Jared Diamond X Yuval Noah Harari: Debate sobre o Futuro com base no Passado

Ana Conceição e Thais Carrança (Valor, 07/11/2019) escreveram reportagem sobre o debate entre Jared Diamond e Yuval Noah Harari na segunda edição do evento “Cidadão Global”, promovido pelo Valor em parceria com o banco Santander, com o tema “O Mundo em transformação – Narrativas do Século 21”. Ambos são autores lidos e utilizados por mim na bibliografia indicada no curso “Economia no Cinema”, quando debati com os alunos do IE-UNICAMP a História da Humanidade.

Saber lidar com o desconhecido será a principal habilidade para enfrentar as transformações do mundo nessa era digital e a educação tem papel fundamental no processo. A maioria dos sistemas educacionais, contudo, ainda opera em bases obsoletas. Eles não combinam mais com as mudanças em curso no século XXI, afirma o historiador israelense Yuval Harari.

Em meio às rápidas transformações trazidas pela tecnologia, pela inteligência artificial, ao longo da vida, as pessoas terão de se reinventar inúmeras vezes. Nesse mundo, o modelo de educação atual, baseado na formação clássica, dividida em disciplinas, está superado. Por isso, ensino Economia como um dos componentes de um sistema complexo, interativo com as demais áreas de conhecimento para explicar a configuração a cada momento do mundo.

“A principal habilidade não é mais aprender qualquer fato ou equação física em particular, mas como se manter aprendendo e mudando ao longo da vida. Como lidar com uma situação não familiar, desconhecida. Nosso sistema educacional não é construído para isso”, afirmou Harari.

O primeiro desafio, diz Harari, é preparar as crianças para o que será o mundo daqui a 20 anos. “A questão é como o mundo vai parecer em 2040. Não podemos esperar para ver. Temos de ensinar a nova geração hoje”, diz.

Mas, nesse mundo, de certa forma, se valoriza o auto-aprendizado, mas a figura do professor ainda é fundamental, afirma o geógrafo americano Jared Diamond, o outro debatedor do evento. Ele cita as diferentes abordagens de Japão e Estados Unidos com relação a estudantes pobres de áreas rurais. O primeiro opta por contratar mais professores para essas áreas a fim de igualar o nível de educação aos estudantes do resto do país. O segundo contrata menos professores, aumentando a desigualdade educacional.

A educação é o grande desafio neste momento, em especial no Brasil. O país concorre com países mais avançados na área. A China forma 4 milhões de engenheiros por ano. Melhorar a educação vai ser fundamental para o país participar ativamente da disrupção tecnológica global e ter uma economia que não seja tão dependente de commodities e do setor de serviços.

Essa nova educação se conecta com um mercado de trabalho também em mudança, diz Harari. “Na medida em que esse mercado vai se tornar mais volátil, com empregos aparecendo e desaparecendo, as pessoas terão que se reinventar.” No debate, ocorrido após suas apresentações individuais, Harari a Diamond foram questionados por Ronaldo Lemos, advogado especialista em tecnologia, sobre a automação e fim do trabalho.

De maneira provocativa, Lemos questionou por que nos Estados Unidos, um dos países mais automatizados do mundo, o desemprego está em suas mínimas históricas, enquanto no Brasil, onde o nível de automação é muito menor, a taxa de desocupação está atualmente em torno de 12%. “Não vemos hoje nenhum sinal de que a automação esteja substituindo trabalho humano e, nos países mais automatizados, o custo do trabalho está aumentando”, observou Lemos.

Em sua resposta, Harari destacou: o avanço da automação e da inteligência artificial não significa o trabalho sera completamente eliminado, mas sim alguns trabalhos desaparecerão, outros vão mudar e novos trabalhos vão surgir. E, ainda, não serão os países ricos os mais afetados pela automação, mas aqueles com mão de obra barata como seu principal ativo.

“Os países ricos lideram a revolução da automação. Eles têm grande vantagem, pois vão colher a maioria dos benefícios dessa revolução e terão recursos para requalificar sua força de trabalho”, afirmou. “Não veremos grande desemprego nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Japão. O grande desemprego será na Guatemala, Indonésia e Bangladesh.”

O historiador citou o caso da indústria têxtil na América Central e no Sudeste Asiático, caso, por exemplo, se torne mais barato produzir uma camiseta em Nova York. “Estamos muito próximos desse ponto”, disse.

“O risco é a revolução da inteligência artificial resultar em algo como a revolução industrial do século XIX: desigualdade extrema entre alguns países que dominam a economia global e outros que colapsam completamente, porque seu principal ativo de mão de obra manual barata se torna irrelevante”, completou. Ele citou ainda o risco de dominação política desses países, através do controle de dados.

Também de maneira provocativa, Diamond comentou: caso fracassemos em construir uma economia sustentável nas próximas décadas e “voltemos à idade da pedra”, os mais preparados para sobreviver nesse novo cenário não seriam os ricos, mas os povos originários, como aqueles da Nova Guiné ou da Amazônia brasileira.

O que foi rebatido por Harari. Ele lembrou, frequentemente na história, os ricos causam problemas, mas quem sofre mais com os resultados deles são os pobres. Ele citou como exemplo a grande crise financeira internacional recente.

“Em um cenário catastrófico, a vasta maioria de pessoas pobres em países em desenvolvimento, que não vivem em sociedades tribais, seriam os mais afetados”, afirmou. O professor israelense destacou ainda a visão dos países ricos, quando problemas como a mudança climática se agravarem, haverá uma solução para protegê-los. Isto faz com eles não lidarem com a urgência necessária com relação a essas questões.

O historiador, filósofo e escritor israelense Yuval Harari segue em sentido oposto ao do senso comum. Para ele, não é necessário optar entre nacionalismo e globalismo, como sugere a polarização entre as duas posições que nos últimos anos marca o debate político e econômico mundial. “Não existe contradição entre eles”, afirma o autor best-seller de “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, “Homo Deus” e “21 Lições para o Século 21”, cujas vendas somam mais de 20 milhões de exemplares.

“Muitos líderes que se apresentam como nacionalistas são na verdade o oposto. São antinacionalistas. Em vez de fortalecer os laços eles intencionalmente ampliam as divisões na sociedade usando linguagem inflamada e política divisionista”, diz o historiador.

“Não há falta de xenofobia no mundo, ódio aos estranhos e estrangeiros”, afirma. “Mas nacionalismo não é relacionado a odiar estrangeiros, nacionalismo é sobre amar seus compatriotas. E atualmente esse tipo de amor está em falta globalmente.”

Líderes se apresentam como nacionalistas, mas são na verdade antinacionalistas e ampliam intencionalmente as divisões na sociedade. Como um nacionalista é ainda submisso anacronicamente com a doutrina da Guerra Fria, aliando-se incondicionalmente ao atual ocupante de cargo de presidente dos EUA?!

Nações são um acontecimento recente na história da humanidade. Nenhuma delas tem mais de 5 mil anos e a grande maioria existe há menos de um milênio, conta Harari. Há cerca de 70 mil anos, as tribos resultantes da união de bandos somavam apenas centenas de pessoas. Até a revolução agrícola, há 10 mil anos, não há notícias de grupos maiores. Segundo o escritor, ao longo de alguns milhares de anos, o nacionalismo, como outras ideologias e religiões, conseguiu nos convencer de, em ao menos alguns casos, colocar o interesse de estranhos, que são de nossa nação, à frente dos interesses de amigos e família, como demandaria nosso DNA.

“O nacionalismo faz nos preocuparmos com estranhos e esse é um dos mais positivos desenvolvimentos na história da humanidade”, afirma Harari. “É um erro perigoso achar sem o nacionalismo estaríamos vivendo em um tipo de paraíso liberal, muito mais provavelmente estaríamos vivendo em algum tipo de caos tribal”, diz o professor.

O escritor afirma o mundo enfrentar hoje três grandes ameaças:

  1. guerra nuclear,
  2. colapso climático e
  3. disrupção tecnológica.

Elas colocam em risco a sobrevivência e a prosperidade de todas as nações e não podem ser tratadas de forma isolada. “Nem levantando bandeiras ou construindo muros”, diz Harari.

Para fazer frente a essas questões, ele acredita ser necessário chegar a uma harmonia global. “Sem nações autoconfiantes, é mais provável a humanidade se dividir entre tribos guerreiras em lugar de estabelecer uma cooperação global. Por outro lado, sem cooperação global, nenhuma nação conseguirá lidar com os desafios do século 21”, afirma.

A meta pode parecer inatingível, mas a Copa do Mundo é um exemplo, em pequena escala, de ser possível alcançá-la. É uma competição entre nações onde as pessoas têm muita lealdade a seus times”, diz Harari. Mas é graças a regras aceitas por todos, os jogos acontecem. “Se você gosta da Copa é um globalista.”

O historiador considera os problemas e interesses globais precisarem ganhar peso nas estruturas das nações, e para isso, a política é fundamental. Harari acha, ao definir seu voto, o cidadão precisa fazer quatro perguntas aos potenciais candidatos:

  1. se eleito, quais serão as providências para reduzir riscos de guerra nuclear;
  2. o que fará em relação à mudança climática;
  3. como vê a regulação de tecnologias disruptivas como inteligência artificial e bioengenharia; e,
  4. finalmente, qual é a sua visão de futuro, para 2050.

Se não entenderem essas questões, se não forem capazes de formular uma visão com significado para o futuro, “não votem neles”, diz Harari. O capitão não teria nenhum voto!

O mundo necessita de diretrizes para enfrentar problemas trazidos pelo desenvolvimento tecnológico disruptivo para o significado da vida. Segundo Harari, está a caminho uma era quando a vida orgânica e a evolução natural podem ser substituídos pela vida inorgânica, moldada pelo design inteligente. “Será a maior revolução na história da biologia”, diz. “Precisamos adotar uma perspectiva global, talvez cósmica.”

O mundo em transformação na visão do biólogo evolucionário americano Jared Diamond tem à frente quatro grandes ameaças:

  1. o risco de guerra nuclear,
  2. a emergência climática,
  3. o esgotamento dos recursos naturais e
  4. a desigualdade entre países, e dentro deles.

Mesmo assim, Diamond, 82 anos, um dos mais importantes intelectuais contemporâneos, não perde a esperança de o cenário sombrio ser revertido por sociedades mais conscientes, empresas mais sustentáveis e governos mais comprometidos em reconhecer crises nacionais. Tudo isso ao lado de instituições mundiais capazes de equacionarem as ameaças globais.

Foi o paralelismo entre a descrição dos grandes riscos globais e o otimismo que o mundo possa resolver tais crises, exposto por Jared a uma plateia de mil pessoas reunidas no Teatro Santander, em São Paulo.

Geógrafo, historiador e conhecido como o autor de “Armas, Germes e Aço”, Diamond falou durante 40 minutos durante o evento “Cidadão Global” promovido pelo Valor e pelo Santander. Dividiu o evento, uma reflexão de como pensar o século XXI, com o historiador israelense e autor de best-sellers Yuval Harari. O projeto “Cidadão Global” foi iniciado em 2017 ao trazer o ex-presidente americano Barack Obama.

Bem-humorado, vestindo gravata vermelha estampada com pequenos dinossauros dourados, Diamond conquistou o público nos primeiros minutos. Avisou ser sua primeira visita ao Brasil. Ele chegara às 7h30 da manhã e iria embora às 22h00. “É uma visita imoral”, brincou. “Mas amanhã é aniversário da minha mulher. Seria imprudente não estar lá”, justificou. “São apenas 14 horas aqui”, contou, alegrando-se contudo com a possibilidade de avistar algumas espécies de pássaros, ouvir a língua portuguesa e ter “alguma noção dos brasileiros”.

Em seu último livro, “Reviravolta: Como Indivíduos e Nações Bem-sucedidas se Recuperam das Crises” (lançado pela editora Record), Diamond faz um estudo comparativo entre pessoas e países diante de crises individuais e nacionais. Ele agrega a dimensão psicológica às crises políticas nacionais e conta os casos de sete países onde viveu ou tem mais conexão – Estados Unidos, Alemanha, Finlândia, Austrália, Chile, Japão e Indonésia.

Escolheu Japão e Estados Unidos em sua palestra. Deu exemplos de como o Japão superou a crise de ter que abandonar séculos de isolamento e se abrir para o Ocidente a partir de julho de 1853.

“O Japão mudou drasticamente, transformou-se em um país moderno e industrial”, disse. “O primeiro passo foi reconhecer a crise e aceitar o fato de que o país não iria resistir sem mudar.”

Comparou a performance japonesa com a crise atual americana. “Meu país não tem sido tão bem sucedido no equacionamento da crise”, disse o professor da Universidade da Califórnia lembrando a polarização e o colapso do comprometimento político resultarem na menor aprovação da história de leis pelo Congresso.

Contou perversidades do sistema eleitoral americano, onde votar tem sido dificultado por normas estaduais. “No Alabama, um Estado republicano, há muitos afrodescendentes e escolheriam candidaturas democratas. Mas ali, para votar, tem de se apresentar a carteira de motorista. Isso torna difícil, às vezes impossível, para estes eleitores votarem”.

Diamond mencionou a profunda desigualdade americana. “Nós americanos falamos dos Estados Unidos como sendo a terra da oportunidade, mas a realidade é os EUA serem um dos países mais difíceis de se ter alguma mobilidade econômica e social.”

Ao se referir à desigualdade entre países, disse a globalização ter tornado mais difícil a coexistência entre nações pobres e ricas – as últimas temendo ser afetadas por atos terroristas e doenças existentes na outra parte do mundo. “Além disso, a desigualdade quer dizer imigração e esta não para.”

O Brasil não é foco de seus estudos, mas Diamond disse ler sobre o país. “O Brasil corre risco de um suicídio econômico se não gerenciar direito suas florestas”, opinou o biólogo evolucionário.

Terminou sua fala dizendo estarmos diante de uma corrida de dois cavalos. O primeiro é o da destruição, que vai muito rápido. O outro é o da sustentabilidade ecológica. “Não estarei vivo em 2050, mas meus netos, sim”. Disse ter esperança na vitória do cavalo do lado certo do páreo.

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