Economia Comportamental para Superação da Crise do Pensamento Econômico

No livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism”, os coautores George A. Akerlof & Robert J. Shiller, afirmam: a vida ocasionalmente tem seus momentos reveladores.

Para a economia mundial, o dia 29 de setembro de 2008, há onze anos, foi um daqueles marcantes momentos reveladores. O Congresso dos EUA recusou, embora mais tarde tenha se revertido, a aprovação do plano de resgate de US $ 700 bilhões proposto pelo secretário do Tesouro Henry Paulson. O índice da bolsa Dow Jones caiu 778 pontos. Os mercados de ações caíram em todo o mundo. De repente, o que parecia apenas uma possibilidade remota – uma repetição da Grande Depressão – passou a ser uma perspectiva real.

A Grande Depressão foi a tragédia do século passado. Nos anos 30, levou ao desemprego em todo o mundo. Então, como se a Depressão em si não tivesse causado sofrimento suficiente, o vácuo de poder criado levou à Segunda Guerra Mundial. Mais de 50.000.000 morreram prematuramente.

Uma repetição da Grande Depressão é agora uma possibilidade, porque economistas, governo e público em geral se tornaram complacentes nos últimos anos. Eles esqueceram as lições da década de 1930. Naqueles tempos difíceis, aprendemos como a economia realmente funciona. Também aprendemos o papel adequado do governo em uma economia capitalista robusta.

Este livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism” recupera essas lições, além de oferecer uma revisão moderna. Para ver como a economia mundial entrou em seu vínculo atual, é necessário entender essas lições. Mais importante ainda, precisamos entendê-los para saber agora o que deve ser feito.

No meio da Grande Depressão, John Maynard Keynes publicou The The General Theory of Employment, Interest and Money. Nesta obra-prima de 1936, Keynes descreveu como governos dignos de crédito, como os dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, podiam emprestar e gastar e, assim, colocar os desempregados de volta ao trabalho.

Essa prescrição nunca foi implementada sistematicamente durante a própria Depressão. Foi só quando acabou que os economistas começaram a dar orientações claras aos políticos. Então, os líderes se atrapalharam. Nos Estados Unidos, por exemplo, Herbert Hoover e Franklin Roosevelt se envolveram em alguns gastos deficitários.

Na maioria das vezes, eles tinham as intuições corretas, embora estivessem assustadoramente confusos e suas políticas conduzissem na direção certa. Mas, por não terem diretrizes, eles não tinham confiança para seguir essas políticas suficientemente longe.

Quando os empréstimos e gastos keynesianos finalmente ocorreram, para combater a guerra, o desemprego desapareceu. Na década de 1940, a receita de Keynes tornou-se tão padrão a ponto de ter sido adotada em países de todo o mundo e até consagrada na lei. Nos Estados Unidos, a Lei do Emprego de 1946 tornou a manutenção do emprego pleno uma responsabilidade federal.

Os princípios keynesianos relativos ao papel da política fiscal e monetária no combate às recessões foram totalmente incorporados ao pensamento de economistas e políticos, de acadêmicos e de algumas pessoas em geral. Até o falecido Milton Friedman foi citado como tendo dito: “Somos todos keynesianos agora”, embora ele mais tarde tenha negado sua afirmação.

E as políticas macroeconômicas keynesianas têm funcionado amplamente. Sim, houve altos e baixos. Sim, houve algumas grandes revoltas, como o Japão nos anos 90, a Indonésia depois de 1998 e a Argentina depois de 2001. Mas uma visão geral da economia mundial sugere todo o período pós-guerra ter sido e continua sendo um sucesso. País após país manteve algo como pleno emprego. Agora, quando a China e a Índia moderaram suas tendências socialistas, elas também, com suas vastas populações, começaram a experimentar prosperidade e crescimento econômico.

Mas além da utilidade do déficit financeiro para sair das recessões, outra mensagem mais fundamental da The General Theory foi deixada de lado. Essa foi a análise mais profunda de Keynes sobre como a economia funciona e o papel do governo dentro dela.

Em 1936, quando The The General Theory foi publicado, em um extremo do espectro político-econômico estavam aqueles defensores de a Economia antiga, pré-keynesiana, ter acertado. De acordo com essa economia clássica, os mercados privados, por conta própria e sem interferência do governo, “como se por uma mão invisível” garantissem pleno emprego.

De acordo com a lógica clássica em sua forma mais simples, se um trabalhador estivesse disposto a trabalhar por menos do capaz de produzir, um empregador poderia obter lucro dando-lhe um emprego. As pessoas com essas visões pediram o equilíbrio dos orçamentos e insistiram em uma regulamentação governamental mínima.

No outro extremo do espectro, em 1936, estavam os socialistas. Eles pensavam a recuperação do desemprego da década de 1930 só poder ser alcançada se o governo assumisse os negócios. Eliminaria então o desemprego fazendo a contratação propriamente dita.

Keynes, porém, adotou uma abordagem mais moderada. Para ele, a economia não é governada apenas por atores racionais, tipo imaginado por idolatras da ideologia “como se por uma mão invisível”. Eles não se envolverão em qualquer transação que seja para seu benefício econômico mútuo, ao contrário do acreditado pelos economistas neoclássicos.

Keynes considerou a maioria das atividades econômicas resultar de motivações econômicas racionais, mas também muitas atividades econômicas serem governadas por espíritos animais. As pessoas têm motivos não econômicos. E eles nem sempre são racionais na busca de seus interesses econômicos. Na visão de Keynes, esses espíritos animais são a principal causa do motivo pelo qual a economia flutua. Eles também são a principal causa de desemprego involuntário.

Entender a economia, então, é compreender como ela é movida pelos espíritos animais. Assim como a mão invisível de Adam Smith é a tônica da economia clássica, os espíritos animais de Keynes são a tônica de uma visão diferente da Economia – uma visão capaz de explicar as instabilidades subjacentes do capitalismo.

A afirmação de Keynes sobre como os espíritos animais dirigem a economia nos leva ao papel de governo. Sua visão do papel do governo na economia era muito parecida com o que nos dizem os livros de conselhos para os pais.

Por um lado, eles nos alertam para não sermos muito autoritários. As crianças serão superficialmente obedientes, mas quando se tornarem adolescentes se rebelarão. Por outro lado, esses livros nos dizem para não sermos muito permissivos. Nesse caso, eles não foram ensinados a estabelecer limites adequados para si mesmos. Os livros de conselhos nos dizem a educação adequada dos filhos envolver um caminho intermediário entre esses dois extremos.

O papel adequado dos pais é estabelecer limites para a criança não exagerar no espírito animal. Mas esses limites também devem permitir à criança a independência para aprender e ser criativo. O papel dos pais é criar um lar feliz, dando liberdade à criança, mas também a protegendo de seus espíritos animais.

Esse lar feliz corresponde exatamente à posição de Keynes (e também à nossa) em relação ao papel adequado do governo. As sociedades capitalistas, como corretamente vistas pela velha Economia, podem ser tremendamente criativas. O governo deve interferir o mínimo possível com essa criatividade.

Por outro lado, deixadas por conta própria, as economias capitalistas buscarão o excesso, como testemunham os tempos atuais. Haverá manias. As manias serão seguidas de pânico. Haverá desemprego. As pessoas vão consumir muito e economizar muito pouco. As minorias serão maltratadas e sofrerão. Os preços das casas, os preços das ações e até o preço do petróleo crescerão e depois estourarão.

O papel adequado do governo, assim como o papel dos pais do livro de conselhos, é preparar o cenário. O palco deve dar total controle à criatividade do capitalismo. Mas também deve compensar os excessos a ocorrerem por causa de nossos espíritos animais.

Falando em excessos, a atual crise econômica foi astutamente explicada por George W. Bush: “Wall Street ficou bêbada”. [Ele, um alcoólatra na adolescência, sabia bem disso…]

Mas uma explicação de por que Wall Street ficou bêbada, ou por que o governo norte-americano estabeleceu as condições prévias de modo a permitirem ela se embebedar e depois sentou preguiçosamente, de modo exagerado, deve provir de uma teoria da Economia e de como ela opera. Ela vem da constante emasculação da Teoria Geral de Keynes. Ela começou logo após sua primeira publicação e depois foi intensificada nas décadas de 1960 e 1970.

Após a publicação da The General Theory, os seguidores de Keynes erradicaram quase todos os espíritos animais – os motivos não econômicos e os comportamentos irracionais. Eles estavam no centro de sua explicação para a Grande Depressão. Eles deixaram espíritos animais suficientes para produzir uma teoria do denominador menos comum. Ela minimizou a distância intelectual entre A Teoria Geral e a economia clássica padrão da época. Nesta teoria econômica padrão, não há espíritos animais. As pessoas agem apenas por motivos econômicos e agem apenas racionalmente.

Os seguidores de Keynes adotaram essa “banalidade” (como descrito por Hyman Minsky) por duas boas razões. A primeira foi a Depressão ainda estar em fúria, e eles desejavam converter-se o mais rápido possível à sua mensagem sobre o papel da política fiscal. Eles atingiriam o número máximo de convertidos aproximando-se o máximo possível da teoria existente.

Esse desvio mínimo foi útil por outro motivo. Isso permitiu aos economistas da época entender a nova teoria em termos da antiga. Mas essa solução de curto prazo teve consequências em longo prazo. A versão diluída de The General Theory ganhou aceitação quase universal nas décadas de 1950 e 1960.

No entanto, essa versão reducionista, conhecida como síntese neoclássica-keynesiana, da Economia keynesiana também era vulnerável a ataques. Durante a década de 1970, uma nova geração de economistas surgiu. Em sua crítica, chamada de Nova Economia Clássica, eles viram tudo como os poucos espíritos animais a permanecerem no pensamento keynesiano serem insignificantes demais para ter alguma importância na economia.

Eles argumentaram a teoria keynesiana original não ter sido diluída o suficiente. Na opinião deles, como peça central da Macroeconomia moderna, os economistas não deveriam considerar os espíritos animais. Portanto, não sem um pouco de ironia, a velha economia clássica pré-keynesiana, sem desemprego involuntário, foi reabilitada.

Os espíritos animais foram relegados à lata de lixo da história intelectual. Voltou a predominar o princípio absolutista da racionalidade, pressuposto para todos os agentes econômicos, para espanto dos psicólogos!

Essa visão novoclássica de como a economia se comporta foi passada dos economistas para os pensadores, elites políticas e intelectuais públicos e, finalmente, para a mídia de massa. Tornou-se um mantra político: “Acredito nos mercados livres”.

A crença de o governo não dever interferir com as pessoas em busca de seus próprios interesses influenciou as políticas nacionais em todo o mundo. Na Inglaterra, assumiu a forma de Thatcherismo. Na América, tomou a forma de reaganismo. E desses dois países anglo-saxões se espalhou para todo o mundo ocidental para proveito do mundo oriental.

Essa visão permissiva dos pais sobre o papel do governo substituiu o “lar feliz” keynesiano. Agora, três décadas após as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, vemos os problemas graves gerados. Nenhum limite foi definido para os excessos de Wall Street. Ficou muito bêbado. E agora o mundo deve enfrentar as consequências.

Faz muito tempo desde quando George A. Akerlof & Robert J. Shiller descobriram como era possível um governo compensar os choques racionais e irracionais a ocorrerem nas economias capitalistas. Mas como o legado de Keynes e o papel do governo foram desafiados, o sistema de salvaguardas desenvolvido a partir da experiência da Grande Depressão foi corroído. Portanto, é necessário renovar a compreensão de como as economias capitalistas – nas quais as pessoas têm não apenas motivos econômicos racionais, mas também todo tipo de espírito animal – realmente funcionam.

Este livro, “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism”, se baseia em um campo emergente chamado Economia Comportamental. Ela descreve como a economia realmente funciona. Ela explica como funciona quando as pessoas realmente são humanas, isto é, possuidoras de espíritos animais humanos demais. E explica por que a ignorância de como a economia realmente funciona levou ao estado atual da economia mundial, com o colapso dos mercados de crédito e a ameaça de colapso da economia real em ação.

Com a vantagem de mais de setenta anos de pesquisa nas Ciências Sociais, podemos desenvolver o papel dos espíritos animais na Macroeconomia de uma maneira que os primeiros keynesianos não podiam. E porque reconhecemos a importância dos espíritos animais e concedemos a eles um lugar central em nossa teoria, em vez de varrê-los para debaixo do tapete, essa teoria não é vulnerável a ataques.

Essa teoria é especialmente necessária no contexto da atual recessão. Acima de tudo, os formuladores de políticas devem saber o que fazer. Mas a teoria também é necessária para aqueles possuidores das intuições certas, como tinha Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve. Somente com o claro entendimento fornecido pela Economia Comportamental, eles terão a confiança e também a legitimidade intelectual para perseguir seus instintos pelas medidas realmente agressivas necessárias para lidar com a atual crise econômica.

 

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