Fuga para Dólar e Imóveis… por enquanto, em Buenos Aires

Marina Guimarães (Valor, 23/09/2019) informa: no país onde as transações imobiliárias são feitas em dólar e os salários são em pesos maxidesvalorizados, o sonho de ter a casa própria virou um pesadelo. Mais de 170 mil famílias argentinas correm o risco de perder seus imóveis hipotecados, por causa da disparada do dólar e da inflação.

Com isso, o mercado imobiliário argentino vive um dos seus piores momentos. Em junho, ainda antes da forte desvalorização de agosto, houve queda de 41,3% no registro de escrituras de compra e venda de imóveis em Buenos Aires, em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo o Colégio de Escrivães da capital argentina.

A dicotomia desse mercado vem passando de um governo para outro como uma herança maldita. da qual nenhum presidente conseguiu se livrar nas últimas quatro décadas. As primeiras propriedades foram dolarizadas em 1975, quando ocorreu uma das maiores desvalorizações da história do peso, e o dólar passou a ser a unidade de valor. Era uma maneira de preservar o patrimônio e não ter de ficar atualizando o valor em moeda nacional constantemente.

Naquele ano, a Argentina teve o seu primeiro grande ajuste econômico, com uma desvalorização de 100% do peso em relação ao dólar. O plano econômico, conhecido como “El Rodrigazo”, em referência ao então ministro de Economia Celestino Rodrigo, no governo de Isabelita Perón (1974-1976), fracassou e a inflação subiu 183% seis meses depois.

Embora a onda de dolarização dos imóveis venha dessa época, o registro de amor dos argentinos pela moeda americana é mais antigo e começou em 1931, segundo o livro “El dólar – História de una moneda argentina, 1930- 2019”, lançado recentemente.

Os pesquisadores Mariana Luzzi e Ariel Wilkis relatam: em 1931, o então presidente José Félix Uriburu adotou os primeiros controles cambiais, para enfrentar a crise mundial no fim da década de 20, momento em que a entrada de divisas provenientes das vendas externas de carne e grãos já não era suficiente para a economia.

Na ausência de uma moeda forte, os argentinos começaram a se apropriar do dólar como um bote salva-vidas de bolso. Essa constante foi naturalizada, como se o país pudesse imprimir dólares. “É extremamente difícil explicar esse comportamento para quem não está acostumado a viver com inflação permanentemente alta, mas é a maneira que encontramos para resguardar o valor de nossas poupanças”, completou Rozados.

Em vez de guardar o dinheiro em poupança ou fazer algum tipo de aplicação, a primeira opção dos argentinos é comprar dólares. A segunda é juntar o suficiente para comprar um imóvel, em dólar, para morar ou ter renda de aluguel.

Mas, em momentos de crise e desvalorização, como agora, a renda em peso não permite mais pagar os preços pedidos em dólar.

Mas o movimento do mercado imobiliário caiu tanto quanto a economia, e o setor estima que o seguirá a curva descendente pelo resto do ano. “Estamos no mesmo patamar que em junho de 2013 e nos últimos anos do governo de Cristina Kirchner [com forte controle de cambio] e em níveis similares ao de 2002 [ano de crise]. Em junho passado, as vendas não chegaram a 3.000 imóveis”, disse Néstor Marcos, consultor imobiliário da ReMax. Num mês normal, as vendas chegam a 6 mil unidades.

Marcos e Rozados concordam: o mercado deverá ficar assim até um novo plano do governo a ser eleito começar a reverter as desconfianças, e a situação melhore no bolso da população.

Hoje, os imóveis mais vendidas para a classe média custam em média US$ 150 mil. Segundo levantamento da Reporte Imobiliário, o preço médio do metro quadrado no bairro mais valorizado de Buenos Aires, Puerto Madero, passou de US$ 1.900, em 2001, para US$ 4.950 hoje. No bairro de classe média de Almagro, o metro quadrado saltou de US$ 930 para US$ 2.280.

Nesta semana, o Banco Central autorizou a compra de até U$S 100 mil pela taxa de cambio oficial para pessoas que já possuem um crédito hipotecário aprovado para aquisição do primeiro imóvel na cidade de Buenos Aires.

Essa medida tem muito baixo impacto no mercado porque a compra com créditos hipotecários representa hoje somente 5% do movimento.

Nos dois primeiros anos do governo do presidente Mauricio Macri, houve um boom de crédito imobiliário corrigido pela inflação e com baixas taxas de juros. Elas facilitaram o acesso dos assalariados à casa própria.

Mas esse crédito hoje virou um problema. Com a disparada da inflação, as parcelas e o valor dos financiamentos subiram vertiginosamente. “Quando tomamos o empréstimo, acreditávamos que o governo conseguiria baixar a inflação, pois essa era a principal promessa de campanha”, reclamou a funcionária pública Marcela Rojas, de 47 anos. Ela lidera o movimento Coletivo Hipotecados UVA.

Havia a expectativa de o plano econômico equilibrar a economia, o que deu confiança para tomar o empréstimo e realizar o sonho da casa própria. Mas a expectativa não se realizou, e as famílias agora começam a receber intimação dos bancos para pagar os seus financiamentos.

Em 2017, Marcela tomou empréstimo com vencimento em 20 anos no valor de 2 milhões de pesos. Hoje, ela deve 4 milhões de pesos. A prestação inicial era de 15 mil pesos por mês, mas já saltou para 30 mil. “Os créditos são ajustados de maneira ininterrupta porque a inflação não deixou de subir, e ninguém pensava que isso pudesse acontecer”, disse Rojas.

Para complicar a situação, muitos que financiaram suas casas hoje estão entre quase 2 milhões de desempregados, que representam 10,1% da população ativa do país, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

O coletivo pede ao governo que suspenda os pagamentos e elimine o sistema de indexação. “Isso foi criado por uma política de Estado que promoveu esses créditos e prometeu uma inflação de um dígito em 2019. Hoje temos inflação de 56%”, reclamou Marcela.

Para Rozados, o contexto afeta a confiança de quem compra e de quem constrói. “Há enorme incerteza sobre como a economia e o modelo político vão continuar.

Não há investimentos novos, e todos os dólares estão em caixa forte ou fora do país, porque ninguém confia no que vem por aí.

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