Nossa Era Interconectada

Niall Ferguson, no segundo capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), acha as redes darem a impressão de estarem em todo lugar hoje em dia. Na primeira semana de 2017, o The New York Times publicou 136 matérias com a palavra “rede”. Pouco mais de um terço dessas matérias eram sobre redes de televisão, doze eram sobre redes de computador, e dez eram sobre vários tipos de redes políticas, mas havia também matérias sobre redes de transporte, redes financeiras, redes terroristas, redes de assistência médica – para não mencionar as redes sociais, educacionais, criminais, elétricas, de telefone, de rádio e de inteligência.

Ler tudo isso é contemplar um mundo “onde tudo está conectado”, embora isso pareça ser um clichê. Algumas redes conectam militantes, outras conectam médicos, outras ainda conectam caixas automáticos. Há uma rede do câncer, uma rede dos guerreiros do jihad, uma rede de baleias orcas.

Algumas redes – descritas por demasiadas vezes como “vastas” – são internacionais, enquanto outras são regionais. Algumas são etéreas, outras são subterrâneas. Há redes de corrupção, redes de túneis, redes de espionagem. Há até uma rede para fraudar os resultados de jogos de tênis. Vozes milicianas atacam as redes em batalha com vozes defensoras das redes. E tudo isso é coberto sem cessar por redes de cabos e satélites.

Nenhum relato da eleição presidencial norte-americana de 2016 estaria completo sem uma discussão dos papéis desempenhados pelas redes de mídia, desde a Fox News até o Facebook e também o Twitter, a rede preferida do candidato vitorioso. Uma das muitas ironias da eleição foi a campanha de Trump, impelida pelas redes, direcionar grande parte do seu poder de fogo contra a rede de elite de Clinton – uma rede a qual o próprio Trump havia pertencido no passado, como indica a presença dos Clinton no terceiro casamento dele.

Poucos anos antes da eleição, uma entidade chamada “A Rede Trump” – montada em 2009 para vender produtos como suplementos vitamínicos com o endosso de Trump – havia ido à falência. Se Trump houvesse perdido a eleição, ele teria lançado a Trump TV como rede de televisão. Um dos muitos motivos por que ele não perdeu foi o fato de a rede de inteligência da Rússia ter feito todo o possível para prejudicar a reputação da rival de Trump, utilizando o website WikiLeaks e a rede de televisão RT como seus principais instrumentos.

Nas palavras de um relatório secreto parcialmente revelado pelas agências de inteligência norte-americanas, “o presidente russo Vladimir Putin ordenou uma campanha de influência em 2016” com a intenção de “denegrir a secretária de Estado Clinton, e prejudicar o seu potencial de se eleger e chegar à presidência”, refletindo a “clara preferência” do Krêmlin por Trump.

Em julho de 2015, segundo o relatório, “a inteligência russa conseguiu acesso às redes do Comitê Democrático Nacional e manteve esse acesso até pelo menos junho de 2016”, publicando sistematicamente os e-mails que obteve por meio do website WikiLeaks. Ao mesmo tempo, “a máquina de propaganda russa dirigida pelo Estado – composta por seu aparato de mídia doméstico; por entidades visando um público global, como RT e Sputnik; e por uma rede de trolls quase governamentais – contribuiu para a campanha de influência ao servir como plataforma para mensagens do Krêmlin a públicos russos e internacionais.

Outro motivo pelo qual Trump venceu, porém, foi o fato de a rede terrorista muçulmana, conhecida como Estado Islâmico, ter perpetrado múltiplos ataques nos doze meses anteriores à eleição, inclusive dois nos Estados Unidos (em San Bernardino e Orlando). Esses ataques aumentaram a atratividade das promessas de Trump de “expor”, “desmontar” e “remover uma a uma […] as redes de apoio ao islamismo radical neste país”, além de “desmantelar totalmente a rede de terror global do Irã”.

Vivemos, em resumo, na “Era das Redes”. Joshua Ramo a chama de “a Era do Poder das Redes”. Adrienne Lafrance prefere “a Era do Enredamento”. Parag Khanna propõe até uma nova disciplina – a “Conectografia” – para mapear “a Revolução das Redes Globais”. “A sociedade das redes”, de acordo com Manuel Castells, “representa uma mudança qualitativa na experiência humana”.

As redes estão transformando a esfera pública e, com ela, a própria democracia. Para melhor ou para pior, porém? “A tecnologia das redes atuais […] favorece de verdade os cidadãos”, escrevem Jared Cohen e Eric Schmidt, da Google. “Nunca antes tantas pessoas estiveram conectadas por uma rede de resposta instantânea”, com implicações capazes de realmente “mudar o jogo” da política em todos os lugares.

Uma visão alternativa é a de as corporações globais como a Google estarem obtendo de modo sistemático o “domínio estrutural” ao explorar as redes, a fim de erodir a soberania nacional e a política coletivista capaz de a tornar possível.

Pode-se fazer a mesma pergunta sobre o efeito das redes sobre o sistema internacional: para melhor ou para pior? Para Anne-Marie Slaughter, faz sentido reconfigurar a política global combinando o “jogo de xadrez” da diplomacia tradicional entre Estados com a nova “teia […] de redes”, explorando as vantagens da última como transparência, adaptabilidade e escalabilidade. As estadistas do futuro, ela argumenta, serão agentes da teia brandindo poder e exercendo liderança com os governos em “estratégias de conexão”. “Se a “primeira guerra informática mundial” já começou, como alguns afirmam, então se trata de uma guerra entre redes.

A possibilidade mais alarmante de todas é uma única rede global acabar por tornar o Homo sapiens redundante e, a seguir, extinto. Em Homo Deus, Yuval Noah Harari sugere a era das “redes de cooperação em massa” de grande escala e fundamentada na linguagem escrita, dinheiro, cultura e ideologia – produtos de redes neurais humanas à base de carbono – estar cedendo espaço para uma nova era de redes de computadores à base de silicone fundamentada em algoritmos.

Nessa rede, logo descobriremos sermos tão importantes para os algoritmos quanto os animais são para nós. A desconexão da rede se traduzirá na morte para o indivíduo, porque a rede cuidará da nossa saúde 24 horas por dia. Contudo, a conexão acabará por significar a extinção da espécie: “Os parâmetros consagrados por nós mesmos nos condenarão a nos juntarmos aos mamutes e aos golfinhos-do-yang-tsé no esquecimento”. Com base no julgamento desolador de Harari do passado humano, isso seria bem o que merecemos.

Este livro de Niall Ferguson trata mais do passado do que do futuro. Ou, para ser preciso, é um livro onde se busca aprender sobre o futuro estudando sobretudo o passado, em vez de entreter arroubos de imaginação ou de projeções casuais de tendências recentes naquilo antevisto.

Há aqueles, em especial no Vale do Silício, com dúvidas quanto a “se a história tenha muito a lhes ensinar em uma época de inovações tecnológicas tão velozes”. De fato, muito do debate resumido por Ferguson pressupõe as redes sociais serem um fenômeno novo. Além disso, há algo sem precedentes sobre a sua ubiquidade atual. Porém, isso está errado.

Mesmo enquanto falamos sem parar sobre elas, a realidade é a maioria de nós ter apenas uma compreensão muito limitada de como as redes funcionam, e quase nenhum conhecimento de onde elas vieram. Em grande medida, não percebemos quão predominantes elas são no mundo natural, ou o papel vital a desempenharem na nossa evolução como espécie, ou como têm sido parte integral do passado humano.

Como resultado, tendemos a subestimar a importância das redes no passado. Isto a partir do pressuposto errôneo de a história não ter nada a nos ensinar sobre esse assunto.

Sem dúvida, nunca houve redes tão amplas como as vistas hoje em dia. E os fluxos de informação – ou de doença – nunca foram tão rápidos. Porém dimensão e velocidade não são tudo.

“Nunca compreenderemos as redes vastas e aceleradas de nosso próprio tempo – em especial, não teremos nenhuma ideia de se a Era das Redes será jubilosamente emancipadora ou horrivelmente anárquica – se não estudarmos as redes menores e mais lentas do passado. Pois essas também foram ubíquas. E, às vezes, eram mesmo muito poderosas.”

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