Cartelização, Trustificação e Monopolização do Capitalismo Norte-americano

O livro intitulado “História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI” (São Paulo: Contexto, 2007) é de coautoria de Leandro Karnal, Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais. Eles argumentam as depressões econômicas terem acabado, curiosamente, por consolidar o poderio das grandes empresas e corporações, expondo as desvantagens da competição acirrada praticada. Entre 1869 e 1898, estima-se em cerca de 13% da renda nacional ter sido aplicada na expansão da indústria. Esse grande investimento de capital espelha a ascensão dos bancos de investimento, centralizados em Wall Street, Nova York.

Surgiam as grandes corporações. Elas caminhavam sempre no mesmo sentido: o do monopólio. Para sustentar essa industrialização crescendo mais além da demanda por bens de consumo ou por serviços ferroviários, os industriais tinham altos custos. Em busca de rentabilidade, alguns desses homens de negócio fecharam “acordos de cavalheiros”

Esses levaram, pouco adiante, à formação de cartéis, com o intuito de limitar a concorrência e dividir os lucros. Esses acordos iniciais eram sempre pontuais. Com o tempo, muitos se formalizaram, gerando crescimento gigante em algumas indústrias.

Esse crescimento podia ser horizontal, na tentativa de monopolizar um único produto, comprando e tirando do negócio empresas concorrentes; ou vertical, unindo empresas correlatas, em vários níveis da produção e distribuição de produtos.

Exemplo disso foi John D. Rockfeller e seus sócios. Eles construíram o primeiro truste, em 1882, quando os acionistas das maiores refinarias da nação abandonaram a forma de cartel e trocaram suas ações com direito a voto por certificados da Standard Oil Trust. Com isso, a administração de cerca de 90% da capacidade de refino da indústria ficou nas mãos de um único conselho. Enorme em termos horizontais, a Standard Oil passou à integração vertical, unindo setores da perfuração de poços à fábrica de barris e oleodutos: era o virtual monopólio dos mercados internos e externos. Até sua dissolução nos termos da Lei Antitruste Sherman (1890), a Standard Oil dominou a indústria nos Estados Unidos e em grande parte do mundo.

Nas indústrias mais utilizadoras de tecnologia, onde se procurava otimizar custos de produção, as fusões prevaleceram. Fosse através de trustes, de companhias de controle (holding companies) ou de criação de empresas gigantes, a consolidação industrial expandiu-se rapidamente: entre 1888 e 1905, foram formados 328 conglomerados ou empresas consolidadas. Mesmo com essa tendência no mercado industrial norte-americano, em algumas áreas, a concorrência não desapareceu, notadamente naquelas que mais se valiam de mão-de-obra e baixa tecnologia, como as de mobiliário, alimentos e vestuário.

Esse tipo de capitalismo, o monopolista, marcou o fim do outro, o altamente competitivo, e deu início à chamada “liderança de preços” (espécie de acordo informal entre membros de um setor da indústria para seguir preços previamente estabelecidos). Fugindo da vigilância federal antitruste e satisfeitas com os lucros garantidos por preços tacitamente aceitos, a competição se dava em publicidade e design, levando incontáveis pequenas empresas à falência e concentrando riquezas de maneira inédita.

Mesmo assim, os Estados Unidos viveram um período de euforia industrial. Ela louvava o próprio crescimento, capaz de “integrar o país” e torná-lo competitivo diante das maiores nações industrializadas da Europa. Em 1900, por exemplo, os estadunidenses produziam tanto aço quanto Inglaterra e Alemanha juntas, além de dominarem a outrora sem importância indústria do petróleo.

Em termos populacionais, em 1890, havia 26 cidades com mais de cem mil habitantes. Em 1900, seis dessas cidades haviam ultrapassado a marca do milhão.

Esse quadro de otimismo ajudava a propaganda norte-americana no exterior, mas a distribuição da riqueza era muito desigual. A mesma cidade atraía imigrantes em busca de oportunidades, iluminação incandescente, telefone, saneamento e bondes, acabava oferecendo-lhes trabalho mal remunerado e péssimas condições de vida.

Essa nova maneira de viver, a de grandes cidades, tinha um caráter dúbio para os valores tradicionais norte-americanos: ao mesmo tempo enquanto se louvavam as promessas materiais de uma economia industrial madura, temiam-se as desigualdades profundas geradas pela monopolização.

Competiam a profunda crença nos direitos da propriedade. Esta ideologia se aliava aos influentes interesses da indústria, e a também enorme crença na livre concorrência e nas oportunidades da “Terra da liberdade”. Esses interesses pediam uma regulamentação ao poder monopolista.

Na segunda corrente, a tradição de valorizar o individualismo competitivo, acreditavam os intelectuais os assuntos humanos serem governados por leis naturais imutáveis: o bem geral era mais bem servido com a busca da satisfação dos interesses individuais. O eventual sofrimento social causado seria infinitamente inferior às recompensas trazidas àqueles laboriosos espíritos independentes, que, por meio do trabalho, atingiam a plenitude econômica.

A pobreza era quase sempre vista como castigo advindo aos indolentes. Logo, acreditava-se ser imoral que o Estado ou qualquer organização privada interviesse nos assuntos econômicos. Alguns religiosos protestantes, influenciados pela ética calvinista de realização e responsabilidade individuais, justificavam essa concorrência com argumentos éticos e religiosos: “A santidade é aliada da riqueza”, comentou a autoridade episcopal de Massachusetts à época.

Inicialmente chocado com a Teoria da Evolução, o puritanismo norte-americano acabou, pelo mesmo motivo, aceitando o darwinismo social. Segundo o filósofo inglês Herbert Spencer e seu discípulo norte-americano, William Graham Sumner, a luta sem controle pela existência era o meio através do qual a “raça humana” alcançara seu alto desenvolvimento. As ações sociais ou estatais incentivariam os desajustados, contendo os fortes e retardando o progresso: era a confirmação “científica” dos valores do individualismo competitivo.

Mas nem todos os norte-americanos concordavam com o darwinismo social, embora, até a década de 1890, esse modo de pensar estivesse em ascensão. Havia muitos e influentes críticos do laissez-faire. Eles não eram, nem remotamente, defensores dos industriais monopolistas. Os de inspiração marxista, como Daniel De Leon, do Partido Socialista Trabalhista, e Eugene V. Debs, do Partido Socialista da América, ou ainda Edward Bellamy, queriam o fim da concorrência e da propriedade privada, pregando uma nova ordem socialista de cooperação e coletivismo.

O teórico social mais influente do fim do XIX, Henry George, autor de Progress and Poverty (Progresso e pobreza) (1879), era voraz crítico do monopólio da terra, ao qual atribuía todos os males sociais. A solução capaz de reduzir o contraste entre “a Casa da Abundância e a Casa da Carência”, propunha George, poderia ser a criação de um imposto único, confiscatório, sobre esse “incremento imerecido”. O ataque de George ao laissez-faire contribuiu para que se fizesse um exame mais crítico dos problemas sociais da nação.

Mesmo assim, a crença de senso comum era a de que os “capitães da indústria” norte-americana compunham uma camada social admirável de “self-made men”. Uma pequena análise biográfica desses personagens revela, todavia, que as histórias de sucesso individual não estão tão comumente atreladas a imigrantes pobres ou garotos que cresceram em fazendas, mas a gente que emergira em circunstâncias vantajosas. Em pleno século XIX, época de grande louvor à industrialização, críticos, como o poeta Walt Whitman, escreviam sobre a “depravação das classes empresariais”.

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