Respostas Políticas às novas Formas de Trabalho com Desemprego Tecnológico

Ana Conceição (Valor, 25/07/19) informa: enquanto a tecnologia cria novas relações de trabalho, muitas vezes informais, e ameaça deixar muita gente sem emprego, alguns países começam a avaliar que tipo de política pública pode ser adotada para realocar trabalhadores ou simplesmente proporcionar uma renda mais estável à população. As ideias vão da adoção de uma renda mínima à extensão de benefícios sociais para quem não tem emprego formal. No Brasil, onde já existe uma espécie de renda básica, especialistas apontam para a necessidade de mudanças no sistema de ensino de jovens e requalificação de adultos.

Recentemente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) enviou questionários aos países que fazem parte do grupo perguntando que medidas estão sendo estudadas ou implementadas, tendo em vista o avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho e as mudanças demográficas. As respostas foram reunidas no relatório “Respostas Políticas às novas Formas de Trabalho“, lançado neste ano. Segundo a OCDE, medidas de proteção social têm de ser adaptadas à nova ordem, especialmente porque o trabalho por conta própria, em tempo parcial e intermitente está aumentando no mundo. Além disso, muitos adultos no bloco – 6 em cada 10 – não têm as habilidades tecnológicas necessárias para esse novo mercado.

As medidas mais comuns citadas são a extensão do seguro-desemprego a trabalhadores por conta própria e informais, a melhora no acesso de intermitentes e autônomos a benefícios, como auxílio-maternidade e seguro saúde. Em um dos casos, na Estônia, foi citada a implantação de um sistema de saúde universal, como o SUS brasileiro. Projetos de renda básica são escassos e a maioria se limita a regiões específicas e não a países. O caso mais rumoroso, o da Finlândia, foi deixado de lado após dois anos de testes. Mas essa iniciativa tem defensores ilustres como Elon Musk, CEO da Tesla, e o prêmio Nobel de Economia Angus Deaton.

Esse tipo de programa pode diminuir os impactos sociais e econômicos da diminuição drástica de postos de trabalho, com recursos vindo, por exemplo, da tributação da automatização nas empresas, afirma Herbert Kimura, pesquisador do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), da UnB. Mas como o impacto real da automação ainda é uma incógnita, é difícil avaliar se de fato as iniciativas de políticas públicas serão efetivas no médio e longo prazo. “Os governos têm de realmente colocar como prioritária a discussão da automação, dados os impactos sociais desconhecidos que, no entanto, podem ser profundos”, afirma Kimura.

Nem todo mundo vai ser aproveitado pelo mercado de trabalho, em especial os trabalhadores mais velhos. Neste caso, é preciso haver políticas como a renda mínima, afirma o economista Sergio Firpo, professor titular do Insper especialista em mercado de trabalho. Ele pondera, contudo, que se um projeto de requalificação de trabalhadores for colocado em prática, talvez o impacto do desemprego não seja tão alto. “Parte dessa mão de obra seria realocada em outras atividades”, diz.

Investir na educação de crianças e jovens é outro caminho. Como a tecnologia muda tudo muito rapidamente, os trabalhadores terão de ser eternos aprendizes e adaptar suas habilidades ao longo do tempo para manterem-se no mercado. Assim, sem planejamento educacional de médio e longo prazos, o Brasil ficará ainda mais atrasado na corrida tecnológica, diz Kimura, do Lamfo/UnB, para quem a defasagem entre a formação escolar e a demanda de mercado só tem aumentado. O debate sobre o papel das escolas nesse novo ambiente de automação é fundamental, afirma o pesquisador. Para alguns especialistas, no futuro, as profissões vão aparecer e serem eliminadas em pouco tempo. E se não dá para prever quais serão as profissões importantes daqui a 30 anos, a solução é a qualificação contínua.

Em artigo com o sugestivo título “Robocalypse Now”, David Autor, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e Anna Salomons, Universidade de Utrecht (Holanda), mostram que o aumento da produtividade proporcionada pelos avanços tecnológicos, entre outros fatores, contribuiu para um aumento do emprego na economia em geral, ainda que em alguns setores (a indústria, sobretudo) o emprego tenha caído em 19 países analisados (todos ricos). Mas a mudança favoreceu em sua maior parte trabalhadores mais qualificados. “O principal desafio social apresentado até agora pelo avanço tecnológico sobre o mercado de trabalho não é a queda na demanda agregada por mão de obra, mas sim uma distribuição cada vez mais distorcida dos empregos, e em uma análise, da renda, favorecendo os trabalhadores mais qualificados”, afirmam.

Para o economista Paulo Gala, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), enquanto essa equação educação-mercado não é resolvida, ao menos no Brasil a mão de obra deve ser realocada principalmente em trabalho precário criado pela própria tecnologia, como motoristas e entregadores de aplicativos. Em países mais desenvolvidos, parte dessa mão de obra vai para serviços de alta tecnologia.

“Sempre vai existir serviços de baixa tecnologia, como turismo, que emprega bastante gente. Metade da população vai estar empregada nisso, não tem como fugir. A diferença é onde está a outra metade. Se está em serviços com muita escala, muita produtividade, ou em funções precárias”. Dá para criar emprego na indústria em tempos de inteligência artificial, desde que o tecido industrial seja dinâmico, caso da Alemanha, Japão ou Coreia do Sul. No Brasil, a indústria, em especial a de alta tecnologia, está encolhendo.

Na visão de Paulo Feldmann, da FEA-USP, o Brasil deveria explorar seu grande potencial de biodiversidade para gerar emprego e tecnologia. “O século 21 é o da genética, das ciências da vida. Essa pode ser a nossa vocação. Temos um quarto da biodiversidade do mundo e poderíamos ter uma política industrial voltada para isso”, diz.

Outra frente seria estimular o empreendedorismo. “Precisamos estimular a pequena empresa. É a única forma de absorver os milhões de desempregados que estão aí e os que virão”. Políticas tributárias como o Simples, contudo, vão na contramão do estímulo necessário, diz.

Se ainda há muita dúvida sobre o trabalho no futuro, é normal que indivíduos se questionem sobre o que será de suas carreiras. É possível se planejar para um futuro que, pelo ritmo acelerado de mudanças, poucos conseguem visualizar? Para especialistas, pensar a carreira nesse contexto vai exigir buscar novos meios de aprender e, acima de tudo, a disposição para se atualizar sempre.

Para Samantha Mazzero, vice-coordenadora do MBA internacional da Fundação Instituto de Administração, instituições formais como escolas e universidades terão dificuldade para formar profissionais com a rapidez que o mercado demanda. Ela aposta no crescimento dos “nanodegrees”, cursos curtos, no geral oferecidos on-line e com foco prático, que certificam profissionais em habilidades pontuais como linguagens de programação. Ela prevê também que as empresas terão um papel importante de treinar funcionários com mais frequência. “O profissional do futuro é aquele com capacidade de adaptação e pré-disposição de aprendizado.”

Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, acredita que o mais importante em um futuro no qual novas profissões são imprevisíveis será a capacidade de aprender a aprender. “Isso é fundamental, e a universidade não ensina o jovem a fazer isso”, diz. Ele defende que profissionais devem ter formações mais generalistas, para que estejam capacitados a atuar em qualquer área e consigam entender um pouco de tudo.

De qualquer forma, especialistas concordam que o trabalho deve se tornar mais multidisciplinar e exigir colaboração entre diferentes áreas. Como os grandes escândalos de uso de dados e influência política do Facebook mostraram, a tecnologia cria problemas que infiltram em diversas áreas da sociedade e que não podem ser resolvidos apenas com conhecimentos técnicos. O professor da Fundação Dom Cabral, Hugo Tadeu, destaca que o futuro já caminha para uma aproximação maior entre as áreas técnicas e as ciências humanas. “As escolas lá fora já começam a avançar em um modelo que vincula os cursos de exatas com as artes, porque esse é justamente o campo em que a máquina não vai entrar”, diz.

Tudo começa por saber que a formação e a experiência podem não ser suficientes daqui para frente, segundo a professora do Insper, Leni Hidalgo. “Por mais que seu passado seja bacana, não dá para se fiar nele como recurso de avanço”, afirma. Ela destaca que é preciso se informar constantemente de movimentos de mercado e da sociedade e ter capacidade crítica para filtrar o que será importante na sua construção de carreira. No Insper, ela diz que o tema “pensamento crítico” está sendo inserido em todos os programas de educação executiva, para dar mais insumo para que os profissionais sejam capazes de tomar decisões em meio ao excesso de informações e dados disponíveis.

A segunda recomendação que Leni dá é a conexão com profissionais de diferentes áreas, que possam ajudar nesse entendimento de mudanças e de campos que não são do seu domínio. Nas suas palavras, ser “um expert que circula”. “Esse não é mais um mundo em que uma pessoa consegue se fixar com uma expertise individual. Você precisa ser bom em articular a sua rede de relacionamentos.”

Em 2017, após passar por cargos no Brasil e nos EUA na Fundação Estudar, na AB InBev e na Dow Jones, a americana Elatia Abate resolveu sair do mundo corporativo. Colocou todos os seus pertences em uma mala pequena e saiu viajando por EUA, Canadá e Reino Unido durante dois anos, conversando com profissionais da área de desenvolvimento de tecnologias e gestores de mudanças. Ela queria entender como seria trabalhar no futuro, e sabia que a incerteza seria elemento central desse cenário.

Hoje Elatia vive nos EUA, onde é sócia, vice-presidente e “futurista residente” na consultoria de recrutamento Fesa. Otimista com as mudanças que virão, ela diz que pensar a carreira exigirá abordar a própria trajetória como um cientista, disposto a testar coisas novas e a não apostar em um só alvo. “O mundo está mudando de um cenário em que você tem que saber a resposta para um onde é preciso ser resiliente e ninguém sabe nada”, afirma.

Valor: As tendências do mercado de trabalho que a senhora identificou viajando diferem muito de um lugar para o outro? O que há em comum e o que há de mais diferente?

Elatia Abate Tanto pessoas quanto empresas vão precisar de três pilares principais. O primeiro é a mentalidade, o jeito de a gente pensar e o modo de enxergar o que está acontecendo. Eu faço a distinção entre ser cativo das circunstâncias e ser capitão do próprio destino. O segundo é a educação, o que inclui aprender os princípios de empreendedorismo, entender quais indústrias vão ser impactadas primeiro e saber que o aprendizado vai ter que ser contínuo pela vida inteira. O terceiro é a colaboração, tanto em nível de mercado quanto individual. Isso não muda independentemente do lugar onde estamos. Mas vejo que, para países desenvolvidos, a sensação de perda é maior. Em países em desenvolvimento há muito mais oportunidade e é possível pular algumas etapas para as pessoas se inserirem melhor no mercado.

Valor: Hoje em países como o Brasil o nível de desemprego está muito alto, mas mesmo assim é difícil encontrar profissionais com formação e experiência em algumas áreas. A tendência é essa discrepância se intensificar?

Elatia: O que está acontecendo é a mesma dinâmica das outras revoluções industriais. Quando chega uma nova tecnologia, um monte de gente perde trabalho, nós passamos alguns anos com as pessoas se reeducando e se recolocando no mercado, e de forma geral a produtividade da sociedade aumenta. Essa mesma dinâmica está acontecendo agora, mas com uma velocidade exponencial, enquanto a recolocação ainda está acontecendo de forma linear. A conta não está fechando. Eu acho que líderes, com acesso a oportunidades e capital, junto com governos e ONGs, estão recebendo um convite para trabalhar juntos do jeito que o mundo precisa. O impacto negativo social de não fazer isso seria muito grande. Em vez de deixar essas pessoas para trás, vamos ter que criar soluções para realocá-las mais rapidamente. O empreendedorismo é importante, para as pessoas poderem trabalhar como freelancer e vender suas habilidades no mercado. Há escolas de habilidades técnicas onde você pode chegar ao mercado mais rapidamente. Em algumas áreas, muitas empresas não requerem mais diploma universitário, você só precisa passar por testes de aptidão.

Valor: Isso já acontece no Brasil?

Elatia: Em algum momento vai chegar aqui. Eu sempre recebo a provocação de líderes daqui que dizem que nos EUA e na Inglaterra algo vai funcionar, mas aqui não. E eu não acredito nisso.

Valor: É possível se planejar para o futuro do trabalho?

Elatia: A grande ilusão é que quando a gente planeja alguma coisa ela fica igual para sempre. Nunca foi e nunca será assim. A distinção que eu faço é entre pensar a carreira como um atirador ou como um cientista. Quando você tem uma bala e um alvo, se não acertar o alvo, a missão acabou. Por isso muita gente sente pressão, e mesmo quando está em busca da sua paixão, está super estressado. Mas se você pensar como um cientista, isso quer dizer que você faz o trabalho, com um time de outros cientistas, e até pode ter suas hipóteses. Mas uma vez que começa, está só coletando dados. Na carreira, você escolhe um caminho e, se descobrir que não era bem isso, pode guardar as partes de que gosta e cortar outras. O mundo está mudando de um cenário em que você tem de saber a resposta para um onde é preciso ser resiliente e ninguém sabe nada. Seguindo essa curiosidade, você acaba com uma vida mais prazerosa.

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