Um Outro Mundo é Possível (por Ha-Joon Chang)

William Davies editou o livro intitulado “Ficções científicas econômicas” (Economic Science Fictions. University of London; Goldsmiths Press; 2018). Ha-Joon Chang, no capítulo inicial, diz ter mencionado anteriormente, no entanto, ao contrário do dito por muitos economistas, a maioria desses Ficções Científicas, na verdade, não diz esses mundos tecnologicamente mais avançados serem melhores.

Ele nem está falando de mundos onde as tecnologias são tão avançadas a ponto de saírem do controle humano e destruírem a humanidade, como em The Terminator ou em todos os filmes Matrix. Muitos desses Ficções Científicas nos dizem, mesmo quando as tecnologias superiores aparentemente atendem melhor os seres humanos de certa forma, elas podem tornar as pessoas mais infelizes, porque foram desenvolvidas com um entendimento incorreto da natureza humana ou das instituições humanas.

Por exemplo, o Player Piano de Kurt Vonnegut imagina um mundo onde o progresso tecnológico na produção atingiu tal nível a ponto de não precisarmos mais de trabalhadores humanos, exceto por um número muito pequeno de engenheiros e gerentes. Então, nesse mundo, ninguém precisa trabalhar enquanto não quer nenhuma necessidade material.

De acordo com a visão econômica dominante (ou seja, neoclássica) de hoje, na qual as pessoas se esforçam para maximizar sua renda (e, portanto, consumo) e tempo de lazer, isso deveria ter deixado as pessoas em êxtase. No Player Piano, no entanto, as pessoas são desesperadamente infelizes, porque se sentem entediadas e inúteis. Assim, Vonnegut está dizendo: o trabalho é um aspecto essencial de nossa vida, criticando sem querer a visão neoclássica dos objetivos humanos e da vida social.

Ou pense no Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Nesse mundo, o desenvolvimento da clonagem humana e outras tecnologias reprodutivas permitiu à humanidade controlar seus números, reduzindo a demanda de recursos. Também é um mundo onde a manipulação do subconsciente fez as pessoas manterem ideias apropriadas às castas, garantindo assim a paz industrial e social, e também adotam uma cultura consumista extrema. Esta garante altos níveis de demanda, resolvendo assim ‘o problema da prevenção da depressão’, para usar a frase de Robert Lucas citada anteriormente. Este mundo é indiscutivelmente o paraíso dos neuro-economistas modernos, como descrito no livro The Happiness Industry de William Davies, mas, mais uma vez, este não é um mundo onde a maioria das pessoas gostaria de viver.

Outro mundo semelhante, embora menos controlado, é descrito no filme de Andrew Niccol, Gattaca, no qual desenvolvimentos em genética e tecnologias reprodutivas colocam a humanidade à beira de eliminar indivíduos geneticamente imperfeitos. É um mundo onde o talento (ou pelo menos potencial talento) é quase perfeitamente compatível com o trabalho das pessoas, mas é um mundo horrível, no qual as pessoas geneticamente imperfeitas nem sequer podem tentar coisas melhores.

Em outras palavras, Brave New World e Gattaca estão dizendo ter de ser imperfeito, não totalmente previsível, e ter livre-arbítrio (incluindo a vontade de tentar o que a ciência diz ser impossível, como no caso de Vincent Freeman, o personagem principal de Gattaca, interpretado por Ethan Hawke) são características-chave da nossa humanidade. Eles estão dizendo: não queremos um mundo “perfeito”, provocado pelo progresso científico, se ele negar nossa humanidade.

Agora, uma extensão interessante da ideia de as Ficções Científicas serem uma maneira de imaginar outro mundo econômico é dizer: a história é uma ‘ficção científica distópica sem sequer lembranças de tecnologias avançadas’.

No passado, em grande parte porque tínhamos tecnologias diferentes (e principalmente menos produtivas), as instituições econômicas eram diferentes das tidas hoje. Ha-Joon Chang já discutiu o caso do trabalho infantil. O trabalho infantil foi tão difundido e problemático no final do século XVIII e início do século XIX na Europa e América do Norte, devido às tecnologias específicas sendo usadas.

As crianças pobres sempre trabalhavam, mas a maioria cuidava da cabra da família, fazia recados, pegava bolsos ou o que quer que fosse, mas não fazia o trabalho de adultos. As tecnologias baseadas em máquinas surgidas a partir do século XVIII significavam a força muscular dos homens adultos não ser mais necessária para muitos empregos, e por isso tornaram possível contratar crianças mais amplamente. Ao mesmo tempo, essas tecnologias não eram suficientemente produtivas a ponto de as sociedades não poderem dar ao luxo de tirar todas as crianças do trabalho, como os países mais ricos fazem hoje.

Como as tecnologias e instituições eram diferentes, os indivíduos eram diferentes. Os indivíduos podem ter livre-arbítrio, mas o que são, o que querem e até o que podem imaginar são profundamente moldados pelas tecnologias e pelas instituições de onde vivem. Por isso, muitos países considerados hoje como trabalhadores e organizados – os alemães, os japoneses e os sul-coreanos – foram denunciados como tendo pessoas preguiçosas, desonestas e irracionais quando eram pobres.

Obviamente, Ha-Joon Chang não está defendendo uma visão estritamente materialista, na qual tecnologias definem instituições e instituições definem indivíduos. A causalidade é muito mais complexa.

Os indivíduos podem ser formados por tecnologias e instituições, mas também mudam e criam novas tecnologias e instituições. As instituições influenciam como as tecnologias são usadas e alteradas. Por exemplo, comentaristas marxistas argumentam os capitalistas geralmente escolherem certas tecnologias porque lhes dão o maior controle sobre seus trabalhadores e não porque são as mais eficientes.

As tecnologias podem estabelecer limites definitivos para as instituições possíveis de se ter, mas há muito espaço para a diversidade, dependendo de como os indivíduos exercem suas agências na concepção de instituições e dependendo da forma das instituições existentes. E assim por diante.

Se você entende a história dessa maneira, pode facilmente ver as realidades econômicas serem os resultados de algumas “leis naturais e científicas”. Mas, na verdade, são realmente o resultado de mudanças tecnológicas, mudanças institucionais, decisões políticas e a influência exercida por agências individuais.

Utilizada dessa maneira, a pesquisa histórica se torna semelhante à escrita e análise de SFs, exceto as realidades alternativas não serem tão imaginárias quanto nos SFs. Observe Ha-Joon Chang ter acabado dizendo ‘não tanto imaginário’ em vez de ‘não imaginado‘, pois a gravação e a decifração da história envolvem elementos importantes da imaginação sobre as percepções e a motivação dos atores, regras sociais não escritas, as quais mais tarde os historiadores só podem inferir e imaginar, e assim por diante.

Por fim, o romancista britânico L. P. Hartley disse em seu romance The Go-Between: “o passado é um país estrangeiro onde as pessoas fazem as coisas de maneira diferente”. Se você diz uma das utilidades do estudo da História é permitir-nos imaginar outras realidades, pode dizer o mesmo sobre estudar países estrangeiros ou fazer estudos comparativos.

Quando esse país estrangeiro é um país com tecnologias muito diferentes (e, portanto, instituições muito diferentes, indivíduos muito diferentes etc.), a comparação quase se torna um estudo histórico do ponto de vista do país tecnologicamente mais avançado. Ou, inversamente, quando visto do ponto de vista do país tecnologicamente menos avançado, o estudo comparativo torna-se uma análise doas Ficções Científicas. Ou, se você o vê do ponto de vista do pesquisador coordenador do estudo comparativo, é como viajar em uma máquina do tempo – a derradeira fantasia das Ficções Científicas.

Em resumo, ao tentar entender a Economia e reformar para melhor, podemos ser imensamente ajudados pelas Ficções Científicas, o estudo da história e estudos comparativos. Ficções Científicas, história e estudos comparativos nos permitem ver a ordem econômica e social existente não ser “natural”. Logo, ela pode ser alterada, assim como já foi alterada; e, o mais importante, isso mudou da maneira de fato acontecida apenas porque algumas pessoas ousaram imaginar um mundo diferente e lutaram por ele.

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