Estatística de Crédito Ampliado ao Setor Não Financeiro

Há muitos anos tenho somado a relação crédito/PIB à relação dívida mobiliária em poder do mercado / PIB para comparar essa soma com o funding gerado pelo M4 (agregados monetários e financeiros) mais o déficit do balanço de transações correntes. Conceitualmente, sempre se aproximam uma da outra, mas o importante é destacar o sistema financeiro nacional ter a capacidade de captação de recursos e financiamento muito superior ao expresso apenas pela relação crédito/PIB.

Finalmente, a Autoridade Monetária segue minha orientação! Talvez, graças ao meu ex-orientando, Fernando Alberto Sampaio Rocha, ter sido nomeado chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central…  🙂

O boxe do Relatório de Economia Bancária do Banco Central do Brasil 2018 apresenta a estatística de crédito ampliado ao setor não financeiro. Ele compreende:

  1. as operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) – empréstimos e financiamentos concedidos por bancos e outras instituições financeiras –,
  2. as operações de crédito dos demais setores institucionais residentes,
  3. os títulos de dívida públicos e privados e
  4. os créditos concedidos por não residentes (dívida externa).

A estatística passa a ser divulgada mensalmente pelo Banco Central do Brasil (BCB) a partir de maio de 2019 na Nota para a Imprensa – Estatísticas Monetárias e de Crédito e no Sistema Gestor de Séries Temporais (SGS). A série histórica tem início em janeiro de 2013.

Nota para a imprensa – 29/5/2019

A estatística de crédito ampliado ao setor não financeiro busca fornecer visão abrangente das principais fontes de recursos utilizadas para o financiamento dos setores público e privado não financeiros da economia brasileira.

Dessa forma, permite aferir sua dimensão e a participação relativa de seus principais componentes, bem como padrões de complementaridade e de substituição entre eles. A estatística contribui ainda para análises comparativas do nível e do perfil de endividamento do governo, das empresas e das famílias.

Essa nova estatística está alinhada metodologicamente ao padrão definido no Manual de Estatísticas Monetárias e Financeiras e Guia de Compilação (MEMF), edição 20161, do Fundo Monetário Internacional (FMI), referência metodológica de melhores práticas para a produção de estatísticas monetárias e financeiras. A convergência ao padrão internacional, além de possibilitar a comparação internacional, favorece a consistência com outras estatísticas macroeconômicas, tais como fiscais, do setor externo e contas financeiras.

A estatística de crédito ampliado ao setor não financeiro é complementar às demais estatísticas de crédito divulgadas regularmente pelo BCB. Para essa nova estatística estão disponíveis apenas informações de saldos.

Não compõem o escopo da estatística de crédito ampliado, portanto, concessões, taxas de juros, spreads, prazos e inadimplência, cuja abrangência permanece restrita às operações de crédito do SFN.

Organismos internacionais vêm publicando estatísticas de crédito ampliado para diversos países. Um exemplo é a série trimestral divulgada pelo Bank for International Settlements (BIS) para 44 países. No caso do Brasil, as principais fontes utilizadas pelo BIS são as estatísticas de crédito do BCB para o SFN e as contas financeiras anuais, publicadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nas estatísticas econômicas, crédito representa haveres, notadamente empréstimos e títulos, que compõem o ativo de instituições financeiras e demais unidades institucionais que ofertam recursos para o setor não financeiro de uma economia, o qual passa a ter passivo a ser amortizado.

Segundo o MEMF 2016, as estatísticas de crédito apresentam as mesmas três dimensões dos agregados monetários:

(1) setores tomadores de crédito;

(2) setores emprestadores; e

(3) ativos financeiros (instrumentos).

Tomadores de crédito podem ser todas as unidades institucionais do setor não financeiro da economia: governo federal, governos estaduais e municipais, empresas públicas não financeiras, outras empresas não financeiras, famílias e instituições sem fins lucrativos.

Os setores emprestadores de crédito podem ser definidos de forma restrita ou ampliada (Monetary and Financial Statistics Manual and Compilation Guide 2016. (https://www.imf.org/en/~/media/87F002A9CC784DF786797A6526A98D54.ashx). MEMF, item 6.115).

Na forma restrita, inclui-se basicamente o crédito concedido pelas sociedades de depósitos (instituições captadoras de recursos componentes dos agregados monetários). No Brasil, as sociedades de depósitos são: bancos comerciais e múltiplos, Caixa Econômica Federal, cooperativas de crédito, bancos de investimento e de desenvolvimento, BNDES, sociedades de crédito, financiamento e investimento, sociedades de crédito imobiliário, associações de poupança e empréstimos e companhias hipotecárias. Adicionalmente, as estatísticas regularmente publicadas incluem as sociedades de arrendamento mercantil, as agências de fomento e as sociedades de crédito ao microempreendedor.

Na forma ampliada, o crédito incorpora as operações concedidas por todas as entidades do setor financeiro, assim como aquelas provenientes dos demais setores residentes (governos, empresas não financeiras, famílias e instituições sem fins lucrativos) e não residentes. Estas últimas constituem a dívida externa.

Conforme a metodologia internacional, as séries devem ser consideradas em valores brutos, sem deduzir saldos apurados entre os setores institucionais tomadores/emprestadores. Como exemplo, a dívida pública mobiliária federal interna inclui títulos adquiridos por famílias e empresas, mas não estão deduzidos os financiamentos concedidos pelo governo a essas entidades.

Entre os ativos financeiros, além de empréstimos e financiamentos, as estatísticas de crédito ampliado compreendem títulos de dívida e créditos comerciais. Créditos comerciais (trade credits) são operações de empréstimos entre empresas não financeiras relacionadas à produção de bens e serviços. Para instituições financeiras, créditos comerciais são recebíveis associados à venda de serviços financeiros. Eles, em geral, não acumulam juros.

Devido às limitações da base de dados, a estatística divulgada pelo BCB neste boxe não inclui os créditos comerciais concedidos por residentes.

Em dezembro de 2018, o crédito ampliado ao setor não financeiro totalizou R$ 9,4 trilhões, correspondendo a 138% do Produto Interno Bruto (PIB). Foi utilizada a série mensal de valores correntes do PIB acumulado dos últimos doze meses. Veja o Gráfico 1. Desse total, 56% são destinados às empresas (privadas e públicas) e às famílias e 44% ao governo geral (administração pública federal, estadual e municipal).

O Gráfico 2 mostra a participação dos componentes do crédito ampliado.

Em dezembro de 2018, o maior componente foi o de títulos públicos, respondendo por 35% do total, seguido pela carteira do SFN (34%).

A dívida externa representou 22% do crédito total, enquanto o mercado de capitais e os outros empréstimos corresponderam a 6% e 2%, respectivamente.

O crédito ampliado a empresas e famílias atingiu R$ 5,3 trilhões em dezembro de 2018, equivalente a 77,7% do PIB (Gráfico 3).

Considerando-se os seus componentes, predomina a carteira do SFN, correspondendo a 59% do saldo total (Gráfico 4).

A segunda fonte de financiamento mais relevante é o crédito fornecido por não residentes, com 26%.

O mercado de capitais e os outros empréstimos responderam, na ordem, por 11% e 4%.

Em dezembro de 2018, o total de empréstimos de Outras Sociedades Financeiras atingiu R$ 92 bilhões, com 56% desse montante referente a consórcios, modalidade utilizada principalmente pelas famílias para aquisição de veículos e imóveis.

O crédito ampliado ao Governo Geral compreende recursos destinados para custeio e investimento da administração pública (não inclui empresas estatais). Situou-se em R$ 4,1 trilhões em dezembro de 2018 (60,6% do PIB). Sua maior parcela corresponde aos títulos emitidos no mercado doméstico (90%), adquiridos por residentes e não residentes. As operações de crédito do SFN representam somente 3% desse total.

As séries estatísticas de crédito ampliado ao setor não financeiro passam a ser publicadas pelo BCB a partir de maio de 2019. Elas foram construídas em conformidade com o padrão metodológico internacional e são complementares às demais estatísticas sobre o mercado de crédito no Brasil. São também consistentes com os demais conjuntos de estatísticas macroeconômicas (fiscais, do setor externo e de contas financeiras) e, nesse sentido, contribuem para a consolidação do arcabouço estatístico brasileiro.

Este Relatório de Economia Bancária 2018 apresenta também uma análise específica do crédito ampliado destinado às empresas, no Boxe “Crédito ampliado às empresas: comportamento e perfil”.

 

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