Da Renda Fixa para Renda Variável: Elevação do Risco em Investimentos Financeiros

Adriana Cotias (Valor, 01/11/2019) informa: com mais afrouxamento monetário vindo do Federal Reserve (Fed, o BC americano) e do Comitê de Política Monetária (Copom), a bolsa brasileira fechou outro mês positivo, com ganhos de 2,36% para o Ibovespa, apesar da queda no último pregão. A renda fixa também trouxe bons resultados em cima da expectativa confirmada de queda da taxa de juro básica (Selic) a 5% ao ano. O IRF- M, índice representativo de uma cesta de títulos públicos prefixados, subiu 1,70% no mês, enquanto o IMA-B, replicando o conjunto de papéis do Tesouro atrelados à inflação, avançou 3,36%.

Entre profissionais de investimentos, a renda variável é a principal recomendação para evitar o magro retorno de aplicações atreladas ao CDI. Outras sugestões incluem Notas do Tesouro Nacional – série B (NTN-B) mais longas, crédito privado, multimercados, fundos imobiliários e de eventos.

No conjunto dedicado à renda fixa, títulos pós-fixados ligados ao CDI ou à Selic saíram totalmente do radar. A única alternativa vem das NTN-Bs longas, com vencimento em 2050, corrigidas pela inflação.

No Tesouro Direto, esses papéis asseguram uma taxa fixa de 3,23% mais o IPCA, um nível favorável ante uma inflação estimada de 3,5% e um CDI na casa dos 5%. Para um investimento que vai se levar por anos, ainda tem um carregamento positivo e pode eventualmente trazer algum ganho de capital.

Nos prefixados, embora veja algum prêmio pela sinalização de nova redução da Selic em dezembro, agora é como “espremer o bagaço da laranja” e a relação risco/retorno não é boa.

Na carteira dos investidores ainda é grande a fatia em alternativas conservadoras, com taxas pós-fixadas. Mas desde o fim do ano passado, a indicação tem sido no sentido de aumentar a alocação em renda variável, multimercados e fundos imobiliários. A orientação continua apenas para gente confiante neste governo instável e no contexto mundial volátil. Só em outubro de 2019, o Ifix, média dos fundos imobiliários listados na bolsa subiu 4,01%. As ações do setor também não fizeram feio, com alta de 5,14%, na liderança das aplicações do mês.

A renda fixa com liquidez diária vai ser apenas para a reserva de emergência e vai render abaixo de 5%. Ok, vida segue. Para compensar, na outra parte da carteira, o investidor vai ter de olhar um horizonte de um a três anos, não mais a rentabilidade mês a mês. É uma mudança de postura de como acompanhar os investimentos, a volatilidade vai estar mais presente. Mesmo o dinheiro no crédito privado, em debêntures, a volatilidade vai aparecer porque antes estava encoberta por uma taxa mais alta.

Com o COPOM tem sinalizado pelo menos mais um corte de 0,5 ponto percentual para a taxa básica de juros na reunião de dezembro, analista de mercado tem recomendado a migração da parcela investida em crédito privado “high grade” (de melhor classificação de risco e com mais liquidez) para alternativas “high yield” (com rating menor e maior potencial de retorno). Um retorno de 105% do CDI com a Selic indo para 4,5% [nos títulos high grade] não é quase nada, não vale o risco.

Renda fixa com liquidez diária vai ter retorno baixo e servirá apenas para a reserva de emergência.

A Selic menor dá, entretanto, mais convicção para a principal tese de investimentos ser na renda variável, hoje no nível máximo de alocação. A bolsa teve novos picos, mas não há restrição em termos de ‘valuation’, enquanto tiver “profecia autorrealizável” pela sorte-de-iniciante. Ela ainda é atrativa por conta da migração em massa de especuladores, e não pelos fundamentos da economia brasileira. As companhias abertas não estão entregando crescimento de lucro ou dividendos. É só ganho de capital no mercado secundário, sem importância macroeconômica.

Adicionalmente, o fluxo de investidores se manterá favorável, porque o juro baixo atrai investidores para o universo da renda variável . Chegou nesse nível sem o estrangeiro e ainda falta a migração da pessoa física e do investidor institucional. A preferência para esse tipo de risco são os fundos de valor ou dedicados a empresas de menor capitalização na bolsa.

Na média, investidor esperto também vem reduzindo a alocação em multimercados macro. Ele costuma ganhar dinheiro com juros, e privilegiando os fundos de nicho como os quantitativos, long & short neutro ou de eventos.

É difícil ficar negativo com ativos de risco no Brasil, embora o ‘valuation’ [do Ibovespa] não esteja barato. Pela primeira vez, o Brasil tem um nível de juros e de câmbio de modo a não minar a competitividade das empresas, além de um arranjo fiscal e parafiscal mais benigno.

Dentre as ações listadas na bolsa, só bancos parecem ter preços atrativos, mas como o setor passa por mudanças estruturais com a nova competição liderada por novatas de tecnologia financeira, prudência para quem não quer ter grande exposição. São ótimas empresas, mas a competição acabou de começar. Não está caro, mas não se sabe qual a capacidade dos bancos de resolver os problemas da concorrência porque eles também se beneficiam da tecnologia.

Com spreads ainda elevados, ainda se espera a pressão da sociedade para as instituições operarem com margens menores. Haverá uma rentabilidade decrescente ao longo do tempo, mas é difícil precisar a velocidade disso.

Já as companhias ligadas à cadeia de commodities, outro segmento de peso no índice, só devem voltar a ser atrativas se houver expansão fiscal global que dê suporte para a demanda. É comum ações de Petrobras e Vale no portfólio por diversificação ingênua com base no conhecimento familiar.

Na posição principal, especulador tem dado preferência a empresas com vantagens competitivas, cujos negócios não estejam ameaçados por novas tecnologias ou porque já deram um passo à frente nesse sentido. A cesta atual é composta por nomes como Mercado Livre, Magazine Luiza, Raia Drogasil, Localiza, PagSeguro, Stone e CVC.

Passado o movimento de ganhos com estratégias ligadas a juros, o nível menor de juros vai acabar transbordando para a atividade neste fim de 2019 e durante 2020. Por isso os especuladores estão mais concentrados em bolsa e no real.

Após um período quando as companhias brasileiras reestruturaram seus passivos e pagaram ou trocaram dívidas em moeda estrangeira, a percepção é da tendência do dólar ser agora para baixo. O leilão de áreas de petróleo deveria injetar capital estrangeiro novo no Brasil. Decepcionou completamente.

Adicionalmente, quem vinha carregando a divisa americana como forma de limitar o risco direcional em outros ativos, vem desmontando essas posições. O Banco Central não vai interferir, a moeda pode cair de forma mais agressiva, baixar para a casa dos R$ 3,00 e algo opina uma especulador com base em rumor infundado.

A carteira agora tenta capturar a virada de ciclo de crescimento para o país, combinada com a parte técnica de mais fluxo para a renda variável. Os fundos de ações todo mês estão captando, isso dá uma sustentação grande. Já o dinheiro externo para investimentos em portfólio deve esperar sinais mais claros de retomada econômica.

Mesmo com todo quiproquó envolvendo países da América Latina – manifestações no Chile, a reeleição de Evo Morales na Bolívia, além da chegada de um novo governo na Argentina em 2020 -, o capital externo vai acabar ignorando as questões mais controversas e se rendendo às taxas de crescimento se o Brasil for capaz de mostrar. Hoje se duvida disso quem for bem (in)formado.

Há apenas a transição para um juro real de equilíbrio historicamente mais baixo.

Dentro do bloco de América Latina, o investidor estrangeiro tem condições de diferenciar o Brasil, mas o risco é manifestações como as observadas no Chile terem espaço também por aqui. Pessoas lúcidas não suportam o atual (des)governo, cuja maior característica é o filhotismo.

Com mais de US$ 15 trilhões em recursos no mundo rodando em aplicações com taxas negativas, cedo ou tarde esse capital vai buscar mais rentabilidade.

O ambiente então será mais para um ‘flight to yield’ [de busca por retorno] em lugar de para o ‘flight to quality’ [de fuga para mercados considerados mais seguros]. O Brasil mesmo com a Selic em nível historicamente baixo pode ser um dos destinos dessa procura por mais rentabilidade?

O juro é baixo para os brasileiros, mas se a inflação estiver controlada é uma oportunidade em tempos quando se tem na prática taxa negativa de 0,7% ao ano na Europa…

Se houver um eventual acirramento da disputa comercial entre China e Estados Unidos pode sobrar para o Brasil, mas no geral o quadro é ainda de farta liquidez global. Aparentemente, a teoria da recessão mundial perdeu força e tal percepção, se confirmada, tem o mérito de tirar o medo do investidor internacional alocar em ativos e regiões de maior risco. E após a reforma da Previdência aprovada, a leitura a fuga dos investidores para VGBL/PGBL com renda variável.

Na bolsa, já se percebe um certo fluxo de capital externo no secundário, quando há aumento do volume negociado e o giro fica acima da média. No ano, o saldo de investimentos estrangeiros na B3 estava negativo em R$ 3,7 bilhões até o dia 29 de outubro, quando se completou 90 anos do crash de outubro de 1929, considerando as negociações no secundário e as movimentações para ofertas iniciais e subsequentes na B3.

Espera-se ainda o ingresso de mais pessoas físicas no pregão. Este público alcançou a marca de 1,5 milhão neste mês, ou seja, 84,3% acima do fechamento de 2018, se isso não for uma bolha de ações, o que mais será?!

Com fluxo de dinheiro novo, espera-se gradualmente o Ibovespa alcançar os 124 mil pontos até a virada do ano, chegando em 150 mil no fim do primeiro semestre de 2020. Tudo isso com base na “sorte-do-iniciante”, i.é, atração de jovens especuladores incautos!

1 thought on “Da Renda Fixa para Renda Variável: Elevação do Risco em Investimentos Financeiros

  1. Oi professor Fernando
    Espero que esteja bem.
    Gosto quando você discute, criticamente, matérias relacionadas a investimentos.
    Aprendemos sempre mais com pessoas com conhecimento e fundamentação.
    Espero que poste mais comentários a respeito de investimentos nos títulos públicos, dada essa fase de oba oba dos grandes veículos, acriticamente, recomendarem ação sem discutir os riscos e o que você fala, sabiamente, sobre o peso histórico de sermos uma economia de endividamento e não ter desenvolvido um mercado de capitais a la USA.
    Grato. Bom fim de semana.
    Wilson

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