Começo da Evangelismo de Direita no Brasil

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conta: o pentecostalismo chegou ao Brasil em 1910, através de Gunnar Vingren e Daniel Berg, evangelistas suecos, e do italiano Luigi Francescon.

Como explica o sociólogo e pesquisador Paul Freston, “os três se converteram nos Estados Unidos e vieram para cá mais ou menos na mesma época. Os dois suecos chegaram a Belém e começaram a frequentar uma Igreja Batista, onde quiseram pregar doutrinas pentecostais até serem expulsos e fundarem o que se tornaria depois a Assembleia de Deus. Em São Paulo, no bairro do Brás, um italiano fundou o que viria a ser a Congregação Cristã.”

Algum tempo depois, já na década de 1950, o país recebeu uma nova leva de pentecostais, segundo Freston, vinda da Igreja Quadrangular norte-americana. Um dos fiéis seria Manoel de Melo, o primeiro brasileiro a fundar uma Igreja importante, a Brasil para Cristo, em 1955. “A partir daí todas as Igrejas foram fundadas por brasileiros. David Miranda, com a Deus é Amor; Edir Macedo, no fim dos anos 1970, com a Igreja Universal; R R Soares em 1980, com a Internacional da Graça de Deus; Valdemiro Santiago, com a Mundial do Poder de Deus.”

O sociólogo explica que a diferença mais importante entre as Igrejas Históricas e as Pentecostais é a crença nos dons do Espírito Santo. “Falar em línguas, curar, exorcizar, profetizar são características das Pentecostais. Por ser uma forma mais entusiasmada de religiosidade, depende menos de um discurso racional, elaborado. Você pode não saber ler ou escrever, pode ser alguém que não ousaria fazer um discurso racional em público, mas, sob influência do Espírito, você fala. Por isso, pode-se dizer a Igreja Pentecostal também ter esse poder de inverter as hierarquias sociais.” Ele destaca: “Por ser mais próxima da cultura do espetáculo e menos litúrgica, também é a Igreja Pentecostal quem se dá melhor com as mídias.”

Já as Igrejas Neopentecostais, como a IURD, a Renascer em Cristo, a Bola de Neve Church (BDN) e a Mundial do Poder de Deus, viriam na sequência. Elas são conhecidas como a “terceira onda” do evangelismo.

Elas são caracterizadas pelo pesquisador, professor e doutor em Sociologia, Ricardo Mariano, no artigo “Guerra espiritual”, da seguinte maneira:

  1. ênfase espiritual na guerra contra o Diabo e seus representantes terrenos,
  2. difusão da Teologia da Prosperidade e
  3. abandono dos tradicionais usos e costumes puritanos de santidade.

O primeiro programa evangélico na televisão brasileira, feito por brasileiros da casta dos sabidos-pastores, segundo a pesquisadora Larissa Preuss – autora da tese “As telerreligiões no telespaço público: o programa Vitória em Cristo e a estratégia de mesclar evangelização e preparação política”, foi o Fé para Hoje, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ainda na década de 1970.

“Já nos anos 1980 houve uma enxurrada de pastores eletrônicos dos Estados Unidos, e alguns pesquisadores dizem ser uma estratégia do governo americano para frear um pouco o socialismo crescente na América do Sul. O R R Soares é o pentecostal mais antigo na televisão, desde o fim da década de 1970, e o Silas Malafaia inaugurou seu programa em 1982.”

Paul Freston diz as mídias terem sido rapidamente adotadas pelo pentecostalismo. A combinação teria dado certo porque, enquanto as Igrejas Protestantes Históricas dão mais ênfase à palavra, aos livros, as Pentecostais se identificam com a cultura do cinema, do rádio e do espetáculo.

“O rádio nos Estados Unidos é usado por eles desde 1922. No Brasil, desde a década de 1940. A primeira tentativa de usar a televisão, na verdade, foi em 1950, mas não deu certo, porque ainda não era um veículo de massa. O uso maciço explodiu mesmo nos anos 1980.”

Sem dúvida, a aquisição da Rede Record de Televisão e Rádio pela Igreja Universal, em 1989, aprofundou a relação entre religião e comunicação de massa. Para realizar a compra, com o custo de US$ 45 milhões, a Igreja não poupou esforços, explica Ricardo Mariano, no livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil:

“Para comprar essa tradicional, porém decadente e virtualmente falida, rede de televisão – com uma dívida na faixa dos US$ 300 milhões, que posteriormente foi quitada –, a liderança da Igreja, oculta na transação, feita por testas de ferro, não mediu esforços, ou melhor, sacrifícios. Realizou a campanha ‘Sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, joias, poupança e propriedades.”

Magali Cunha, professora da Universidade Metodista, lembra: até há pouco tempo a participação dos evangélicos nas mídias tinha objetivos mais ligados à religião, mas isso foi mudando ao longo dos anos, acompanhando a crescente participação das Igrejas na política nacional:

“Antes os programas eram para pregar cura, fazer orações, pedir doações etc. De 2010 para cá, essas personagens midiáticas começaram a trazer mais fortemente pautas políticas para as programações. O Silas Malafaia é quem puxa muito isso, se coloca como referência política e é credenciado assim pela própria bancada evangélica. O pessoal da Universal também, claro. E hoje percebemos um ativismo forte nas mídias sociais. O próprio Malafaia tem mais de 1 milhão de seguidores no Twitter.”

Em uma rápida leitura do Twitter de Malafaia, é possível confirmar o que diz a professora. Assuntos relacionados a política institucional, questões de gênero na escola e até arte e sexualidade são discutidos nos poucos caracteres e nas chamadas de seus vídeos – e vão muito mais além de orações ou mensagens bíblicas.

Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Malafaia também teve extrema importância durante a campanha de Marina Silva à Presidência em 2014. Após chamar o programa de governo da candidata de “lixo moral […] para favorecer a causa gay” no microblog, Marina retirou do plano de governo compromissos com a comunidade LGBTQ e foi duramente criticada pela parcela mais progressista de seus eleitores.

Em entrevista na época, Malafaia disse à Andrea Dip não pretender se candidatar a nenhum cargo político, apesar de já ter recebido inúmeros convites, porque de fora consegue exercer sua influência de forma mais livre:

“Partidos são partes da sociedade. Quando eu entrar em um partido, faço parte daquela parte. Hoje eu sou do todo. Apoio quem eu quero, ‘desço a ripa’ em quem eu desejo, não tenho vínculo com partido nenhum. Eu não vou abrir mão de exercer influência. Isso aí, nunca.”

Ao ser questionado se os partidos o assediavam muito, respondeu: “Pff! Meu irmão [deputado federal Samuel Malafaia (DEM-RJ)] foi o terceiro deputado mais votado, com 135 mil votos – com a minha imagem. Eu ajudei a eleger três [deputados] federais aqui no Rio. Eu fui o único cara, na eleição passada a vereador no Rio de Janeiro, a transferir voto para outra pessoa. Ninguém conseguiu, nem Wagner Montes [apresentador de rádio e TV, filiado ao PRB-SP], que teve 510 mil votos. Foi o deputado estadual mais votado. Não conseguiu eleger o filho dele vereador. Eu peguei um jovem da minha Igreja, ilustríssimo desconhecido, e foi o sétimo mais votado na cidade. Eu quero exercer influência, e é o que eu faço. Eu sou pastor há 35 anos. Há trinta anos eu marco posição. Agora, com o crescimento dos evangélicos, estou aparecendo na mídia. Não sou o pastor mais influente, nem o dono da verdade. Mas tenho certa influência.”

Não foi apenas com sua imagem que Malafaia ajudou candidatos. O levantamento sobre os financiamentos de campanhas dos parlamentares da FPE, feito para este livro, mostra o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), apadrinhado pelo pastor, ter recebido R$ 100 mil em doações da Editora Central Gospel Ltda., de propriedade de Malafaia, e pouco mais de R$ 53 mil de uma empresa criada pelo irmão do pastor, especialmente para receber dinheiro de campanha.

Suzy dos Santos, pesquisadora e professora da UFRJ, afirma: os pastores televisivos, os parlamentares e as Igrejas se relacionam de forma bastante lucrativa para todas as partes. Ela aponta quase um terço das concessões de televisão no Brasil pertencerem a emissoras religiosas.

“Há relatos históricos de deputados que facilitam o trâmite de outorgas para Igrejas. E há uma fatia imensa de canais ligados a questões religiosas. Fazendo uma comparação, se houvesse a mesma quantidade de canais sindicais, por exemplo, certamente seria um problema para a democracia. Mas, como é canal religioso, não se fala no assunto. O processo de outorga é longo, tem licitações etc. Passa pelo Congresso Nacional, logo, por redes de clientelismo. A comissão que vai analisar os processos de concessão está cheia de pessoas que serão beneficiárias daquele processo. Essa distribuição foi sempre vinculada a interesses políticos, desde o governo Sarney. As concessões sempre foram usadas como moeda de troca.”

A mudança recente mais relevante nesse sentido, segundo a professora, aconteceu por meio de Medida Provisória sancionada no governo Temer, em março de 2017 – a MP 747. “Eles a chamaram de Medida [Provisória] da desburocratização; as concessões de rádio e TV passam a ser renovadas quase de modo automático. Essa medida piora a situação, porque não é mais preciso comprovar serviços nem cumprir os critérios estabelecidos. Antes poderiam ser uma barreira para a renovação.”

Suzy dos Santos se refere ao texto da lei que continha a previsão de cumprimento de “todas as obrigações legais e contratuais” e o atendimento “ao interesse público” como requisito para o direito à renovação das outorgas, retirado na nova versão. “Na comissão de Ciência e Tecnologia há uma grande quantidade de pastores. Todos os candidatos ligados à Universal fizeram parte da comissão.”

Em seu livro Neopentecostais, Ricardo Mariano afirma: “Ao substituir a velha máxima ‘crente não se mete em política’ por projetos eclesiásticos corporativistas, radicados no slogan ‘irmão vota em irmão’, entraram de ‘corpo e alma’ no jogo político. Avidamente cortejados e assediados por partidos e candidatos, vários desses ‘irmãos’ passaram a trocar voto e apoio eleitoral por cargos, recursos, favores e concessões – sempre públicos – de toda espécie.”

Há o crescimento pentecostal em muitos países do mundo, na América Latina toda, em muitos lugares na África, em alguns lugares da Ásia. Mas só no Brasil existem esses fenômenos de bancadas no Congresso. A aproximação com a direita é mais recente e tem a ver com essa nova direita. Ela não tem medo nem vergonha de se chamar de direita, após as passeatas de junho de 2013.

Outra característica do sistema eleitoral brasileiro, a de representação proporcional com listas abertas, favorece os candidatos carismáticos, os “puxadores de voto”. Estes passam a ser cobiçados pelos partidos.

“Eles dizem: ‘Vamos pôr o pastor candidato, que ele traz mais 2 ou 3 mil votos para a gente.’ Mas esse cara traz 60 mil votos e se elege sozinho! Esse sistema favorece a eleição desses pentecostais. E muitos países que têm crescimento pentecostal não têm isso. No Chile, por exemplo, onde o pentecostalismo também cresceu muito, quase não teve políticos evangélicos, porque é outro sistema eleitoral. Aqui os líderes pentecostais souberam maximizar suas possibilidades dentro desse sistema.”

 

 

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