Mercado de Capitais: Dependente de Juros Baixos e Privataria

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Até outubro, o mercado de capitais doméstico captou R$ 312,0 bilhões em 2019, 54% acima do volume captado no mesmo período do ano passado, de R$ 202,6 bilhões. Desde agosto/19, esses montantes superam o recorde histórico dos anos anteriores, confirmando a performance positiva do segmento no período.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, percebe-se a ocorrência de desconcentração gradual nas captações por instrumentos – as debêntures representavam 63% do volume total naquela ocasião – abrindo espaço para as captações de outros produtos, como a oferta subsequente de ações (follow-ons), quando se vende barato o patrimônio público brasileiro para investidores estrangeiros, e os fundos de investimentos imobiliários (FIIs).

Entre os instrumentos de captação doméstica, os follow-ons foram os que apresentaram o maior ritmo de crescimento, passando da participação relativa de 0,1% do volume total captado no ano passado (até outubro) para 19,6%, correspondendo atualmente a montante de R$ 61 bilhões. Isso graças à liquidação do patrimônio público com venda de ações por empresas estatais: o Brasil está sendo vendido barato para estrangeiros!

As debêntures mantêm a parcela mais relevante, com 44,4% do total – o equivalente a R$ 138,5 bilhões, enquanto o volume captado pelos FIIs dobrou na comparação com o mesmo período de 2018, passando de R$ 13,2 bilhões para R$ 26,3 bilhões, e representando parcela de 8,4% do total captado pelo segmento este ano.

Nas ofertas públicas de debêntures deste ano, os investidores institucionais continuam os principais demandantes com 60,0% do volume ofertado, seguido das instituições coordenadoras das ofertas com 34,6%.

O refinanciamento dos passivos representa o maior montante da destinação dos recursos das emissões, com 42,0% (incluindo nessa parcela a recompra ou resgate de debêntures de emissão anterior) seguido do financiamento do capital de giro com 29,2%.

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Em outubro, até o fechamento das captações, o volume mensal das emissões foi de R$ 29,9 bilhões, elevação de 31,0% em relação a setembro.  As captações com debêntures registraram a maior participação no montante emitido com 35,6% (R$ 10,7 bilhões), seguido das operações follow-on com 25,0% (R$ 7,5bilhões) do total.

Record do Ibovespa 07.11.19

Se até pouco tempo atrás o investimento preferido dos investidores para ganhar dinheiro no longo prazo eram os títulos do Tesouro atrelados à inflação, a chave agora mudou. Em tempos de juros baixos, a bolsa tem sido considerada “a nova NTN-B” (Nota do Tesouro Nacional-série B) por alguns gestores de recursos do país.

Uma massa de incautos, em fuga da renda fixa, adota comportamento de manada e entra na bolsa, realizando a profecia de alta. Esta fase é conhecida como a de “sorte do iniciante”. Ele entra atrasado na alta — e sai perdendo depois da queda.

Depois de o IMA-B5+ (agrega as NTN-Bs com vencimento superior a cinco anos) ter subido 36,2% nos últimos 12 meses, em comparação a 22,6% do Ibovespa, todos os gestores recomendam os investidores aumentarem a parcela em renda variável na carteira. E colhem o ganho de capital antes dos novatos perderem.

O cenário atual reúne uma combinação inédita de juros baixos sem perspectiva de crescimento do lucro das companhias. As empresas fazem a desalavancagem financeira, durante a crise, e buscam melhorar suas margens. Agora, têm a oportunidade de ter dívidas a juros mais baratos e fazer nova alavancagem. Essa combinação ainda não está precificada.

A crise trouxe efeitos positivos para as empresas da bolsa. Elas prometem trazer resultados melhores para os investidores em termos de dividendos em um futuro incerto. As empresas se tornaram muito enxutas, cortaram custos e automatizaram processos. É uma propaganda enganosa a recuperação do crescimento econômico e também das empresas.

A queda de juros no mundo e a sinalização de o ajuste fiscal no Brasil continuar após a reforma da Previdência reforçam a visão dos apologistas de O Mercado. Os juros baixos vieram para ficar até um choque cambial provocar um choque inflacionário. Até lá, mesmo com maus fundamentos, a bolsa será a alternativa para o comportamento de manada especulativa.

Os gestores minimizam o impacto de uma eventual desaceleração econômica global. As exportações e importações representam menos de 20% do PIB brasileiro e a bolsa brasileira não é dependente do PIB. “As nuvens negras estão lá, mas não vão se transformar em tempestade”, disse um “me engana que eu gosto”.

Vejam a besteira dita por gente de O Mercado: “Nunca tivemos um momento em que a economia estivesse estável e o juro, baixo, e isso muda completamente o país. É uma mudança de paradigma”, afirmou Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central. Segundo ele, já passou o tempo em que era confortável investir em NTN-B.

“Pode ser que ainda tenha algum espaço, mas o grosso já foi, o que nos faz repensar se deveríamos manter um volume enorme investido nesses papéis. Minha visão é que não”, afirmou. “As NTN-Bs de prazo mais longo ainda têm algum prêmio, mas não me parece que você possa ou deva colocar suas fichas nisso.”

Correr riscos é a alternativa que sobrou, segundo Figueiredo. Ele recomenda ativos relacionados à chamada “economia real”, como crédito privado, imóveis e ações.

A quem segue apegado à renda fixa, sugere-se fundos especializados e novos produtos, como os ETFs (fundos de índice), além de alongar os prazos dos títulos. “O Mercado vai começar a se desenvolver a partir de agora”, disse o engana-trouxas.

O recente estresse no mercado de crédito que desvalorizou as cotas de fundos com títulos com classificação “high grade” (de melhor classificação de risco) tende a ser um fenômeno passageiro. Ah, é…

A depreciação ocorreu por um “efeito manada”, sem relação com uma eventual piora na qualidade dos emissores. Depois de muitos investidores colocarem crédito nas suas carteiras, a valorização obtida com a queda dos juros estimulou que embolsassem os lucros. Com as vendas, os gestores tiveram que atualizar os preços dos ativos, mas já há sinais de nova demanda.

“Tem tubarão na água”, disse um cauteloso, referindo-se à sondagem de assets ligadas a grandes bancos. “Com fundos ‘stopando’ [zerando posições para estancar perdas], tem oportunidade e vai entrar tubarão comprando.”

O especialista de O Mercado comparou a dinâmica dos papéis de crédito a movimentos de vendas generalizadas na bolsa em eventos como o “Joesley Day”, o pregão após o vazamento da conversa do então presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista, em maio de 2017. “Dois, três meses depois foi sanado, o efeito manada no [crédito] high grade está trazendo spread. O primeiro que pegar, captura.”

Também classificou o movimento recente como meramente técnico, porque a qualidade das empresas e a estrutura de passivos até melhorou. “Fundo com D1, D5, D15 [de um a 15 dias para o resgate após o pedido do cotista] é uma opção barata para quem investe e de saída fácil para quem estava ganhando dinheiro.” A ressalva é ainda não dá para saber quanto vai ter de resgate nessas carteiras. Ah, é?!

Dos cerca de R$ 200 bilhões do mercado de debêntures “high grade”, tirando a posição que está nos “bancões” sobrem cerca de R$ 30 bilhões nas mãos das gestoras menores. “Se tiver R$ 10 bilhões de resgate, os grandes bancos compensam isso em um dia.”

Se todo mundo perdeu cerca de 10% era porque o prêmio não condizia com o risco da empresa, “estavam forçando a barra mesmo nas condições”.

Houve evolução do segmento, com o aparecimento de mais de três dezenas de casas especializadas nos últimos anos. “Antes tinha R$ 5 bilhões, R$ 10 bilhões somados, hoje são quase R$ 100 bilhões. É um capital estrutural capaz de complementar o crédito bancário e substitui o BNDES.”

Você confia em conselho de gente com esse palavrório?!

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