Denúncia de O Capitalismo na Visão Simplória

Não resisti e continuei a ler o livro do “ex-banqueiro” dissidente. Ele parece ter caído na graça de muitas pessoas com postura política esquerdista. Lamentavelmente, o discurso maniqueísta é benquisto.

Diz Eduardo Moreira no livro “O que os donos do poder não querem que você saiba”: “o modelo capitalista vigente se apoia em boa parte nos lucros dos bancos e do sistema financeiro como um todo. O que fez com que, ao longo dos últimos 50 anos, uma boa parte da fatia do PIB (Produto Interno Bruto), que ficava na mão da produção, fosse transferida para o sistema financeiro. Enfrentar esse sistema significa praticamente enfrentar todo o sistema. E a única arma que me parece capaz de fazê-lo é a disseminação do conhecimento.”

Ele é um aliado crítico ao sistema capitalista. Porém, a esquerda de maneira geral não deve aceitar argumentos pueris para convencer a todos a respeito da necessidade de mudança de um sistema a outro. Aliás, mudança sistêmica é processual e gradual, não revolucionária. Caso uma vanguarda faça uma revolução, haverá o risco da nova nomenclatura adotar um regime totalitário.

É melhor a dialética do lento e gradual levar a uma quantidade tal de modo a qualidade de vida se alterar. Mudará não só o modo de produção, como também algo maior: o modo de vida!

No capítulo onde Eduardo Moreira discorre sobre O Capitalismo, ele coloca o sistema financeiro como um componente desse “modo de produção”. Eu analiso o sistema capitalista como um sistema complexo, cujo sistema financeiro e/ou de pagamentos é intrínseco – e não à parte, ou seja, redutível a um componente possível ou não de ser integrado.

O autor recapitula. “Falamos no capítulo anterior sobre o sistema financeiro e também sobre como as pessoas são iludidas e enganadas pelas diversas artimanhas e truques inerentes à embalagem que o envolve. Na base desse sistema e apoiado principalmente nele, existe, porém, algo muito maior. Algo que, como um trator descontrolado, não somente tira dinheiro da vida das pessoas, mas tira as vidas em si. Estou falando do capitalismo.” Oh!

Um sistema complexo é redutível a algo descomplicado, simples. Este é o desafio: transformar complexidade em simplicidade. Mas daí achar a questão de as informações disponíveis ser o suficiente para mudar um sistema onde estamos todos incorporados vai um passo muito grande. As “informações” não são absolutas, isto é, interpretadas da mesma maneira por todas as pessoas.

Continua Eduardo Moreira: “o capitalismo é um modelo que depende intrinsicamente da desinformação em massa. Não haveria qualquer outra forma de um sistema tão cruel e injusto como ele permanecer de pé que não fosse essa”.

Esta é uma hipótese de ser possível a homogeneização das informações interpretadas de determinada forma crítica ao sistema capitalista ser “necessário e suficiente” para mudança do sistema. Não, ele é complexo por seus componentes serem heterogêneos, com forças distintas de interconexões – e interpretações.

Eduardo Moreira adverte. “Antes de seguirmos, pare e pense como você está se sentindo após ler essa última frase. Provavelmente incomodado – taxando o autor do livro, no caso eu, de socialista, idealista, provocador ou qualquer termo agressivo. Possivelmente está preparado para o confronto, buscando desde já, antes de ler o que virá adiante, argumentos para me contestar e defender o sistema meritocrático e justo que você aprendeu a amar desde que nasceu. E eu preciso muito desse seu sentimento, pois ele será fundamental para explicar o que virá nas linhas a seguir.

O capitalismo sobrevive somente em função da propaganda que faz dele o que não é. Mais propriamente dito: da propaganda de um sistema que oferece a todos (os que se dedicarem bastante) a oportunidade de um dia se tornarem ricos e felizes. E é eficiente como ninguém mais vendendo essa ideia”.

É simplório, né? Pense nos milhares de excluídos – no Brasil estimo a “elite” estar restrita ao número de 13,4 milhões de formados em curso superior, aliás, o mesmo número dos desempregados hoje e menos da metade dos 28,3 milhões de subutilizados –, será eles acreditarem nessa “oportunidade de um dia se tornarem ricos e felizes”?!

“É importante lembrar ao leitor”, alerta Moreira, “meu objetivo não é defender o socialismo, o comunismo, o anarquismo ou qualquer outro sistema. A intenção é somente a mesma que permeia o resto desta obra: abrir os olhos das pessoas para como os sistemas funcionam na realidade, contrapondo, assim, a forma como elas acreditam que funcionam. Se eu conseguir fazer isso, a bola já não estará mais comigo, estará com o leitor. Ele que formule seus questionamentos, teorias e ideias da forma como quiser. Mas que o faça pautado em um mundo de verdade, e não naquele que lhe venderam como real.”

Seu ponto de partida é a injustiça social: mas quem não tem consciência disso há muito tempo? Alguns a criticam e muitos outros a apoiam!

“Partindo de uma análise simplista (depois pretendo sofisticá-la um pouco), não me parece razoável imaginar que o sistema que torna os oito indivíduos mais ricos do mundo detentores da metade da riqueza de toda a população mundial (quase 4 bilhões de pessoas) tenha qualquer chance de ser justo.”

Ora, justiça “da boca para fora” todos defendem. Mas muitos incultos votam na direita por culpar “os outros”, isto é, os diferentes de si próprio, como responsáveis por suas mazelas. Haverá conversão dessa gente com pregação? Tenho dúvidas disso ser possível, necessário e suficiente para mudar um modo de vida…

 

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