Teologia da Prosperidade

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), avalia, para entender melhor o comportamento aguerrido da bancada evangélica no Congresso, é preciso olhar para dois pilares sustentáculos do neopentecostalismo no Brasil:

  1. a Teologia da Prosperidade (TP) e
  2. a Teologia do Domínio (TD).

A Teologia da Prosperidade é mais conhecida pelos não crentes – inclusive é alvo de críticas e piadas de toda espécie – por seu apelo financeiro constante como forma de “garantir um espaço no céu”. Também é uma das correntes mais criticadas entre os próprios evangélicos. Eles acreditam ela distorcer os valores bíblicos.

De forma geral, a Teologia da Prosperidade ensina: os cristãos têm direito a bem-estar, saúde e boa situação financeira para desfrutarem na Terra os privilégios de serem “filhos do Rei”. Seus pregadores defendem: há poder na chamada “confissão positiva” – a declaração em voz alta de um objetivo a se alcançar, para, por esse ato, ser concedido.

Muitas vezes o versículo bíblico “Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”, do Evangelho de Mateus, é usado para fundamentar a Teologia da Prosperidade. Assim, ela é a crença de ter sido dado aos cristãos o poder de trazer à existência aquilo declarado em voz alta.

Palavras ditas com fé teriam o poder de criar realidades. Nessa lógica, se o pedido não se realizar, a culpa é transferida ao crente. Ele não orou direito, não teve fé o bastante ou não fez ofertas de sacrifício suficientes para receber a graça de volta. Aí se encontra a parte mais polêmica dessa teologia. Aliás, tal como faz a literatura de autoajuda financeira…

O fiel com desejo ser abençoado precisa demonstrar sua fé fazendo “ofertas de sacrifício” a Deus, algo a lhe custar muito. É frequente os pastores usarem nas pregações de dízimos e ofertas dois exemplos:

  1. o de Abraão, que, por amor a Deus, se prontificou a sacrificar o próprio filho Isac, curiosamente é omitida a parte em que Deus não permite o sacrifício; e
  2. o da viúva de Sarefá ter preparado para o profeta Elias a única porção de comida guardada para ela e o filho – depois dessa, com o tempo, morreriam de fome –, e, em retribuição, Deus nunca mais deixou lhe faltarem azeite e farinha.

Em seu artigo “Os neopentecostais e a Teologia da Prosperidade”, o sociólogo Ricardo Mariano escreveu: “O crente que almeja receber grandes bênçãos de Deus precisa ser radical na demonstração de sua fé. Deve fazer doações que do ponto de vista do ‘homem natural’ e do cálculo racional seriam loucura. Precisa dispor de coragem. Deve assumir riscos, doando à Igreja algo valioso, como salário, carro, casa, poupança, herança, joias, caminhão etc., com a certeza de que reaverá, multiplicado, o que ofertou. Não pode guardar qualquer resquício de dúvida quanto ao retorno de sua fé, já que, como admoestam os pastores, ‘a dúvida é do Diabo’. Bastante estimulada, tal demonstração de fé é denominada de ‘provar’ ou ‘desafiar’ a Deus. […] Evidentemente, garantem os pregadores, Deus se compraz muitíssimo com os fiéis que ousam desafiá-lo em tão audazes e arriscadas exibições de fé.”

O pastor Caio Fábio diz que a Teologia da Prosperidade “cai como uma luva no complexo de inferioridade evangélica, que sempre foi uma comunidade de pobres”. E acrescenta: “Isso é muito poderoso. Os textos de Paulo sobre reinar em vida com Cristo, que são sobre ter poder espiritual sobre a baixaria, maldade, escolhas vis, que é adquirir essa consciência superior de ser gente em Deus e na vida, tudo isso foi transformado em ter uma empresa poderosa, em mandar em muita gente, ter um carro escrito ‘Deus é fiel’. Isso é ‘reinar com Cristo’ em glória, em Mercedes, em Audis, em Porsches. Se você tem esse carro velho é porque não teve fé.”

Ricardo Mariano, em seu artigo, definiu: “Ao prometer saúde perfeita, prosperidade material, sucesso nos empreendimentos terrenos, felicidade e vitória sobre o Diabo e os males causados por ele, a Teologia da Prosperidade relega a segundo plano tradicionais crenças e valores pentecostais. […] A pobreza material passa a significar falta de fé e a insubmissão dos desígnios divinos.”

Ele afirma ainda: “Defendendo que os cristãos, como sócios de Deus ou financiadores da obra divina, estão destinados a ser prósperos, saudáveis, felizes e vitoriosos em todos os seus empreendimentos, esta teologia, oriunda dos EUA, derruba por terra o velho ascetismo pentecostal, prejudica a imagem pública deste grupo religioso e concorre para pôr em xeque a tese que vê afinidades entre o pentecostalismo e o ‘espírito do capitalismo’.”

Antes da Teologia da Prosperidade, grande parte dos cristãos acreditava a recompensa por uma vida de aflições, dificuldades e sofrimento terreno, se acompanhadas de obediência aos preceitos bíblicos, seria a eternidade com Cristo. Bens materiais eram luxo e afastavam o crente de Deus.

O capítulo 19 do livro de Mateus, no Novo Testamento, dialogava com as aspirações dos santos e era repetido de forma constante nos sermões como refrigério para a alma dos que se viam esmagados pelo modus operandi do sistema econômico: “Com toda a certeza vos afirmo que dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. E lhes digo mais: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.” Mas, com a adesão de camadas mais ricas da sociedade ao Pentecostalismo, esse discurso poderia implicar a perda de fiéis, em especial, os da classe média.

Em seu artigo, Ricardo Mariano explica: enquanto os seguidores eram, em sua maioria, pobres e privados de bens materiais, culturais e educacionais, o sectarismo e o ascetismo pentecostais não geraram grandes questões. “Mas, com a ascensão social de parte, ainda que minoritária, dos fiéis e com o progressivo aumento da conversão de adeptos de classe média, as tensões poderiam se intensificar, e muito, não fosse a acomodação ao mundo ou a dessectarização. Ela, nas últimas duas décadas, tomou corpo em diversas Igrejas Pentecostais.”

Houve, portanto, a percepção estratégica: seria muito difícil para a Igreja competir com os apelos sedutores da sociedade de consumo – vide o crescimento evangélico e a diminuição do número de católicos no Brasil e no mundo. Ou a Igreja se mantinha ascética e sectária, aumentando sua desvantagem, ou teria de fazer concessões.

Há divergências entre os pesquisadores sobre a data e o local exatos de surgimento da Teologia da Prosperidade no mundo. Mas é consenso ela ter chegado ao Brasil no fim dos anos 1970, começo dos 1980, quando surge a crise do desenvolvimentismo após o milagre econômico brasileiro e o neoliberalismo assume o poder econômico. Ela se intensificou com a criação e o crescimento das Igrejas Neopentecostais, pois se encaixa perfeitamente na doutrina. Esta é a mais adepta das soluções imediatistas e sobrenaturais entre as Igrejas Evangélicas.

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