Investimentos Financeiros de Idosos

Gustavo Ferreira (Valor Investe, “onda conservadora” política desde as últimas eleições para as finanças pessoais dos brasileiros, esse povo sem educação financeira e dinheiro para buscar uma alternativa à caderneta de poupança. Dizer isso ser “um traço de personalidade” é uma idiotia — o conservadorismo em finanças pessoais é uma virtude, ao contrário de ser conservador ou direitista em política. Para quem já passou dos 60 anos, então, é quase a regra.

Levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra: apenas 58,7% dos brasileiros acima dos 60 têm algum tipo de investimento. Dessa parcela, 90,1% têm suas economias aplicadas na poupança – bem acima dos 75% de quando consideramos investidores brasileiros de todas as idades.

Dos demais idosos (são apenas 10%), a maior parte se divide entre aplicações em títulos privados, como debênturesCDBs letras de crédito (2,9% do total); fundos de investimentos, como multimercados, cambial e de ações (2,8%); e planos de previdência privada (2,8%).

Quem escolhe aplicar em papéis de empresas listadas em bolsa, sem ser via fundos, ou em títulos públicos vendidos pelo Tesouro Direto são muito poucos, 0,8% e 0,7%, respectivamente. Ora, são os ricos acionistas! Confira o quadro acima elaborado por mim (FNC).

Acho incrível um jornalista especializado, assim como a própria ANBIMA, falar de investimentos financeiros pessoais sem se referir à estratificação social por renda e/ou riqueza. Fala em “Os Brasileiros”! Ora, quem são eles?! 121 mil pessoas ricaças (média per capita de R$ 9,2 milhões) de 56 mil famílias, cuja média per capita de riqueza financeira no primeiro trimestre de 2019 estava em R$ 19,9 milhões!

Tamanho “conservadorismo” em Finanças Pessoais, antes de ser um problema, reflete os vários anos de vida corridos. Nesta altura da vida, já acumulou (ou não) o patrimônio financeiro para sua aposentadoria.
Pode ser explicado por dois fatores, de acordo com a Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar):
  1. Várias crises econômicas ao longo de décadas. As entradas e saídas de planos econômicos e novas moedas, além de uma inflação muito elevada, cristalizaram a cautela ou prudência como a principal característica desse público;
  2. Horizonte restrito de tempo pela frente. O investidor acima dos 60 anos, em geral, já formou o seu patrimônio. Como o período de esperança de vida é menor para reverter eventuais prejuízos, se comparados aos anos de juventude, acaba abandonando as alternativas mais arriscadas.

A ignorância dos analistas a respeito da estratificação social necessária para se analisar riqueza é tamanha a ponto de não saberem o seguinte.

  • A renda média dos trabalhadores brasileiros (+/- R$ 2.300) recebe quem tem o Ensino Médio completo e se situa no decil entre 70% e 80% da pirâmide de riqueza.
  • A mediana é R$ 1.171, ou seja, 50% dos trabalhadores não têm nem o Ensino Fundamental completo e recebem menos de 17% acima do salário mínimo.
  • Quem tem Ensino Superior já se situa entre os 10% mais ricos ao ganhar mais de R$ 5 mil.
  • Quem tem Doutorado passa dos R$ 10 mil e fica entre os 5% mais ricos.
  • Quem tem uma carreira completa poderá chegar ao 1% mais rico ao receber acima de R$ 27 mil.

E ainda me vem falar de “quando os sonhos dão lugar à segurança”!

Os jovens deixam a pouca sobra de dinheiro parado na caderneta de poupança, mas é por falta de alternativa devido à baixa renda. Qualquer outra aplicação oferece maiores retornos. Mas isso deixa de ser automático para quem já sabe a vida não reservar mais tanto tempo pela frente.

Existem três fases na Educação Financeira:

  1. Formação – focada nas novas gerações, busca criar uma cultura do cuidado com o dinheiro;
  2. Orientação – focada em quem já tem algum conhecimento sobre investimentos, mas precisa de orientação para não perder o patrimônio;
  3. Proteção – com foco principal na terceira idade, busca proteger investidores de uma série de vulnerabilidades trazidas pelos anos, como a perda de poder cognitivo e a maior propensão a erros e golpes.

Os idosos dessa última fase acabam encontrando na tão mal falada caderneta exatamente aquilo que precisam. “Em geral, a pessoa nessa idade está mais preocupada em guardar do que em busca de rentabilidade”, diz.

Jovens estão mais focados em obter maior rentabilidade de modo a fazer seu patrimônio crescer ao longo dos anos. O idoso investidor, em geral, já percorreu esse caminho. Por isso, a segurança é o principal objetivo para 33,7% dos investidores com mais de 60 anos. Eles precisam desse montante à mão quando necessário por motivo de saúde.

Por exemplo, quando uma consulta ou tratamento médico particular é necessário, a liquidez oferecida pela caderneta acaba sendo satisfatória.

Mais do que a modalidade de investimento escolhida, preocupa o percentual considerado alto de idosos (7%) sem ideia do que será feito do dinheiro guardado ao longo da vida.

Veja a idiotia desta frase! O idoso não sabe quando terá algum problema de saúde, logo não tem ideia de quando usará — se o usar — o dinheiro guardado para infortúnios.

O dinheiro é só um meio, não um objetivo em si. Quem não sabe porque guarda dinheiro acaba descobrindo o motivo “pela dor”, ou seja, quando surgem emergências, e “não pelos sonhos a serem realizados”.

Só fala de “sonhos” os sonhadores eternamente frustrados — e não os planejadores efetivos, ou seja, quem executa um plano para alcançar certas metas.

Preparados para a velhice?

Obviamente, não “todos os brasileiros”. Apenas 58,7% da população acima dos 60 anos têm algum tipo de aplicação. O que já é ruim fica ainda pior se considerarmos só 24,2% dos brasileiros com 60 anos ou mais contarem com a renda de um emprego com carteira assinada. Ah, é? Descobriu este país ser uma m**** — e estar ficando pior ainda?!

Mas não é só esse o problema. Além desses números concretos, a expectativa de “o brasileiro” em relação ao futuro, comparada à realidade, deixa bastante a desejar. O Raio-X do Investidor Brasileiro, produzido pela Anbima, dá uma boa mostra da enorme distância existente entre a imaginação e a prática. A pesquisa, baseada em entrevistas, perguntou para jovens como eles imaginam serem suas despesas na aposentadoria.

Expectativa: para 46% dos jovens, as despesas serão maiores na velhice; para 14%, iguais; e para 41%, menores.

Realidade: 61% dos atuais idosos dizem seus gastos terem ficado maiores; 13%, iguais; e 26%, menores.

O sonho e a vida real não se casam. A vida real é diferente — e diferente para pior.

Esse desconhecimento pode trazer problemas financeiros justamente quando a nossa dinâmica de gastos muda totalmente. Daí vem a importância de, ao longo da juventude, garantir uma reserva de emergência capaz de suportar os novos gastos da segunda metade da vida.

O que muda após os 60?

Fica mais fácil visualizar como as coisas se transformam nas suas contas pessoais em um gráfico como o abaixo. Compara, entre 2012 e 2018, a variação média dos preços para toda a população (IPC) e apenas para os idosos (IPC-3i):

Como se vê, embora evoluam juntos, estão em pequena diferença de nível, logo, os dois índices de inflação têm resultados diferentes – entenda clicando aqui como a inflação é calculada e quais os principais índices.

Os preços mexem de maneiras distintas com o seu orçamento, dependendo da sua idade.

Quando se chega à velhice, os gastos relacionados à saúde são os primeiros a incomodar mais. Os convênios ficam mais caros, atendimentos hospitalares e tratamentos terapêuticos são mais frequentes, e aumenta o consumo de remédios de uso contínuo. Logo, qualquer alta de preços desse ramo afeta mais o orçamento dos mais velhos.

No entanto, um dos responsáveis por calcular os índices de preços ao consumidor da Fundação Getulio Vargas (FGV), o problema maior no orçamento familiar dos idosos não se limita aos novos cuidados com doenças trazidas pelos anos, como cardiopatias, dores nas articulações e diabetes.

Idosos, em geral, começam a passar mais tempo em casa. Reajustes em tarifas públicas de energia, água e telefone fixo afetam mais o orçamento doméstico dessa parte da população.

Merecem a atenção também de quem entra para a velhice possíveis novos gastos com cuidadores domésticos. Tarefas antes triviais, como cuidar da casa sozinho e da própria higiene, já não são tão simples. Passa-se a depender da ajuda de alguém mais jovem, e nem sempre há uma pessoa da família à disposição.

Os idosos ainda têm direito do acesso a algumas gratuidades, como no transporte público e no acesso a salas de cinemas e espetáculos. Como boa parte dos investimentos em educação, em média, é feito na juventude, esses são outros gastos a desaparecerem. A não ser em casos de avós responsáveis por custear os estudos de filhos e netos.

E como se preparar, na juventude, para não passar aperto financeiro na velhice? Quanto mais novo você for, mais você deve assumir posições de risco é a receita usual — e errada!

A hora certa de juntar dinheiro e diversificar suas aplicações, com maior peso para renda variável, é a partir dos 20 e poucos anos. É quando ainda não tem dinheiro acumulado com juros compostos.

Já com a chegada dos 40 anos, o Modelo de Ciclos de Vida Financeira sugere mudar o perfil de seus investimentos para uma carteira menos arriscada.

Essa tal onda conservadora dos mais velhos não está de toda errada. O movimento da vida é esse mesmo: mais riscos na juventude e maior conservadorismo quando tiver filhos para criar.

Se já é mais sênior, a recomendação é ser conservador mesmo. Ser conservador não significa escolher a caderneta de poupança. Opções como o Tesouro Direto tem rentabilidade acima da poupança, baixo risco e liquidez garantida.

Portanto, acerte o caminho das suas finanças na juventude para não passar por percalços na velhice, quando o mais importante será ter saúde e vida mental inteligente — e não ser um conservador burro direitista!

 

O que aprendi com meu avô sobre dinheiro… e outras coisas

Fernando Torres  (Valor, 29/05/2019 ) narra: a última vez que encontrei meu avô Jayme, contei a ele que, naquele dia, participaria do programa “Estúdio i”, da Globonews, para falar sobre o lançamento do Valor Investe. Embora deitado na cama e com dificuldade grande para se comunicar, ele balbuciou: “Não vai falar besteira.” Esse tipo de comentário sintetiza bem a personalidade de Jayme da França Torres.

Quem lê minhas colunas com regularidade (será que existe essa espécie de gente? Talvez o professor Natan, pela afinidade contábil) deve se lembrar de algumas menções que fiz a ele por aqui. Já tratei tanto do “amor” que cultivou pelo Fisco ao longo dos anos como de sua experiência não mais agradável com o INPS e, depois, com o INSS, para citar dois casos que me vêm à memória.

Na coluna de hoje, vou fazer um pequeno resumo de coisas que aprendi com ele, na vida real, sobre a dificuldade de ter educação financeira e de se planejar no Brasil. Não garanto a precisão cirúrgica nos relatos, mas as coisas se deram mais ou menos assim…

Liquidez diária

Vivemos hoje numa era em que a competição sobre o melhor destino para o dinheiro de curto prazo – se na poupança, Tesouro Selic ou em fundos DI com taxa zero – rende parágrafos e mais parágrafos de matérias, além de posts nas redes sociais.

Mas, no fim da década de 1980, a conversa sobre investimentos de curtíssimo prazo era muito mais raiz. Além das regulares aplicações no overnight, meu avô Jayme lançava mão de um método sui generis para garantir liquidez diária para sua reserva de emergência, sem perder direito aos rendimentos.

Ele tinha nada menos do que 30 cadernetas de poupança, com datas de aniversário diferentes e em bancos variados, para assegurar que teria como sacar dinheiro todos os dias do mês sem perder a correção monetária, que acabava sendo muito mais relevante que os juros diários naquela época.

Obviamente, nada de apps. Ele ia ao banco quase que diariamente resolver seus casos (ou ao menos essa era percepção de quem frequentava a casa nas férias, com cerca de dez anos).

Numa época em que ainda não existia detector de metais na porta, levava ele um banquinho próprio, com perna de metal e assento de lona, para aguardar sentado na fila, enquanto lia seu inseparável jornal do dia. Sempre em voz alta, para propagar sua indignação com o noticiário (e com a fila) aos companheiros de agência.

(Anos mais tarde, quando descobriu que os netos gostavam de ler, passou a enviar recortes de jornal para a família toda. Lá pra casa iam os textos do Agamenon, Veríssimo, Ubaldo, Zuenir, entre outros. Meus primos, os criativos, ficavam com charges do Chico)

Planejamento para projetos

Depois da minha avó, viajar sempre esteve entre as grandes paixões do meu avô. Não tinha tempo ruim. Ia de fusquinha acampar com mulher e crianças pelo Brasil. Mas também pôde ir a Europa e Estados Unidos por algumas vezes, com um pouco mais de conforto, mas nada que se pudesse chamar de luxo (para tristeza de Dona Regina).

O principal ensinamento nessa área foi o de que ele só poderia viajar quando já tivesse dinheiro reservado para fazer a viagem seguinte. Isso lhe dava tranquilidade para passear sem a preocupação de que poderia ser a última vez.

Um planejamento cuidadoso sobre o itinerário e as atrações que gostaria de visitar, em uma época em que não existia internet e Google, também era um modo de dar eficiência ao uso do dinheiro, algo que ele sempre soube prezar.

Dólar na viagem? Basta dizer que ele me presenteou com meu primeiro “saquinho” – costurado a mão – para levar passaporte e dinheiro grudados na cintura. Hoje em dia a turma chama isso de “moneybelt” (muito chique). Estaria devidamente aposentado se não fosse o IOF sobre compras com cartão no exterior.

Aposentadoria

A experiência do meu avô com previdência e aposentadoria é bastante rica (ou seria pobre?). Vou dividir o ponto em dois subitens.

1) Valentia x burocracia: este é um dos episódios sobre o qual não tenho certeza dos detalhes, mas que retrata a que ponto chega um brasileiro com medo do que a burocracia do país pode fazer com sua vida financeira. No caminho para pedir sua aposentadoria, ele estava em um ônibus, no Rio, que foi alvo de um assalto. Ele não portava muito dinheiro (a não ser a quantia que carregava regularmente no saquinho de pano). Sua preocupação era com a pasta preta, na qual levava todos os documentos que comprovavam seu tempo de trabalho. Imagina perder tudo ali. Já com idade avançada (por volta de 70 anos), mas ainda forte, aplicou uma gravata no assaltante, que portava uma faca, e acabou caindo e rolando com o meliante pela porta do veículo. O bandido, assustado com a reação do velhinho, acabou correndo. A pasta foi salva.

2) O teto baixo do INSS: Como já relatei aqui, quando ele começou a contribuir para o que veio a se tornar o INSS, a promessa era de que ele receberia 20 salários mínimos. Em algum momento na década de 1990 o teto passou a ser indexado a dez salários. Poucos anos depois, perdeu-se o vínculo com o mínimo. Quando ele pediu aposentadoria, o teto era próximo de cinco salários, mas acabou tendo direito ao equivalente a dois ou três salários da época. No fim, acabou nem reclamando, com receio de que poderia receber ainda menos.

Dinheiro vem do trabalho

Além de um pouco de dólar guardado no fundo do armário (para a próxima viagem), meu avô até que teve investimentos diversificados. Lembro que ele anotava a cotação de algumas ações como Petrobras, Vale e Banco do Brasil num papel. A cotação ele copiava do jornal, claro. E depois, do site da bolsa.

Falo disso para dizer que, apesar de sempre ter sido disciplinado e conseguido montar uma reserva privada que lhe deu segurança financeira na velhice, foi trabalhando como médico – na Marinha, como servidor público e também em consultórios -, e não com as aplicações financeiras, que ele conseguiu formar seu patrimônio. Funciona assim para a maior parte das pessoas.

Cuidado com o banco

Quando já era octogenário, depois de uma dessas idas ao banco, voltou proprietário de um PGBL. Certamente o gerente achou que o diferimento de Imposto de Renda no longo prazo (?) compensaria a taxa de carregamento. Felizmente, o engano foi desfeito e a contratação, cancelada.

O ciclo da vida…

Além de professor de educação financeira informal do neto, dizia que não invejava Da Vinci “porque também era polivalente”. “Médico por atavismo ou tradição familiar; marinheiro por necessidade; pintor em alguns domingos; eventual carpinteiro, eletricista e estufador doméstico; cozinheiro casuístico; repórter de viagens; chapeleiro numa emergência carnavalesca; tenista sem ranking; campista aposentado; hagiógrafo estreante; metido a “onomasta” e com veleidade de ser formador de opinião.” Assim ele se definia. No dia 19, o vovô foi descansar. Na mesma data, o bisneto Dudu fez cinco anos.

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