Trustes de “Dinheiro Sem Carimbo”

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), conta: muitas das críticas mais pungentes não vieram de economistas, mas de ativistas sociais. Eles viram as grandes disparidades criadas pela tendência de fusão na sociedade americana. Em termos marxistas clássicos, os ricos estavam ficando mais ricos enquanto a classe trabalhadora realmente estava perdendo poder aquisitivo. Isso contrastava fortemente com a noção popular de o período antecedente à guerra até o final da década de 1920 ter sido um dos bons tempos de prosperidade para todos.

Outras críticas sobre a extensão da fusão de empresas industriais puderam ser ouvidas de diversos quadrantes, desde grupos de investidores a Woodrow Wilson. Os investidores estavam preocupados com a concentração do poder das holdings sufocar novos investimentos. Já o presidente Wilson observou: “Nenhum país pode se dar ao luxo de ter sua prosperidade originada por uma pequena classe controladora… Todo país é renovado fora das fileiras dos desconhecidos, não fora das fileiras dos já famosos e poderosos no controle”.

Depois de adquirir poder monopolista, as grandes empresas deixam de estar interessadas em inovação ou novos produtos. Elas estavam simplesmente felizes em sentar e cobrar as receitas existentes por direito. Wilson concluiu observando: “Eu não estou dizendo toda invenção ter interrompida pelo crescimento de relações de trustes, mas acho perfeitamente claro a invenção em muitos campos ter sido desencorajada”.

A indústria americana estava passando por uma de suas primeiras fases de consolidação. A tendência à centralização e concentração de capital claramente preocupou muitos. Críticos destacavam o crescimento ter sido frustrado em favor de transações em papel, destinadas simplesmente a tornar banqueiros e financiadores mais ricos.

Os fundos industriais, ou holdings, possuíam vastas participações acionárias de cartelização. Claramente, poderiam ser contestados por violar a Lei Sherman Anti-Trust.

A United States Steel Corporation, por exemplo, era um amálgama de 228 empresas menores espalhadas por mais de uma dúzia de estados. The General Electric era uma empresa controladora, direta ou indiretamente, de uma ampla gama de empresas de água e luz em todo o país. Ao controlar a água, a empresa também efetivamente controlava muita produção de energia elétrica e todos as receitas acessórias.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o U.S. Commissioner of Corporations temia todas as empresas de água do país poderem, na verdade, cair em propriedade única. As implicações de tal evento foram ainda mais impressionantes, considerando essas vastas explorações industriais terem sido controladas diretamente ou terem serviços bancários prestados pelo dinheiro de trustes, especialmente, pelo J. P. Morgan & Company.

O poder de industriais e banqueiros foi objeto de discussões acaloradas e escrutínio no final do século XIX, culminando com a aprovação da Lei Sherman Anti-Trust em 1890. A tentativa de proibir cartéis e monopólios capazes de restringir o comércio e a concorrência, o Ato Sherman ainda não conseguiu lidar com alguns dos dispositivos mais sutis usados para dominar certas indústrias.

Uma era a posição central assumida pelos banqueiros no cenário industrial americano. Isso foi realizado com assento nos Conselhos de Administração de muitas empresas – algumas dos mesmos tipos de indústrias – ou nos conselhos de empresas clientes. Uma das principais funções dos banqueiros era sentar-se no maior número possível de CAs: uma influência desproporcional à importância real dos próprios bancos.

Supunha-se, há muito tempo, os negócios e a indústria americanos desenvolverem-se mais rapidamente e exercerem mais poder se comparados ao do governo federal, pelo menos até a Grande Depressão de 1929. Isso era confirmado por um exame do setor bancário em geral. Sujeito ao regulamento de seus estados de origem, a maioria dos bancos com o título “nacional” não era bem regulamentado pelo governo federal.

Até 1913, o país não tinha um Banco Central, por conta de duas tentativas derrotadas pelo populismo e pelo federalismo. Logo, os maiores bancos comerciais de Nova York foram acostumados a ter as coisas à sua maneira, na ausência de uma Autoridade Monetária responsável pela supervisão da criação de dinheiro e crédito por eles.

O relacionamento com os trustes industriais se estendeu indiretamente à própria Wall Street. Quando muitas dessas novas e vastas corporações foram formadas, elas certamente precisavam vender ações para ajudar a financiar novos negócios de fusões e aquisições. As casas bancárias estavam prontas para negociar, inclusive por terem dirigidos negócios, indiretamente, por meio de um de seus parceiros com assento no Conselho de Administração da empresa.

Dessa maneira, os bancos dominaram os mercados monetários e o mercado de crédito em geral. Quando a proposta para estabelecer o Federal Reserve ganhou força, o problema do poder dos banqueiros emergiu rapidamente como uma questão controversa. Essa preocupação levou a uma audiência no Congresso. Ela se tornou uma das mais populares e reveladoras dos eventos na América pré-guerra: as audições do comitê Pujo de 1912.

Charles R. Geisset, em seu livro Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 (e reeditado em 2004), detalham as audições do comitê, convocadas pelo congressista Charles Lindbergh de Minnesota e nomeado após Arsene Pujo, democrata da Louisiana. Elas foram digno de nota pelo aparecimento de J. P. Morgan (Pierpont), entre outros, chamados a testemunhar sobre a trustificação do dinheiro [The Money Trust].

Embora certamente não fosse conhecido na época, ele se tornaria um dos dois testemunhos mais bem divulgados dados por um Morgan, no século XX. Ambos se tornaram igualmente famosos por revelar a quantidade de poder corporativo exercido pelos banqueiros.

O inquisidor-chefe de Morgan nas audiências era o principal advogado do comitê, Samuel Untermyer, advogado de Nova York.  Ele tinha pouca experiência em ver os banqueiros como um grupo. Assim, Morgan manteve a linha tradicional de defesa do número extraordinário de diretorias dele, seus parceiros e outros banqueiros como George Baker conseguiram manter, especialmente, naquelas indústrias vitais para o bem-estar nacional.

Transportar carvão, onde muitas empresas de serviços públicos tinham interesse, tanto como usuário, quanto como produtor, as inúmeras ferrovias pertencentes ao mesmo truste, esses eram apenas poucos de dezenas de exemplos trazidos pelo comitê.

Morgan negou enfaticamente ele e outros grandes banqueiros já terem controlados ou desejarem controlar setores da economia americana. Ele afirmou isso com naturalidade, embora tenha sido bem documentado ele pessoalmente ter controlado até cinquenta mil milhas de linhas ferroviárias nos anos imediatamente antes das audiências, como claramente revelado. Cinismo é uma marca da casta dos mercadores.

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