Lideranças Setoriais na Retomada do Crescimento: Políticas para Componentes da Demanda

Na edição de 4 de julho de 2019, o jornal Valor publicou dois artigos com pluralismo ideológico como deveria ser a prática contumaz da “grande imprensa brasileira”. Permitiu a comparação de posicionamentos analíticos da linha de pensamento social-desenvolvimentista e neoliberal.

Thiago de Moraes Moreira é mestre em Economia pela UFRJ e professor de Macroeconomia do Corecon/RJ. Carlos von Doellinger é economista e presidente do Ipea. Este “Chicago’s Boy” é também da velha guarda da EPGE-FGV, participante do regime militar ditatorial brasileiro. É típico do oportunismo carrerista-ideológico, sem pudor pela incongruência da passagem do liberalismo à americana (esquerda), adotado inclusive por professores da Escola de Chicago, para o neoliberalismo à brasileira (extrema-direita), quando não foi lamber as botas dos militares ditatoriais do Chile de Pinochet.

Reproduzo primeiro o artigo do desenvolvimentista. Depois, o do neoliberal. Compare.

O papel do consumo na recuperação (por Thiago de Moraes Moreira)

“Como já tem sido usual na última década, os indicadores que medem a evolução da atividade econômica brasileira seguem frustrando as expectativas. Tomando como referência a pesquisa Focus do Banco Central, desde 2010 as medianas da expectativa de crescimento para o PIB anual chegam ao fim do primeiro semestre em patamares inferiores ao projetado no início do ano. Quando muitos esperavam que 2019 reverteria este quadro, houve nova deterioração nas expectativas de crescimento. Se no início de janeiro, a mediana esperada era de 2,53%, finda a primeira metade, a taxa já se encontra em 0,85%, uma retração de 66,4%.

Para entendermos os motivos para esta difícil situação em que nos encontramos, cabe inicialmente aprofundarmos no comportamento dos componentes do PIB. De acordo com as séries mensais do Monitor do PIB elaborada pela FGV/RJ, cujo última leitura refere-se ao mês de abril, não fosse o forte ritmo de crescimento das exportações de produtos agropecuários e, principalmente, da extrativa mineral, a economia brasileira provavelmente já teria retornado a uma dinâmica recessiva.

No período acumulado de janeiro a abril, o volume exportado dos bens agropecuários cresceu 5,7% e da extrativa, 23,5%, sempre na comparação com o mesmo período de 2018. Dessa forma, a despeito das fortes retrações nas vendas externas dos bens de consumo duráveis (-32,5%) e bens de capital (-12,6%), o volume agregado das exportações brasileiras registrou expansão de 4,2%.

No que diz respeito aos componentes da demanda interna (consumo e investimento), os desempenhos mostram-se muito inferiores ao das exportações. No caso do consumo das famílias, a expansão verificada até abril foi de 1,7%, graças ao crescimento da procura pelos bens duráveis, que registraram crescimento de 5,1%. Já os bens semi e não duráveis, que representam a maior parcela do consumo por bens industriais, cresceram apenas 0,7% e 0,8%, respectivamente. Os investimentos agregados, por sua vez, apresentaram desempenho ainda pior, com expansão acumulada até abril de apenas 1,1%.

Muito embora os desempenhos dos componentes de demanda, com raras exceções, ainda sejam decepcionantes, a frustração torna-se muito maior quando se verifica que o poder de transformação desta demanda em geração efetiva de PIB e renda é extremamente limitado. Neste mesmo período de análise, o PIB brasileiro permaneceu praticamente estagnado ao longo do primeiro quadrimestre do ano, com expansão de 0,1%.

O núcleo fundamental da explicação está nas características da estrutura produtiva brasileira e nas limitações de um modelo de crescimento calcado na produção de bens primários voltados à exportação. Não se trata apenas da escala das exportações das commodities ser pequena comparada à produção agregada, mas principalmente do poder de impulsionar crescimento econômico a cada unidade monetária produzida. Com base na última Matriz Insumo Produto (MIP), referente a 2015, é possível quantificar o valor de produção gerado a cada R$ 1 exportado pelas atividades. No caso da produção agrícola, a exportação de R$ 1 gera (direta e indiretamente) uma produção agregada de R$ 1,72. No caso da pecuária, este valor é um pouco maior, de R$ 1,80. No caso da exportação de petróleo e de minério, R$ 1 exportado gera uma produção final de R$ 1,71 e R$ 1,79, respectivamente.

Outra característica importante do modelo que vem se configurando diz respeito ao crescimento do conteúdo importado de máquinas, equipamentos e insumos requeridos nos processos produtivos, substituindo produção nacional, em particular nos referidos setores primários-exportadores. Na agropecuária, apenas de janeiro a maio deste, segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex), as importações de bens intermediários e de capital cresceu, em quantum, 26,6% e 31,3%, respectivamente. No caso da extrativa, embora o Icomex não disponibilize o dado específico para ela, sabemos que em função do relaxamento das políticas de conteúdo local no setor de petróleo e gás, as importações também cresceram de forma significativa.

Portanto, é razoável supor que a agropecuária e extrativa mineral reduziram ainda mais seu poder de arraste das demais atividades. No entanto, ainda que desconsideremos estes efeitos, a própria MIP de 2015 nos dá indicações de que em termos relativos as atividades que “lideram” a retomada da economia brasileira apresentam um reduzido poder de impulsionar crescimento.

Os dados apontam que a sustentação de uma trajetória de recuperação econômica dependerá da reativação do consumo de massa, no qual predominam os bens industriais semi e não duráveis. Não apenas a escala destes segmentos é muito maior e os ciclos de vida dos produtos são menores quando comparados aos bens duráveis, como os efeitos multiplicadores sobre a produção agregada calculados com base na MIP revelam um expressivo poder do consumo de massa de alavancar crescimento. É o caso, por exemplo, das atividades produtoras de carnes, açúcar, demais alimentos, bebidas, calçados e produtos de higiene pessoal/cosméticos. O gráfico traz os efeitos multiplicadores totais sobre a produção da variação de R$ 1 no consumo direcionado a estas atividades, muito superiores aos efeitos já mencionados das atividades primário- exportadoras.

Em geral, dá-se maior destaque aos investimentos em infraestrutura e seu papel como impulsionador da recuperação. Sem dúvida, representam importantes estímulos de demanda para reativar o tão combalido setor de construção civil. No entanto, vale ressaltar que o próprio efeito multiplicador da construção (R$ 1,80) é inferior ao das atividades vinculadas ao consumo de massa.

Uma agenda governamental de retomada do crescimento precisa incorporar a preocupação com o consumo massivo. A reativação deste gasto é condição necessária para uma recuperação mais consistente do PIB e da renda agregada. Há diversas iniciativas que podem contribuir para este movimento, mas aproveitando o contexto de debates sobre as reformas, gostaria apenas de mencionar que uma reforma tributária que busque aliviar os impostos sobre itens do consumo de massa pode ser um dos instrumentos que favoreçam a retomada.”

Uma estratégia de retomada da economia (por Carlos von Doellinger)

“Os resultados mais recentes do nível de atividade econômica parecem indicar taxa de crescimento do PIB próxima de 1% em 2019, inferior ao resultado de 2018. Para muitos analistas, uma desagradável indicação de estagnação.

Há um consenso de que a recuperação dos investimentos, da produtividade global dos fatores, da competitividade e consequentemente do crescimento mais robusto da atividade depende da entrega de resultados razoavelmente convincentes para as principais reformas do Estado, a começar pela reforma da previdência, seguida do “pacto federativo”, da reforma tributária, do ajuste patrimonial do Estado (privatizações), da abertura da economia e de uma ampla agenda microeconômica voltada à redução do chamado “custo de transação” e da revitalização do setor privado.

Todavia, cresce a impaciência dos principais agentes da economia, nomeadamente no setor privado, nacional e estrangeiro, por conta da eventual demora dos resultados esperados. Cresce, portanto, o clamor por medidas que possam ajudar a recuperar os níveis de atividade enquanto se aguarda os resultados.

A grande pergunta é se seria possível implementar desde logo algumas medidas de estímulo que não colidam com a racionalidade da estratégia pretendida e que não configurem mais um dos muitos “voos de galinha” das últimas décadas. Ou seja, algo que seja perfeitamente compatível com os fundamentos macroeconômicos imprescindíveis ao crescimento sustentado, na forma como estão propostos na atual agenda das reformas.

Nesse sentido vale uma breve retrospectiva histórica de um período vivido em
meados dos anos 80, que ficou conhecido no seu todo como a “década
perdida”, mas que, no entanto, contou com uma fase favorável de crescimento, antes que a “marcha da insensatez” dos planos econômicos de combate à inflação sem ajuste fiscal levassem tudo a perder.

Foi no período 1984-86, depois de três anos de recessão causada pela necessidade de ajustes na esteira da crise da dívida externa, que a atividade econômica logrou manter crescimento médio de 7% ao ano. Um resultado significativo e que nos dias hoje parece até um sonho de uma noite de verão!

Como aquilo foi possível? O ano de 1983 havia sido muito sofrido em função dos ajustes patrocinados pelas condicionalidades exigidas pelo FMI para a recuperação do setor externo da nossa economia. E de fato não havia muita escolha naquela época. Nossas reservas cambiais chegaram rigorosamente a “zero”. A economia estava na UTI.

Foi naquele ano, porém, que o governo propôs uma estratégia de recuperação da economia apoiada em três pilares básicos:

  1. investimentos em energia, para superar os efeitos da crise do petróleo e estimular fontes alternativas, como o programa “Proálcool”;
  2. estímulos ao aumento da produção agropecuária, para aumento da oferta interna e das exportações; e
  3. políticas mais incisivas de aumento das exportações em geral, para maior oferta de divisas (recuperando nossas reservas cambiais) e maior impulso ao crescimento do PIB.

Os resultados foram expressivos. Embora o ajuste fiscal tivesse ficado prejudicado pelo fraco desempenho do acordo com o FMI após 1985, a economia experimentou crescimento de 5,4% em 1984, 7,8% em 1985 e 7,5% em 1986. Nesse último ano, é claro, ajudada pela euforia inicial com o congelamento dos preços no Plano Cruzado.

Muito colaboraram para os bons resultados do PIB as condições favoráveis do ciclo de crescimento da economia mundial naquele período, nomeadamente o forte crescimento dos preços das principais “commodities” produzidas e exportadas pelo Brasil.

Estamos, talvez, em condições semelhantes de nos beneficiar de uma estratégia de recuperação baseada nesse mesmo tripé:

  • energia – o provável efeito do “boom” de produção de petróleo com o pré-sal, novas descobertas recentes e o possível “choque de energia barata” com maior utilização do gás natural;
  • agricultura e exportações, tanto pelos efeitos de um ciclo favorável de cotações das nossas principais “commodities” como pelas possibilidades que podem surgir com a agenda da abertura da economia e os impulsos provenientes de mercados complementares ao Brasil, notadamente China e União Europeia, neste caso pela via de um acordo no âmbito do Mercosul, e possivelmente Japão.

Vejamos alguns fatos e dados recentes. Os preços das “commodities” exportadas pelo Brasil subiram 1,53% em abril, e 2,57% em março, segundo dados do Banco Central, com isso acumulando alta de 10,97% em 12 meses. No caso dos produtos agropecuários, o índice IC-Br indicou alta ainda mais elevada, de 14,34% em 12 meses. Já no grupo “petróleo, gás, carvão” as altas foram de 3,56% em abril, 3,24% no ano e 8,17% em 12 meses.

Nos últimos dois meses outro indicador, o índice Bloomberg de “commodities” agrícolas, cotadas em dólar, mostrou alta de quase 10%, embora no período mais longo (um ano) tenha sofrido depreciação.

Essa evolução recente reflete alguma pressão da demanda mundial por esses produtos (em grande parte pela China), que poderá beneficiar nossas exportações. Algo semelhante ao que ocorreu entre 1984-1986.

No setor de energia, os investimentos programados para a extração das reservas de petróleo do “pré-sal”, pela Petrobras e concessionárias privadas podem ter efeitos importantes nas regiões produtoras e efeitos induzidos na economia como um todo, até pelos efeitos multiplicadores dos investimentos. Há ainda a já citada possibilidade de um “choque de energia barata” pela maior utilização e pelo menor preço do gás natural.

A política de exportações talvez mereça um foco mais acurado. Depois de uma longa ausência de uma estratégia compreensiva de promoção de exportações, nos últimos meses o governo tem tido sucesso em finalizar os acordos comerciais do Mercosul com a União Europeia, o que abre amplas perspectivas para nossas exportações. Por outro lado, as iniciativas recentes de entendimentos com a China, nosso principal mercado externo, parecem finalmente oferecer boas perspectivas.

No que toca aos produtos minerais, matérias-primas em geral e produtos manufaturados, há também necessidade de maior apoio no sentido do aproveitamento das condições favoráveis que possam surgir, nomeadamente pelos órgãos de promoção comercial, para uma estratégia mais compreensiva e eficaz de médio e longo prazo.

Enfim, as sugestões apresentadas são no sentido de se formular uma linha de prioridades estratégicas em apoio aos esforços do setor privado, mas que sejam compatíveis, na verdade complementares, com o encaminhamento das reformas do Estado e da abertura da economia, visando uma retomada mais rápida dos níveis de atividade da economia.”

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