Buika: Síntese e Sinergias

Kathleen M. Vernon, no livro A Companion to Pedro Almodóvar (First Edition. Edited by Marvin D’Lugo and Kathleen M. Vernon. Blackwell Publishing Ltd. Published; 2013), narra: em 2010, Chavela Vargas e Buika foram escolhidas pela rede de rádio pública dos EUA, NPR, como duas cantoras entre as 50 Grandes Vozes do Mundo.

O site da NPR explica: “elas fizeram sua marca internacionalmente ao longo da história” (Blair 2010). O emparelhamento de Vargas com uma cantora cerca de cinquenta anos mais jovem, em uma lista diversificada [confira abaixo], que varia de Maria Callas e Nat King Cole para Celia Cruz e Youssou N’Dour (All 50 Great Voices A-Z), não é coincidência. O segmento do programa NPR dedicado a “Buika: The Voice of Freedom”, enfatizando as origens de sua voz distinta em sua singular história de vida, também destaca sua relação com Vargas, cimentada no CD da cantora mais jovem de 2009, El último trago, em grande parte dedicado a covers dos trabalhos de Vargas. Além da peça da NPR, outros artigos chamam a atenção para o papel de Vargas como mentora ou inspiradora.

Um artigo de 2010 no New York Times, por ocasião da turnê americana da cantora espanhola cita Vargas. Ela fala com aprovação de sua pretensa protegida: “Buika realmente se desenvolveu como cantora… Ela adicionou as influências do flamenco e outros gêneros para minhas músicas, mas a aspereza rouca em sua voz quando ela canta me lembra de mim mesmo” (Rohter 2010).

Além das afinidades musicais, Vargas, com sua sexualidade lésbica aberta e de sucesso em sua cultura adotiva outsider, oferece um ponto de referência para a Buika declaradamente bissexual e ultra “cosmopolita” (Byram; 2010) na projeção de um novo paradigma de sensibilidade musical latina global.

Apenas a terceira cantora a aparecer na tela como ela mesma, em um filme de Almodóvar, seguindo o duo Vargas e Veloso, Buika executa duas músicas em La piel que habito. Ambas aludem a sua trajetória de carreira, mostrando sua versatilidade, enquanto ancora um momento chave reunindo várias vertentes na trama. O cenário é um casamento na Galiza, com a presença do Dr. Ledgard, juntamente com a sua filha de vinte anos, Norma, ainda se recuperando anos depois dos efeitos da morte violenta de sua mãe.

O primeiro número da cantora é uma versão da Lara da canção ranchera, “Se me hizo fácil”, outra pedra de toque do repertório de Chavela Vargas, dado um remake up-tempo como um número de dança de jazz latino.

As letras originais com sua rejeição enfática de um amante feminino infiel (“Me hizo fácil / borrar de mi memoria / a esa mujer a quien yo amaba tanto” – foi fácil para mim / apagar da minha memória / aquela mulher que eu tanto amava) servir às imagens públicas de ambos os gêneros de Vargas e Buika. Elas incluíram esta versão em seu CD de 2009. Com sua coda de dança estendida, o desempenho da música traz os convidados do casamento a seus pés, proporcionando distração e cobertura para Norma sair para o jardim, onde ela será estuprada, ou quase estuprada, por Vicente (Jan Cornet), pondo assim em movimento o plano de Ledgard para a vingança cirúrgica.

Segue-se uma versão simples e sem adornos da música “Por el amor de amar” com acompanhamento solo de piano, ouvido pela última vez em português ao ser cantado pela criança Norma. Conforme relatado em flashback pela governanta Marília (Marisa Paredes), a mãe da menina pulou para a morte quando a canção, que a mãe tinha ensinou a sua filha em tempos passados, e mais felizes, despertou-a de um coma induzido por drogas para dormir enquanto se recuperava de queimaduras graves sofridas em um acidente de carro. Embora nenhum dos dois Ledgard nem Norma parecem reconhecer sua ligação com o passado, a música lembra o espectador da trágica história da família e nos alerta para a garota ainda estar frágil. Também faz referência à conexão brasileira do filme, desta vez em forma musical.

Semelhante ao caso de “Volver“, a música entrelaça genealogia familiar com histórias culturais mais amplas. Introduzido pela primeira vez no filme de 1961 Os Bandeirantes / The Pioneers, pelo diretor francês Marcel Camus, mais conhecido por Orfeu negro / Black Orfeu (1959), a canção, cantada por Ellen de Lima, tornou-se um sucesso na época. A versão de Buika preserva o lirismo infantil da melodia de menor importância. Com o seu melancólico tom introspectivo e afetado, parece uma escolha improvável para uma recepção de casamento e parece mais direcionada para os espectadores do que aos convidados na tela.

All 50 Great Voices: A-Z

Hear and read stories about each of the 50 vocalists profiled in our special series. You can also download the podcastexplore more than 100 nominations and find out more about the series.

Sezen Aksu: The Voice Of Istanbul

Biggie Smalls: The Voice That Influenced A Generation

Asha Bhosle: The Voice Of Bollywood And More

Bjork: A Celestial Voice

Dennis Brown: The ‘Crown Prince’ Of Reggae

Buika: The Voice Of Freedom

Montserrat Caballe: A Voice Of Passionate Grandeur

Maria Callas: Voice Of Perfect Imperfection

Enrico Caruso, And Confessions Of An Operaholic

Twinkie Clark: Riffing On Gospel

Radmilla Cody: Two Cultures, One Voice

Nat King Cole: An Incandescent Voice

Celia Cruz: The Voice From Havana

Camaron De La Isla: The Voice Of Flamenco

Sandy Denny: Mercurial Queen Of British Folk Rock

Placido Domingo: The Spellbinding Voice Of A Titan Tenor

Fairuz: Lebanon’s Voice Of Hope

Ella Fitzgerald: America’s First Lady Of Song

Carlos Gardel: Argentina’s Tango Maestro

Donny Hathaway: Neglected Heart Of Soul

The Many Voices Of Lauryn Hill

Billie Holiday: Emotional Power Through Song

Howlin’ Wolf: Booming Voice Of The Blues

Iggy Pop: The Voice As Weapon

Mahalia Jackson: Voice Of The Civil Rights Movement

George Jones: The Voice Of Heartbreak

Janis Joplin: The Queen Of Rock

Israel Kamakawiwo’ole: The Voice Of Hawaii

Khaled: The King Of Rai

Nusrat Fateh Ali Khan: The Voice Of Pakistan

Umm Kulthum: ‘The Lady’ Of Cairo

John McCormack: The Charming Irish Tenor

Lydia Mendoza: The First Lady Of Tejano

Freddie Mercury: Rock ‘N’ Roll’s Humble Showman

Meredith Monk: A Voice For All Time

Youssou N’Dour: The Voice Of Senegal

Roy Orbison: A Great Voice, A Lonely Sound

Robert Plant: Born In England; Made In America

Esma Redzepova: ‘Queen Of The Gypsies’

Dianne Reeves: A Jazz Voice With Pop Sensibilities

Elis Regina: The Feeling Between The Notes

Amalia Rodrigues: The Voice Of Extreme Expression

Yossele Rosenblatt: The Cantor With The Heavenly Voice

Mohammad Reza Shajarian: Protest Through Poetry

Irma Thomas: The Soul Queen Of New Orleans

Luther Vandross: The Velvet Voice

Chavela Vargas: The Voice Of Triumph

Kitty Wells: The Queen Of Country Music

Jackie Wilson: The Singer And The Showman

Ahmad Zahir: The Voice Of The Golden Years

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