Avanço Pentecostal nas Periferias

Andrea Dip, no livro “Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder”, conta a ironia da denominação invocadora do “Rei dos Reis”, “dono de toda a prata e de todo o ouro”, ter nascido negra, periférica e um tanto subversiva.

O movimento Pentecostal, tal como é conhecido hoje, surgiu em Topeka, uma cidade do estado do Kansas, nos Estados Unidos, por volta de 1900, por meio de um pregador chamado Charles Fox Parham. Mas foi um de seus alunos, William Seymour, quem fez o movimento crescer.

Seymour foi convidado a pregar em Los Angeles e seus encontros começaram a atrair muita gente: “Seymour era filho de ex-escravos e, apesar do contexto social extremamente hostil aos negros, ele continuou a ensinar. Apesar das constantes humilhações, desenvolveu uma espiritualidade que resultou, em 1906, num avivamento em Los Angeles. […] Bispos brancos e trabalhadores negros, homens e mulheres, asiáticos e mexicanos, professores brancos e lavadeiras negras, todos eram iguais.”

A imprensa acompanhava o fenômeno do emergente movimento Pentecostal, desprezando seus seguidores devido à origem negra e humilde. Desde então, algumas coisas mudaram, mas não todas.

O preconceito contra o “crente pobre, fanático e ignorante” continua no Brasil, enquanto as Igrejas Pentecostais e Neopentecostais avançam de forma acelerada pelos rincões do país e pelas franjas das cidades – em um cenário de polarizações políticas e sociais, intolerância, discursos de ódio cada vez mais frequentes, desigualdade social crescente, agravada pela perda de direitos trabalhistas, previdenciários, entre outros, em um caldo cada vez mais fervente.

Para o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, as Igrejas têm ocupado um vácuo deixado pela esquerda. Esta teria abandonado o trabalho de base que vinha sustentando durante tantos anos e optou por concentrar esforços na política institucional durante os mandatos de Lula e Dilma.

O pastor Ariovaldo Ramos concorda: “Em relação à esquerda, aconteceram duas coisas: a primeira é que perdeu o contato com as massas por causa da ilusão de que tínhamos ganhado o poder, mesmo sem o Legislativo.

Em segundo lugar, a esquerda desprezou a participação evangélica nas comunidades pobres. Não se envolveu com a comunidade, não entendeu que poderia ter aliados ali. Isso causou um problema assustador, pois o trabalho dos pastores, se antes tinha apelo humanitário, passou depois a ter conotação político-partidária.

Eles foram cooptados pela direita, não porque ela apresente um discurso palatável. Mas porque atua a partir de um enfoque moralista, o suficiente para as comunidades cristãs o prezarem muito.

Quando se chega à base da pirâmide, chega-se à vulgarização do conceito. Isso causa uma redução do sentido original do discurso. Logo, o reducionismo sofrido por toda a complexidade da fé cristã é muito grave.

A direita assumiu-se como a grande defensora dessa moral capaz de privilegiar, entre aspas, a construção e a santificação da família! Ela é a base das religiões evangélicas Pentecostais e Neopentecostais, em especial nas comunidades mais pobres. Daí a direita ganhou a atenção desses pastores e, mais tarde, a cooperação deles.”

Mas, ao contrário do que se possa imaginar, o crescimento dessas Igrejas nas periferias não está necessariamente ligado à promessa de sucesso e prosperidade financeira pregada pela Teologia da Prosperidade. Inclusive porque se sentir “filho do Rei” pode ter outra conotação para quem está em situação de extrema pobreza, opressão e invisibilidade social, como explica o pastor Ariovaldo Ramos:

“A fé cristã se define pelo acolhimento e, nas periferias, onde você encontra basicamente as pessoas empobrecidas e marginalizadas pelo sistema. Elas se tornaram ‘invisíveis’. Varrem as ruas, recolhem os detritos, mas não são vistas pelos passantes.

Quando elas chegam a uma comunidade, resta a elas a organização social. Esta é cada vez mais capitaneada pelas manifestações de fé. No passado, essas manifestações estavam mais relacionadas a religiões de matriz africana, mas agora estão cada vez mais ligadas a religiões evangélicas Pentecostais e Neopentecostais.

Nesse acolhimento, acontecem dois encontros:

  1. o primeiro, com o próprio ser humano. A pessoa passa a fazer parte de uma comunidade onde é conhecida não apenas como um número ou como alguém vestida com um uniforme característico. É tratada pelo nome, as pessoas param para ouvir sua história.
  2. o segundo encontro é com a fé. Ela enfatiza a manifestação divina através do fiel. Então, à medida que o fiel manifesta qualquer dom descrito como presença de Deus, é levado imediatamente a uma posição de destaque na comunidade porque tem um dom, porque é um instrumento divino para abençoar outras pessoas. Ele ganha uma importância, uma relevância que não ganharia em outro lugar, e isso acontece em tempo recorde.

Além disso, ele ganha dignidade pessoal, porque ele é tido como filho de Deus. Ele não é mais um ser perdido no universo, a serviço de uma máquina exploradora. Ele tem nome. Ele é recebido como irmão. Como pastor, líder, obreiro, evangelista. A família se reúne, ele abandona os vícios, passa a cuidar melhor de onde mora. Isso tudo não tem comparação no sistema capitalista nem no socialista [realmente existente]. E isso acaba de fato sendo transformador.”

Sobre o viés da inclusão e da subjetividade, o Pentecostalismo surge na favela e já nasce com uma tecnologia religiosa testada para funcionar para as classes populares. As pessoas encontram ali um pronto-socorro de saúde mental.

É comum se ouvir: – “Ah, eu estava mal, entrei na igrejinha da esquina e melhorei!”.

Na sociedade capitalista predomina a impessoalidade do dinheiro. Então, você não tem espaço para ser acolhido, para ter um suporte, escuta, alegria, beleza. A vida se torna tão caótica, precária, de modo a ser impossível as pessoas não terem desejo de ter uma ordem na vida. Esse modo de vida religioso é capaz de centralizar, organizar e ordenar a vida antes desestruturada da pessoa e sua família. Evidentemente, com isso vem um pacote de conservadorismos. Essas igrejas instituem um micro-Estado precário de bem-estar social.

Além disso, outros fatores conduzem os crentes da periferia, como a falta de espaços de cultura e lazer nas comunidades. As pessoas sabem os sabidos pastores serem pilantras, enganarem todos, tirando dinheiro do povo. Mas respondem: – “Você acha que eu não sei disso? Mas aqui, aos domingos, não tem nada para fazer. Eu não aguento mais ficar em casa assistindo ao Faustão. Na igreja eu encontro gente, canto, faço amizade, é uma festa! Lá ainda tem as irmãs que olham meu filho, eu vou mesmo!”

Você imagina a quantidade de gente que vai pela primeira vez à igreja por causa disso? Porque precisa de algo para fazer? Na igreja as pessoas vão encontrar encantamento, beleza, diversão.

“Você chega e já se sente especial. Ninguém te faz sentir especial nessa vida. É como o programinha da Universal, Fala Que Eu Te Escuto. Quem é que escuta alguém hoje em dia? E, em meio a casas com tijolo aparente, as igrejas são lindas, pintadas, coloridas; você já imagina o mutirão de domingo para pintar a igreja, para construir, para limpar; junta o povo, organiza, congrega. Um lugar que não tem nada para fazer, só boteco – e boteco é para os homens –, e no fim de semana tem uma festa com música, com gente, com um pastor que te ouve. Se você estiver mal pode bater na casa dele ou ele vai à sua casa, vai te aconselhar, você vai se sentir confortado, aliviado. Faz todo o sentido do mundo.”

Para o marxista Mike Davis, o Pentecostalismo trata-se do “maior movimento auto-organizado dos pobres urbanos no planeta” e da “reação cultural isolada mais importante à urbanização explosiva e traumática”. Isso ocorre porque o Pentecostalismo cria “uma relação eficiente com a necessidade de sobrevivência da classe trabalhadora informal, organizando redes de autoajuda para as mulheres pobres, oferecendo a cura espiritual como paramedicina, auxiliando a recuperação de alcoólatras e dependentes de drogas, protegendo as crianças das tentações das ruas”.

O avanço das Igrejas Evangélicas conta inclusive com a participação de figuras do tráfico de drogas. Ele tem sido cada vez mais frequente nas Igrejas. Tem influenciado, inclusive, a estética das favelas, com outdoors e muros pintados com mensagens bíblicas, financiados pelos traficantes. “

Vários desses traficantes vinham de famílias evangélicas e tinham se desvinculado. Mas estavam em uma nova vinculação, mesmo como traficantes. Davam dízimo, participavam dos cultos de ação de graças, não havia contradição para eles. E algumas lideranças das Igrejas justificavam a salvação ser um processo – de autofinanciamento.

O perfil de personalidade de um traficante, de um pastor e de uma liderança de movimento popular são muito próximos: tem carisma, liderança, sabe organizar e sabe que tem uma missão ali. São caminhos diferentes, obviamente, mas o perfil é parecido.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s