Casta dos Sabidos Pastores

No passado, existia a casta dos sábios sacerdotes. Junto com as castas dos guerreiros, dos oligarcas governantes e dos mercadores, voltam-se para seus privilégios dominando espiritualmente os párias, isto é, “o resto da sociedade”. Após a II Guerra Mundial, emerge junto com a casta dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos políticos a casta dos sábios intelectuais, fruto da massificação das Universidades antes elitistas. O ressurgimento da casta dos (prefiro qualificar) “sabidos pastores evangélicos” é uma reação contra o avanço da história, portanto, um reacionarismo.

No livro de Andrea Dip, “Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder”, encontra-se um depoimento de uma família imigrante à procura de ambientação no novo lugar, onde ela se integrou aos cultos da Igreja Renascer.

“Por ser uma instituição com atividades diárias, de “portas abertas [para a comunidade]”, nossa vida fora do trabalho profissional era totalmente voltada para o trabalho ministerial na igreja. Passamos a não frequentar mais as festas da nossa família, a não visitar ninguém, a não termos horas de diversão e lazer.

Mais um tempo se passou, e meu marido se tornou pastor voluntário. Não recebia, por opção, porcentagem do dízimo. O pastor receberia 10% do que a igreja arrecadava durante o mês. O bispo sub-regional, 10% da arrecadação das igrejas que acompanhava. O bispo regional, 10% de todas as igrejas da região. O bispo primaz, 10% do estado ou país. E o apóstolo, 10% de todas as igrejas.”

A esposa diz: “Certa vez, um homem nos procurou para fazer lavagem de dinheiro. A proposta foi simples: uma porcentagem ficaria para a igreja. Claro que nós não aceitamos, mas esse tipo de proposta deve acontecer com frequência.”

Miséria e catástrofes eram relacionadas a religiões praticadas na região. Demônios deveriam ser “denunciados” e “repreendidos” pelos cristãos, para não atuarem mais contra os cristãos, porque eles os estavam denunciando. Até estupros e vícios eram atribuídos a demônios, em alusão a passagens bíblicas antigas.

“As mulheres doavam suas joias, principalmente nos Cultos de Mulheres. Os homens doavam suas canetas e relógios. Até carros. Isso era incentivado e enfatizado. Entregar para Deus.”

“Havia em todos os cultos a ministração dos dízimos e ofertas, após o louvor e antes da ministração da Palavra. Os “desafios” financeiros eram difíceis de engolir: o apóstolo [Estevam] Hernandes planejava a compra de uma rádio, por exemplo, e todos os bispos e pastores deveriam se comprometer. Os diáconos, presbíteros, pastores, bispos, deveriam entregar cheques pré-datados e “correr atrás” para cobrir [o valor no Banco]. Acabava sobrando para os menorezinhos, os últimos da fila, os colaboradores voluntários, os diáconos. Fazíamos muitos eventos, rifas, bazares para cobrir esses compromissos. Nem sempre conseguíamos. Eu dei minhas joias. Meu marido não tinha coragem de deixar que depositassem os cheques, de diáconos, que não tinham fundos. Ia até os bispos e dava seus cheques no lugar. Foi repreendido mais do que uma vez, porque diziam que ele não estava ensinando a seus diáconos viverem pela fé.”

“Durante a Ceia dos Oficiais [uma espécie de Santa Ceia destinada a quem trabalha voluntariamente nos templos], uma vez por mês, eram dadas as coordenadas das campanhas mensais e apresentados os candidatos a cargos políticos. Eram realizados eventos de jantares, chás, cultos, para apoio à candidatura de políticos. Destinados às classes média e alta, quase sempre mediante venda dos convites.”

“Eu me arrependo muito de ter nos deixado, a mim e a minha família, nos envolver por essas instituições que não passam de máquinas de fazer dinheiro. De termos perdido tanto tempo de nossa vida enriquecendo os líderes da Igreja e não termos construído para nós. De termos perdido a convivência com os nossos e de termos ingenuamente acreditado em pessoas que se autossantificam e idolatram.

Quando vejo alguém frequentando esses cultos dessas Igrejas-Business, percebo o quanto são enganados. Os colaboradores, trabalhadores voluntários são quem realmente sustentam essas máquinas e são explorados.”

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