Teologia do Domínio: Guerra Santa

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), lembra: “os discursos de ódio do Pastor Marco Feliciano começaram a chamar mais atenção quando ele foi eleito, em 2013, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Na época, a imprensa, parlamentares mais progressistas e movimentos sociais pelos direitos das mulheres, militantes dos movimentos negro e LGBTQ passaram a divulgar declarações do político, de cunho racista, machista e homofóbico – feitas principalmente nas redes sociais e em pregações em sua Igreja.”

Em 2013, o jornal O Globo também destacou parte de uma entrevista integrante do livro Religiões e política: uma análise da atuação dos parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e LGBTs no Brasil, de Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes, onde o deputado declarou: “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo, e que vão gozar dos prazeres de uma união e não vão ter filhos. Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família; quando você estimula as pessoas a liberarem os seus instintos e conviverem com pessoas do mesmo sexo, você destrói a família, cria-se uma sociedade onde só tem homossexuais, você vê que essa sociedade tende a desaparecer porque ela não gera filhos.”

Desde então, muitas vozes conservadoras têm se somado à de Feliciano no Congresso, principalmente após a eleição de Eduardo Cunha a presidente da Câmara em 2015 e, depois, com o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer. Os discursos de ódio se tornaram cada vez mais altos, mais claros e frequentes.

O deputado Jair Bolsonaro, colega de partido de Feliciano, foi condenado pela Justiça mais de uma vez a pagar indenizações por ofensas a mulheres e negros. Em 2014, Bolsonaro afirmou que a deputada federal Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ser “muito feia” e não “fazer seu tipo”. Foi condenado pelo TJ-DF, em 2015, a pagar indenização de R$ 10 mil à petista por danos morais, mas recorreu. Em novembro de 2017, a Terceira Turma do STJ manteve, por unanimidade, a condenação.

Em outubro de 2017, Bolsonaro foi mais uma vez condenado a pagar R$ 50 mil por danos morais, devido a declarações preconceituosas feitas sobre os quilombolas em abril do mesmo ano. Na ocasião, ele participava de uma palestra no Clube Hebraica Rio, no Rio de Janeiro. Entre outras afirmações, Bolsonaro disse: “afrodescendentes quilombolas não fazem nada, e nem para procriador eles servem mais” e que “as reservas indígenas e os quilombos atrapalham a economia do país”.

Esse comportamento belicoso, e por vezes intolerante, da bancada evangélica encontra fundamento dentro de outra teologia, menos conhecida que a da Prosperidade, mas largamente difundida, sobretudo pelas Igrejas Neopentecostais: a Teologia do Domínio.

Há poucos estudos específicos sobre isso no Brasil. O sociólogo Ricardo Mariano é mais uma vez quem definiu essa teologia de forma mais clara. Em seu artigo “Guerra espiritual: o protagonismo no Diabo”, ele diz: “No início dos anos 90 surgem novas concepções nas Igrejas Neopentecostais, da guerra espiritual nos Estados Unidos. A Dominion Theology, assim conhecida por lá, foi rapidamente proliferada nos segmentos evangélicos brasileiros, em especial no Neopentecostal. Tudo que se refere à luta do cristão contra o Diabo pode ser chamada de Teologia do Domínio.

Esta batalha é feita contra demônios específicos, espíritos territoriais e hereditários, e, no caso do Brasil, identificado aos santos católicos. O nome desse movimento advém da crença de os demônios dominarem os seres humanos pertencentes a esses grupos sociais. Eles também estão presentes nestas mesmas regiões onde se encontram (igrejas, terreiros, centros) e, dessa forma, precisam ser libertos por meio de oração, guerra espiritual e em alguns casos até pela força física.”

A invasão e destruição de centros, terreiros e igrejas de outras religiões têm sido recorrentes inclusive por parte de traficantes frequentadores de igrejas evangélicas.

Mariano afirma ainda: através da Teologia do Domínio, até mesmo desigualdade social, injustiça, violência e guerra podem ser explicadas como maldições hereditárias ou territoriais – aliás, não são raros os casos de pastores e obreiros, envolvidos em estupros de mulheres e vulneráveis, a culparem o Diabo por suas ações.

“Comparadas às denominações das vertentes Pentecostais precedentes, as Igrejas Neopentecostais parecem ir um pouco mais longe na luta contra o mal. O fato é que elas hipertrofiam a guerra entre Deus e o Diabo pelo domínio da humanidade,” explicita.

O pastor da Igreja Internacional da Graça de Deus e televangelista R R Soares, um dos grandes propagadores da Teologia do Domínio, define esse pensamento: “[…] não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde.”

O grupo de evangelização da Igreja Universal chamado Gladiadores do Altar gerou polêmica em 2015 ao postar, em redes sociais, vídeos e fotos mostrando rapazes com cabelos cortados ao estilo militar, prestando continência para um líder. Marchavam uniformizados: coturno, calça e camiseta – esta apresentava, nas costas, um emblema composto por um escudo transpassado por uma espada medieval; em seu centro liam-se as iniciais “G.A.”. A maioria dos vídeos foi retirada do ar, mas a página do grupo no Facebook continua ativa.

Mas, para além das alusões a práticas militares, assustadoras invasões e destruições cada vez mais frequentes de terreiros de umbanda e casas espíritas, as gravíssimas perseguições e toda a violência direcionada às outras religiões – e mesmo as guerras travadas com o Diabo dentro das igrejas –, o que merece atenção na Teologia do Domínio, especificamente por dialogar com os evangélicos do Congresso Nacional, é uma “atitude frontal de enfrentamento” como nunca se viu, como destaca Ricardo Mariano em seu livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil:

“Essa é a grande novidade […] Do lado evangélico temos um verdadeiro exército de salvos com um projeto bem definido de expansão. De outro, pequenas comunidades que não entendem por que estão sendo atacadas e tampouco têm como se defender.”

O sociólogo explica: a guerra travada vai além da acontecendo entre forças espirituais, uma vez que os seres humanos participam, de modo recorrente, de uma ou outra frente de batalha: quem não concorda com os evangélicos se torna inimigo, e a verdade absoluta passa a ser exclusividade dos crentes.

Mariano afirma: “Prato cheio para os políticos evangélicos, a crença nos espíritos territoriais tem se prestado a uso eleitoreiro. Justificam seus defensores candidatos e cabos eleitorais a eleição de evangélicos para os altos postos políticos da nação trazer bênçãos sem fim à sociedade. Além de desalojar parlamentares infiéis, idólatras, macumbeiros e adeptos de práticas pagãs, parcialmente culpados pelas terríveis maldições que recaem sobre o país, os políticos evangélicos eleitos teriam a privilegiada oportunidade de poder interceder nos planos material e espiritual diretamente no próprio local onde se alojam poderosos demônios territoriais que tanto oprimem os brasileiros.”

Tais discursos são usados com frequência nas Igrejas, não apenas em épocas eleitorais. Desde a Renascer em Cristo, passando pela Assembleia de Deus e pela Igreja Universal, muitas denominações explicam o apoio a candidatos como a garantia de representatividade – espiritual, inclusive – no Congresso.

Em visita ao Templo de Salomão, em outubro de 2017, Andrea Dip pode ouvir o bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, advertindo ser importante votar em candidatos evangélicos para proibir que projetos imorais avancem na sociedade.

Para o pastor Caio Fábio, a hostilidade vinda de alguns evangélicos também diz muito sobre um complexo de inferioridade histórico: “Os evangélicos sempre sofreram de um grande complexo de inferioridade. Esse complexo, à medida que o número de fiéis foi crescendo, se tornou uma atitude profundamente agressiva – aquela sensação de inferioridade, mania de perseguição que norteou a atitude evangélica por décadas. Uma cultura perseguida e aflita. Até hoje essa cultura se mantém. Mas como hoje há muita gente ‘sendo perseguida’ e [há] um poder muito grande na mão dos ‘perseguidos’, fica mais difícil manter esse discurso. E a toda hora esse discurso é traído pela atitude persecutória, hostil, violenta, inquisitória dos evangélicos. São espíritos ‘xerifescos’, guardiões da moral de Deus na sociedade.”

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