A Esquerda e Os Evangélicos

Segundo Andrea Dip. “Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder”, “o filósofo e psicanalista Guilherme Boulos é hoje a maior liderança entre movimentos sociais no Brasil. Na militância desde os 15 anos de idade e à frente do MTST, ele conhece de perto a atuação das Igrejas Pentecostais e Neopentecostais nas periferias das cidades e dentro do próprio MTST, que tem grande parte de sua base composta por evangélicos”.

Em entrevista exclusiva, realizada em 2017, Boulos falou sobre como essa Igreja está ocupando um vácuo deixado pela esquerda nas periferias, sobre a bancada que a representa, além de tratar de acolhimento, preconceito e subjetividade.

No fim dos anos 1970 e durante os anos 1980, a esquerda desenvolveu uma penetração periférica muito forte através dos movimentos sindicais, de moradia, das comunidades eclesiais de base. Houve uma capilarização territorial do projeto de esquerda. Ele se expressou em um método de trabalho de base, de escuta, de criação de núcleos nas comunidades. Essa conjuntura foi decisiva para o crescimento e a consolidação do PT nas periferias urbanas.

No entanto, ao longo do tempo, isso foi se perdendo por uma opção majoritária da esquerda em apostar todas as fichas no processo eleitoral.

Essa não é uma crítica à participação no processo eleitoral. A esquerda deve participar, mas o problema é a participação sem lastro social. É se dedicar de forma integral às eleições, resumir o trabalho de base às campanhas eleitorais a cada quatro anos e não manter um contato permanente com o povo.

Esse o vácuo deixado foi sendo preenchido territorialmente a partir dos anos 1990 pelas Igrejas Neopentecostais. Elas se enraizaram pelos territórios de todas as periferias e foram ocupando um espaço de escuta e de atendimento de demanda. Não só de demanda financeira – há o elemento social –, mas de demanda subjetiva de participação. Isto faz as pessoas se sentirem acolhidas.

A esquerda deixou um vácuo e as Igrejas foram tomando o território. Os projetos são diferentes, mas o método de trabalho, o enraizamento, o diálogo com o povo é parecido. Isso não é linear. Existem movimentos ainda com trabalho de base, mas de forma geral isso foi deixado em segundo plano, e as Igrejas se fortaleceram.

Não é uma relação simples entre o fortalecimento evangélico e o fortalecimento da direita. Não dá para tomar os milhões de evangélicos pelo padrão do Malafaia.

O comando das Igrejas Pentecostais, de maneira geral, representa o ideário traduzido a partir da Teologia da Prosperidade: individualismo, preconceito, intolerância. Mas também na Igreja acontece a crise da representação política geral, porque nem sempre os representantes políticos traduzem o que pensam os representados. A base evangélica é mais tolerante se comparada ao Malafaia e seus pastores.

A penetração popular conseguida pelas Igrejas sempre se deu pelo seu método de acolhimento, de apresentação de horizonte diante do desamparo, de valorização das pessoas pisadas, depressivas, impotentes. Esse trabalho de captura subjetiva acontece mais em lugar de uma difusão de uma ideologia.

Tem a ver também com o empreendedorismo individualista e com o esvaziamento de soluções coletivas. O crescimento das Neopentecostais, junto com o empreendedorismo e com o enfraquecimento dos movimentos sociais, produz essa “direitização”. Mas isso não é simples, não dá para julgar o pensamento dos evangélicos pelo pensamento dos pastores e líderes das Igrejas.

Os evangélicos na base do MTST não são diferentes dos demais evangélicos, mas eles ocupam terra, fecham rodovia, fazem manifestações, pressionam órgãos públicos. Não há uma contradição com a luta por direitos da cidadania.

Muitas vezes eles encontram nas ocupações elementos comuns, de algum modo, aos que os encantaram na Igreja, como o acolhimento, o pertencimento a um grupo, a identidade coletiva. A ocupação proporciona isso. É uma sociabilidade coletiva construída nas ocupações do MTST.

Uma parte importante da esquerda foi perdendo a capacidade de dialogar com o povo. Ela não tem capacidade de dialogar com esses elementos da cultura e da vida popular.

No caso dos evangélicos neopentecostais, existe um certo grau de preconceito de setores da esquerda. Não é possível generalizar. Você tem a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, cuja principal referência é o pastor Ariovaldo Ramos. Ele é uma figura de esquerda, está envolvido com os movimentos sociais, tem feito um trabalho conjunto com o MTST na ocupação Nova Palestina, em São Paulo. Tem também o pastor Henrique Vieira, do PSOL, no Rio de Janeiro.

Mas, de maneira geral, o desafio posto à esquerda brasileira é a repactuação com o povo por meio do trabalho de base. Isso significa necessariamente dialogar com as formas como se manifestam os sentimentos e a compreensão popular.

Então, não é possível fazer um diálogo com as periferias sem compreender, de uma forma sem ser preconceituosa, o Neopentecostalismo.

Boulos não traz uma visão ingênua, benevolente ou acrítica em relação a essas Igrejas. Muitas delas são máquinas de ganhar dinheiro. Elas se traduzem politicamente em iniciativas de direita, intolerantes, de ódio, homofóbicas, machistas. O cuidado a ser tomado pela esquerda é de não entender esse fenômeno perverso como se fosse a expressão do pensamento dos milhões e milhões de evangélicos no Brasil.

A bancada evangélica é um desastre político. Ela representa um dos setores mais reacionários da política brasileira, representa o pensamento das figuras proeminentes das grandes Igrejas Neopentecostais, mas também, em alguma medida, representa parte do pensamento da base evangélica, mas não dela toda.

A forma de eleição dessa bancada é um curral eleitoral. A divisão é feita por igrejas. Um certo número de igrejas é suficiente para eleger um deputado. Não há um acompanhamento, uma fiscalização por parte dos evangélicos sobre o trabalho desses deputados. Em tese, isso é visto como um tributo, uma defesa, à Igreja.

Não parece a Boulos haver um pacto de quais temas essa bancada vai defender com a base evangélica. Até porque existe contradição entre as Igrejas. A Universal, por exemplo, mesmo com todos os absurdos, faz o debate sobre a descriminalização do aborto. Existe essa diferença entre eles. Mas a bancada de forma geral é uma excrescência, algo profundamente refratário. Ela ajuda a pautar o debate político pela direita no Brasil.

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