Problemas Teóricos e Empíricos de Regime de Meta Inflacionária

No primeiro capítulo da coletânea de ensaios “Economic Policies since the Global Financial Crisis, International Papers in Political Economy” (University of Cambridge, 2017), Phillip Arestis se concentra na política monetária, desde a Crise Financeira Global (GFC) até a subsequente “grande recessão” (GR).

O modelo do Novo Consenso Macroeconômico (NCM) é caracterizado por ter como instrumento único a taxa de juros, excluindo mercados financeiros e dinheiro. Tem em vista a condição de transversalidade, onde todos os agentes econômicos têm suas expectativas racionais perfeitamente dignas de crédito e, assim, nenhum agente seria inadimplente. Todas as dívidas seriam pagas integralmente, eliminando todos os riscos de crédito de acordo com padrões antecipados.

Os empréstimos com o mesmo risco são realizados com a mesma taxa de juros de empréstimo e todas as dívidas da economia são perfeitamente aceitáveis em troca. Portanto, não é necessário um ativo monetário específico ser incluído no modelo NCM. Todos os ativos financeiros são idênticos porquanto existe apenas uma única taxa de juros em qualquer período. O modelo NCM é, portanto, um modelo não monetário, com a oferta monetária tratada como um resíduo. Ela não aparece em nenhum lugar nas principais equações do NCM (Arestis, 2011). Há a exceção da taxa de juros do banco central, cuja manipulação levaria a se alcançar a estabilidade de preços com a estabilidade nos recursos macroeconômicos emergindo de forma consequente.

A ausência de bancos no modelo NCM foi longe demais, pois leva a sérios problemas de análise (Goodhart, 2007). Bancos e suas decisões desempenham um papel consideravelmente significativo no mecanismo de transmissão da política monetária. Decisões dos bancos quanto à concessão ou não de crédito desempenha um papel importante na expansão da economia, no sentido de se houver falha dos bancos no fornecimento do crédito, isso implica na expansão das despesas não ocorrer.

Mudanças na taxa de juros podem ter efeitos graves através de empréstimos bancários, mas estão completamente ausente de qualquer consideração. Uma mudança na taxa de juros pode ter impacto na oferta de crédito através do chamado canal de crédito da política monetária no contexto de mercados de capitais imperfeitos (Bernanke e Gertler, 1995). Este canal é proposto sob o pressuposto de mercados de capitais imperfeitos, dos quais os proponentes do NCM se afastam em vista do pressuposto da transversalidade.

Os atritos financeiros, nomeadamente a viscosidade nas transações, foram introduzidos no modelo NCM mais recentemente. King (2012), no entanto, argumenta ‘nenhum desses atritos parece suficientemente grande para fazer parte de um modelo macroeconômico de estabilidade financeira. Portanto, não é surpreendente ter sido provado ser difícil encontrar exemplos de atritos capazes de gerarem trocas quantitativamente interessantes entre preço e estabilidade financeira. Predominantemente, o objetivo mais importante permanece sendo a estabilização da inflação”.

No mundo real, muitos agentes econômicos estão restritos à baixa liquidez. Eles não possuem ativos suficientes para vender ou capacidade de contrair empréstimos. Suas despesas são limitadas à sua renda atual e aos poucos ativos próprios vendáveis.

O pressuposto de mercado de capitais perfeito, implícito no NCM, na verdade, não implica racionamento de crédito. Conclui, assim, o único efeito da política monetária ser um efeito-preço à medida que a taxa de juros é alterada. Consequentemente, as partes do mecanismo de transmissão da política monetária, envolvendo racionamento de crédito e alterações nos termos de preço não fornecidos, são excluídas por suposição.

Um outro problema foi destacado por King (2016) referente à meta inflacionária, tendo em vista de seu design “para imitar o comportamento de uma economia de mercado competitiva” (p. 171), ela não pode explicar a “incerteza radical”, a saber, a incerteza insolúvel pela análise estatística. Isso, então, produz acumulação de erros ocasionais por parte de famílias e agentes de negócios. Exigiria o banco central contabilizar e visar “o verdadeiro equilíbrio geral da economia e não apenas a estabilidade de preços” (p. 172).

Há também a questão relacionada a riscos e incertezas e a assunção de um único juro básico de referência (Goodhart 2007). O risco percebido dos mutuários e a incerteza implicam claramente em uma única taxa de juros não poder capturar toda a realidade.

Meta Inflacionária também não presta atenção suficiente às bolhas de ativos, cujas consequências podem ser graves. Isso foi demonstrado pelo surgimento da FCG.

Países não adeptos de políticas de Meta Inflacionária e não possuidores de bancos centrais independentes, na maioria dos casos, praticaram política monetária tão bem quanto os países com meta inflacionária em termos de controlar a inflação e manter as expectativas de inflação em níveis baixos (Angeriz e Arestis 2007, 2008). De fato, e em alguns casos, eles fizeram muito melhor em relação aos países de TI. Angeriz e Arestis (op. cit.) também mostram a baixa inflação e a estabilidade dos preços nem sempre levarem à estabilidade macroeconômica.

O GFC fornece ampla evidência dessa conclusão. Mas mesmo antes do crescimento constante da instabilidade e com inflação estável, os endividamentos progressivos foram associados ao crescimento de desequilíbrios, essencialmente nos balanços das famílias, empresas e instituições financeiras. Todos esses desequilíbrios provaram ter sido muito onerosos tendo em vista o surgimento da CGF.

Além disso, Angeriz e Arestis (2007) argumentam o NCM não prestar atenção suficiente à taxa de câmbio. No entanto, a taxa de câmbio afeta a demanda por importações e as exportações e, portanto, o nível de demanda agregada, a atividade econômica e a inflação. Mesmo assim, não está incluída na regra de política monetária do modelo de Meta Inflacionária. Além disso, não é suficiente a evidência empírica disponível (Arestis e Sawyer, 2004b, 2008) para validar todas as proposições teóricas do NCM.

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