e heterodoxia. Como eles são usados muitas vezes em sentido pejorativo, espelhando discursos de ódio mútuo, é necessário mostrar como eles se relacionam com a sua ideia de a dinâmica da mudança em uma profissão estar à margem dessa profissão.

Começam a argumentação com o termo mainstream economics. Em algum sentido, economia mainstream é o mais fácil dos termos acima para definir, claramente, embora possa ser o mais difícil de identificar na prática. É em grande parte uma categoria definida sociologicamente. Mainstream consiste nas ideias mantidas por aqueles indivíduos dominantes nas principais instituições acadêmicas, organizações e periódicos, a qualquer momento, especialmente nas principais instituições de pesquisa de pós-graduação. A

Economia mainstream consiste nas ideias cuja elite na profissão acha aceitável, onde por elite Colander, Holt e Rosser entendem os principais economistas no topo das escolas de graduação. Não é um termo suficiente para descrever uma escola historicamente determinada, mas sim um termo capaz de descrever as crenças [e os preconceitos] vistas pelas principais escolas e instituições na profissão como intelectualmente válidas e, portanto, vale a pena trabalhar com elas [para obter mobilidade social dentro da carreira profissional]. Devido a isso, a economia mainstream geralmente representa uma abordagem mais ampla e mais eclética da Economia em lugar da caracterizada como “ortodoxia” na profissão.

Na opinião dos coautores, o termo ortodoxo é basicamente uma categoria intelectual. É uma perda de tempo procurar outro termo para ser melhor pensado como uma representação estática de uma dinâmica profissional em constante mutação. Assim, a ortodoxia nunca é apropriadamente descritiva do campo da Economia em seu presente estado.

A ortodoxia geralmente se refere ao classificado por historiadores do pensamento econômico como “a escola de pensamento predominante”. Ainda hoje é considerada a “economia neoclássica”, cujas premissas – racionalismo, atomismo e informações perfeitas – são tomadas como a referência para explicar as evoluções das demais correntes dentro do mainstream.

A visão moderna do mainstream da Economia é bastante diferente deste conceito neoclássico de ortodoxia na Economia. Ter os dois termos é importante para Colander, Holt e Rosser porque lhes permite fazer comparações intertemporais entre a escola antes predominante no pensamento econômico, neste caso, a neoclássica, e a evolução hoje em dia da Economia mainstream.

Para ajudar a entender o que os coautores entendem por ortodoxia neoclássica e como isso se relaciona com a Economia mainstream, é importante para eles primeiro especificar o que veem como pensamento econômico neoclássico.

Na visão deles, a economia neoclássica é uma análise focada no comportamento otimizador de indivíduos plenamente racionais e bem informados em um contexto estático e nos equilíbrios resultantes dessa otimização. Está particularmente associada à revolução marginalista e seus líderes Léon Walras e Alfred Marshall podem ser vistos como seus primeiros e grandes desenvolvedores, com John Hicks’s Value and Capital (1939) e Paul Samuelson’s Foundations of Economic Analysis (1947) como sua culminação.

Quando um contexto dinâmico é assumido, os indivíduos entendem as distribuições de probabilidade de possíveis resultados ao longo do horizonte de tempo infinito no momento da decisão. A ortodoxia neoclássica testa os resultados desse modelo usando técnicas econométricas baseadas em uma fundação da estatística clássica. Talvez a característica mais importante da ortodoxia neoclássica seja a dedução axiomática como sua preferida abordagem metodológica.

A diferença entre mainstream e ortodoxia se torna mais clara quando se reconhece dois outros aspectos do termo “ortodoxo”. A primeira é o nome e a especificação do que é a ortodoxia geralmente vir décadas após o período de tempo de seu surgimento. Assim, as especificações ortodoxas são inevitavelmente retrógradas, não atuais ou voltadas para o futuro. Em segundo lugar, em Economia, pelo menos, a denominação de “escola ortodoxa” vem geralmente de um dissidente. Ele se opunha às ideias ortodoxas, diferentemente de um defensor dessas ideias ortodoxas.

Por exemplo, Marx (1847) cunhou o termo “economia clássica”, embora a escola clássica seja vista como iniciada no final do século XVIII. Antes da classificação geral de Marx, não havia nome para designar a ortodoxia clássica.

Da mesma forma, o termo “economia neoclássica” foi cunhado por Veblen (1900), referindo-se a economia da última parte do século XIX. Ele tentou ligar a Economia desse período à Economia clássica, de modo a construir o argumento de ambas serem compostas de teorias não-científicas (Aspromourgos, 1986). Em cada caso, a classificação foi feita por um economista para criar um alvo melhor para suas críticas.

Definir a ortodoxia e dar um nome a ela, dá ao economista crítico um alvo fácil. Isto implica uma dimensão imutável estática do pensamento. Mas essa visão estática não é característica do campo da Economia. A qualquer momento, e especialmente no momento quando o termo se torna geralmente usado, uma grande parte da profissão dominante discorda de dimensões importantes em relação ao então pensado como ortodoxia.

Finalmente, Colander, Holt e Rosser considera, o termo “heterodoxia”. Geralmente é definido em referência aos ortodoxos, significando ser “contra ortodoxos”. Ele se define em termos do que não é, e não do que é. Um economista ao se considerar heterodoxo não concorda com a ortodoxia atual entre as escolas de pensamento, conforme definidas pelas classificações do historiador.

No entanto, na opinião dos coautores, a heterodoxia também tem um aspecto sociológico. Um economista heterodoxo auto identificado também definiu seu “eu” [self] fora do mainstream. Marginalizados, economistas heterodoxos são altamente improváveis ​​de obter financiamento através de canais normais, como a National Science Foundation nos Estados Unidos, embora possam receber financiamento alternativo de uma variedade de outras fontes. Assim, a heterodoxia envolve aspectos tanto sociológicos quanto intelectuais. [E políticos-ideológicos como posicionamento à direita e à esquerda.]

Como muitos economistas tradicionais também não aceitam aspectos importantes da ortodoxia, a característica adicional determinante de um economista ser heterodoxo é social. Ao se auto denominarem de heterodoxos, estes economistas se recusam a trabalhar no âmbito da Economia mainstream, seja por causa da natureza do processo de modelagem usado, seja pelas suposições enfatizadas [em defesa da Ordem dos Economistas dominante]. Isso geralmente causa falha na comunicação entre os economistas heterodoxos e os convencionais, mesmo quando eles compartilham opiniões semelhantes sobre as limitações da abordagem “ortodoxa”.

Na profissão de economista, várias escolas, muitas das quais têm longas histórias, compreendem também a economia heterodoxa. Essas escolas têm suas próprias redes e organizações, além de revistas e instituições acadêmicas onde eles dominam. Muitas vezes o intelectual fundamental

O conteúdo de uma escola heterodoxa é a rejeição da ortodoxia, ou pelo menos dos principais elementos da ortodoxia.

Em Economia, pelo menos, além dessa rejeição da ortodoxia, não há um único elemento unificador possível de discernir de modo a caracterizar a economia heterodoxa. De fato, é bem sabido muitas variedades de heterodoxia têm mais discordância entre si do que propriamente com a ortodoxia.

Mas também deve ser dito: diferentes escolas heterodoxas enfatizavam anteriormente muitas das ideias agora dentro limite da Nova Economia do mainstream. Essas escolas podem desempenhar um papel importante desenvolvendo novas críticas aos ortodoxos. Entre as mais estabelecidas das escolas heterodoxas com sistemas razoavelmente completos de apoio institucional estão marxistas, pós-keynesianos, feministas, institucionalistas pioneiros e até mesmo austríacos ultraliberais.

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