Mas quem é, hem? (a partir de Leandro Karnal)

Para quem idealiza o mito como um gênio do mal, é preciso dizer: se o mal é bem empregado no caso, gênio é um equívoco. Não cabe dizer: “Ele é um miliciano, mas é brilhante”. Mesmo as biografias apologéticas já indicam: não se pode sustentar a tese da inteligência do capitão reformado.

De forma ainda mais contundente é possível derrubar, tijolo por tijolo, a imagem de estrategista político poderoso ou brilhante. É homem medíocre, limitado em todos os sentidos, com uma visão de mundo na qual sua tacanhice faz par com seus ódios.

Ele é tão banal a ponto de ficar o incômodo de como alguém assim chegou ao ponto de ameaçar de genocídio a ecologia amazônica e, junto, os nativos remanescentes. Talvez o segredo de sua popularidade vulgar seja este: ele entende o brasileiro comum por ser um homem comum. Usa (e é abusado por) a cultura brega tipo Bahamas, Havan, Record, SBT, casta dos sabidos-pastores…

Como alguém tão estúpido chega ao poder? Oh, brasileiros, oh, cidadãos da minha terra amada: vocês têm certeza de desejar lhes fazerem esse questionamento? Por que o presidente seria diferente de nós?

A biografia de seus paus-mandados também revela dados curiosos. Como um doutor em Economia pela renomada Escola de Chicago, imaginávamos o verdadeiro gênio do mal ser ele – e não o seu chefe militar idolatrado. A prática destrói esse autoengano. Homem frágil, cheio de limitações e devotado como um cão ao capitão.

O ideólogo oficial do regime, nomeado a um carguinho sob promessa de carreira rápida até o topo da Justiça, não foge a essa regra. Ele era filiado ao partido nacional-moralista, anticorrupção caso os “delatados-delatores-premiados” não premiasse a si e aos seus procuradores com palestras. Ler a obra principal dele, publicada por The Intercept, O mito anticorrupção desmascarado por hackers, é constrangedor, embora tenha sido um ovo-de-serpente.

A força do tribunal da República de Curitiba não prendeu nenhum negociante de delação sob encomenda. A banalidade do mal, conceito de Hannah Arendt, serviria para mais gente além dele. Os adoradores do mito não são apenas comuns, também são medíocres.

Talvez esteja nessa mediocridade a vitalidade e a eficácia do sistema neofascista brasileiro. Explorar medos coletivos, dirigir violências contra grupos em meio a histerias sociais, aproveitar-se de crises para assustar a muitos com estigmas, usar propaganda sistemática e fazer da violência um método exaltado é uma estratégia perene dos extremistas de direita.

Infelizmente, não se encerrou com o fim do regime nazista e nem precisa de brilhantismo. São recursos fáceis, adotados na maioria dos momentos históricos, em especial os de crise mundial.

A mediocridade é uma das molas da história e um esteio da violência. Ao final da experiência de criminalização a torto e a direito, 12 milhões de desempregos desapareceram. Ao lado do racismo contra nativos, outras vítimas como testemunhas contra milicianos, cultos afros, cultura artística, militantes petistas, homossexuais, professores e pesquisadores encontram a morte social. A mediocridade não pode ser considerada inofensiva.

Sempre assusta a democracia de massas compartilhar com as ditaduras a necessidade do espetáculo midiático-mitológico. A produção de um acordo de modo a possibilitar ao potencial ditador ou mesmo a um deputado medíocre do baixo-clero o exercício do poder é algo estranhamente essencial a um sistema ou ao outro.

Manifestações de rua em cenografia verde-e-amarela, guardados certos parâmetros em termos de exposição de armas, aproximam-se das apoteoses militares-nacionalistas.

Da mesma forma, a propaganda política mitológica nos seduz/adestra/omite sobre os candidatos a cargos de responsabilidade e exigentes de compostura diplomática. São, muitas vezes, seguidoras da ideia de uma mentira repetida mil vezes.

Democracia é melhor em lugar de ditadura. Na ditadura, o corpo da liberdade e dos direitos fundamentais é assassinado. Na democracia, ele é chicoteado e insultado, mas sobrevive. Na ditadura, a chama da liberdade é apagada; na democracia, ela bruxuleia.

Os dois continentes, o da liberdade e o do fascismo, poderiam ser mais distantes. A sedução de um psicopata imbecil como fosse mito talvez indique, além de muitas pontes, os dois mundos terem fluxo migratório acima do desejado.

Fonte inspiradora deste post: Leandro Karnal. Os medíocres fascistas e democratas. in “Diálogo de Culturas”.

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