O mundo ficou louco e o sistema está quebrado

Traduzo abaixo o artigo publicado em 5 de novembro de 2019 na conta do Linkedin do Ray Dalio (Co-Chief Investment Officer & Co-Chairman da Bridgewater Associates, L.P.). Ele é autor do ótimo livro RAY DALIO – Princípios para Navegação na Crise da Grande Dívida e influenciador de gente apreciadora de desafios intelectuais e/ou “pensar fora-da-caixa”. Ele faz essa afirmação no título de seu artigo por conta das seguintes justificativas.

O dinheiro é gratuito para quem é digno de crédito, porque os investidores credores e os bancos captadores o depositam nos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa e estão dispostos a receber um pouco menos em relação ao depositado. Mais especificamente, os investidores ao emprestarem a quem for digno de crédito aceitarão taxas de juros muito baixas ou negativas e não exigirão o reembolso do principal no futuro próximo.

Eles estão fazendo isso porque têm uma quantidade enorme de dinheiro para investir em circulação. Ela foi e continua sendo investida pelos Bancos Centrais ao comprar ativos financeiros, resgatando e/ou monetizando os títulos de dívida pública, em suas tentativas fúteis de aumentar a atividade econômica e a inflação.

A razão pela qual esse dinheiro disponível para os investidores não estar sendo investido em produção, impulsionando o crescimento econômico e a inflação, se deve à sua quantidade ser muito maior em relação à disposição dos investidores de gastá-lo, produtivamente, em vez de investi-lo no mercado financeiro. Esse afrouxamento monetário está criando uma dinâmica de “empurrar corda”. Ela já aconteceu muitas vezes na história (embora não em nossas vidas) e foi completamente explicada em seu livro “Princípios para a Navegação em Grandes Crises de Dívida” [Principles For Navigating Big Debt Crises. Bridgewater; 2018].

Como resultado dessa dinâmica, os preços dos ativos financeiros subiram bastante e os retornos futuros esperados, isto é, juros face ao prazo restante dos títulos prefixados, diminuíram, enquanto o crescimento econômico e a inflação permanecem lentos.

Esses grandes aumentos de preços e os baixos retornos esperados resultantes não são apenas verdadeiros para os títulos financeiros. Eles são igualmente verdadeiros para ações, capital privado e capital de risco, embora os baixos retornos esperados desses ativos não sejam tão aparentes quanto os investimentos em títulos prefixados. Isto porque esses investimentos semelhantes aos em ações não declaram retornos da mesma forma como os títulos. Como resultado, seus retornos esperados são deixados à imaginação dos investidores especuladores.

Como os investidores têm muito dinheiro para investir e, devido às histórias de sucesso anteriores de investimentos em ações de empresas revolucionárias em tecnologia, eles sabem tão bem, mais empresas do que nunca, desde a bolha das empresas ponto.com, não precisam obter lucros ou ter caminhos claros para lucros futuros para conseguirem vender suas ações. Eem vez disso, elas podem vender seus sonhos para os investidores. Estes estão cheios de dinheiro e poder de empréstimo.

Agora, há tanto dinheiro querendo comprar esses sonhos de modo a, em alguns casos, os investidores de capital de risco estarem investindo dinheiro em startups sem desejo de acumularem mais dinheiro, porque já têm capital mais que o suficiente. Daí os investidores estão ameaçando prejudicar essas empresas ao fornecerem enorme apoio aos seus concorrentes, se elas não aceitarem o dinheiro.

Essa transferência de dinheiro para os investidores é compreensível porque esses gerentes de investimento, especialmente os de capital de risco e de private equity, agora têm grandes pilhas de dinheiro comprometido e não investido. Eles precisam investir para cumprir suas promessas aos clientes e cobrar suas taxas de administração.

Ao mesmo tempo, existem grandes déficits governamentais e quase certamente aumentarão substancialmente. Isso exigirá mais enormes quantidades de títulos de dívida pública serem vendidas pelos governos. Essas quantias não podem ser absorvidas naturalmente sem elevar as taxas de juros no momento de lançamento via leilão primário desses títulos de dívida pública.

Um aumento na taxa de juros de mercado seria devastador, para os mercados e todas as economias, porque o mundo está excessivamente alavancado há muito tempo. De onde virá o dinheiro para comprar esses títulos e financiar esses déficits? Quase certamente virá dos Bancos Centrais. Eles comprarão a dívida produzida com dinheiro recém-impresso.

Toda essa dinâmica, na qual finanças públicas sólidas estão sendo “lançadas pela janela”, continuará. Aliás, provavelmente, se acelerará, especialmente nos países de moeda de reserva, ou seja, em moedas dos EUA, da Europa e do Japão, respectivamente, dólar, euro e iene.

Ao mesmo tempo, os prazos de pagamentos de pensões alimentícias, previdência aberta (privada complementar) e de planos de saúde serão cada vez mais vencidos. Enquanto isso, muitos daqueles obrigados a pagá-los não têm dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações.

No momento, muitos fundos de pensão, possuindo investimentos destinados a cumprir suas obrigações de pensão, pretendem retornos assumidos de acordo com a meta atuarial estabelecida por seus reguladores. Ela é, tipicamente, muito mais alta (cerca de 7% aa) se comparada aos retornos do mercado, embutidos nos preços atuais e provavelmente resultantes no prazo de vencimento.

Como resultado, não é improvável muitos daqueles com a obrigação de entregar o dinheiro para pagar essas pensões não terem dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações. Aqueles recebedores desses benefícios de Previdência Complementar esperam esses compromissos serem cumpridos. São, normalmente, professores e outros funcionários do governo. Estes também estão sendo pressionados por cortes no orçamento estatal, devido ao ajuste fiscal chamado de “austericídio”.

É improvável eles aceitarem discretamente reduzir seus benefícios. Embora as obrigações com pensões tenham pelo menos algum financiamento, a maioria das obrigações com assistência médica é paga com base em desconto no pagamento, e por causa da mudança demográfica, quando menos assalariados estão tendo de apoiar uma população maior de baby boomers aposentados com necessidade de assistência médica, não há dinheiro suficiente para financiar essas obrigações também.

Como não há dinheiro suficiente para financiar essas obrigações de pensão e assistência médica, provavelmente haverá uma batalha feia para determinar quanto do hiato será preenchido por:

1) redução de benefícios,

2) aumento de impostos e

3) impressão de dinheiro (o que teria de ser feito no nível federal e se repassar para aqueles necessitados no nível estadual e municipal).

Isso irá agravar a batalha pelo hiato da riqueza. Embora nenhum desses três caminhos seja bom, imprimir dinheiro é o caminho mais fácil, porque é a maneira mais oculta de criar uma transferência de riqueza e tende a aumentar os preços dos ativos.

Afinal, a dívida e outras obrigações financeiras denominadas na quantia devida exigem apenas os devedores entregarem dinheiro. Como não há limitações quanto às quantias de dinheiro possíveis de ser impressas ou ao valor desse dinheiro, é o caminho mais fácil.

O grande risco desse caminho é rele ameaça a viabilidade das três principais moedas de reserva mundial como depósitos viáveis ​​de riqueza. Ao mesmo tempo, se os formuladores de políticas não puderem monetizar essas obrigações, a batalha entre ricos e pobres sobre quanto gastos devem ser cortados e quanto impostos devem ser aumentados será muito pior.

Como resultado, os capitalistas ricos se deslocam cada vez mais para lugares onde as diferenças e os conflitos de riqueza são menos graves. Os funcionários do governo naqueles países a perderem esses grandes contribuintes tentarão cada vez mais encontrar maneiras de retê-los.

Ao mesmo tempo, o dinheiro é essencialmente gratuito para quem tem dinheiro e capacidade de crédito, mas ele está essencialmente indisponível para aqueles sem dinheiro e capacidade de tomar crédito, o que contribui para o aumento da riqueza, oportunidade e disparidades políticas.

Também contribuem para essas lacunas os avanços tecnológicos para os quais os investidores e os empresários mencionados anteriormente estão entusiasmados nas maneiras descritas por Ray Dalio. Então, eles também substituem os trabalhadores por máquinas. Como o processo de “gotejar” [the “trickle-down” process], para ter dinheiro do topo mais rico escorrendo para trabalhadores e outros, melhorando seus ganhos e credibilidade, não está funcionando, o sistema de fazer o capitalismo funcionar bem para a maioria das pessoas está quebrado.

Esse conjunto de circunstâncias é insustentável e, certamente, não pode mais ser promovido, como foi desde 2008. Por isso, Ray Dalio acredita o mundo estar se aproximando de uma grande mudança de paradigma.

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