Gerenciamento das Crises de Grande Dívida

Ray Dalio, no livro “Crise da Grande Dívida” (“Big Debt Crises”; Bridgewater; sept 2018), pergunta: a maioria das crises da dívida pode ser gerenciada para não haver grandes problemas?

Às vezes, esses ciclos são moderados, como colisões leves na estrada e, às vezes, são extremos, terminando em engarrafamentos de grandes proporções. Neste estudo, Dalio examina os extremos, ou seja, todas as Crises de Grande Dívida, nos últimos 100 anos, causadoras de quedas no PIB real de mais de 3%.

Com base nos seus exames e na maneira como funcionam as alavancas disponíveis para os formuladores de políticas econômicas, acredita ser possível para as equipes econômicas gerenciá-las bem em quase todos os casos quando as dívidas são denominadas na própria moeda de um país. Isso ocorre porque a flexibilidade tida pelos formuladores de políticas públicas lhes permite disseminar as consequências prejudiciais de tal maneira os grandes problemas de dívida não serem realmente grandes problemas.

A maioria dos problemas econômicos realmente terríveis causadas pelas Crises de Grande Dívida ocorreu antes de os formuladores de políticas tomarem medidas para disseminá-los. Mesmo as maiores crises de endividamento da história, por exemplo, a Grande Depressão dos anos 1930, foram superadas logo quando os ajustes certos foram feitos.

Do seu exame desses casos, os maiores riscos não são das próprias dívidas, mas de:

  1. o fracasso dos formuladores de políticas em fazer as coisas certas, devido à falta de conhecimento e/ou falta de autoridade, e
  2. as consequências políticas de fazer ajustes prejudiciais a algumas pessoas no processo de ajudar os outros.

Por conta do desejo de ajudar a reduzir esses riscos sociais, Dalio escreveu este estudo. Dito isto, quer reiterar:

1) quando as dívidas são denominadas em moedas estrangeiras, em vez da própria moeda, é muito mais difícil para os formuladores de políticas de um país fazer o tipo de coisas necessárias para distribuírem de maneira mais equânime os problemas da dívida;

2) o fato de as crises da dívida poderem ser bem administradas não significa elas não serem extremamente caras ou prejudiciais para algumas pessoas.

A chave para lidar com as crises da dívida é os formuladores de políticas saberem como usar bem suas alavancas e terem a autoridade necessária para fazê-lo. Necessitarão saber a qual taxa por ano os encargos terão de ser distribuídos e quem será beneficiado, quem sofrerá (e em que grau), para as consequências políticas e outras serem aceitáveis.

Existem quatro tipos de alavancas possíveis de serem usadas pelos formuladores de políticas públicas para reduzir os níveis de dívida e serviço da dívida em relação aos níveis de renda e fluxo de caixa necessários para atendê-los:

  1. austeridade, ou seja, gastar menos;
  2. inadimplência ou reestruturações de dívidas;
  3. o banco central “imprimir dinheiro” para resgatar títulos de dívida pública ou fornecer garantias em empréstimos;
  4. transferências de dinheiro e crédito de quem tem mais além do necessário para aqueles carentes de liquidez e/ou renda.

Cada uma de suas alavancas tem diferentes impactos na economia. Algumas são inflacionárias, embora estimulem o crescimento, por exemplo, “imprimir dinheiro”, enquanto outras são deflacionárias e ajudam a reduzir os encargos da dívida, por exemplo, austeridade e inadimplência.

A chave para criar uma “bela desalavancagem”, isto é, uma redução na relação dívida / renda acompanhada de inflação e taxas de crescimento aceitáveis, fenômeno a ser explicado mais adiante em seu livro por Ray Dalio, está em atingir o equilíbrio certo entre elas. Neste cenário feliz, a relação dívida/rendimento [grau de fragilidade financeira] diminuem ao mesmo tempo que a atividade económica e os preços dos ativos financeiros melhoram, aumentando gradualmente a taxa de crescimento nominal dos rendimentos acima da taxa de juro nominal.

Essas alavancas mudam em torno de quem se beneficia e quem sofre, e durante quanto tempo. Os tomadores de decisões de política econômica são colocados na posição politicamente difícil de fazer essas escolhas. Como resultado, eles raramente são apreciados, mesmo quando lidam bem com a crise da dívida.

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