Correntes Teóricas e Fundamentos da Análise Pós-keynesiana

O artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, é de autoria de Jean-François Ponsot, Doctor en Ciencias Económicas de la Université de Bourgogne y University of Ottawa, Director del Centro de Investigaciones en Economía de Grenoble CREG – Université Grenoble Alpes.

Ele trata da herança de Keynes na análise econômica pós-keynesiana e sua contribuição na heterodoxia contemporânea. Também propõe uma análise da Escola Pós-Keynesiana com base nas cinco correntes: Fundamentalistas, Kaleckianos, Sraffianos, Institucionalistas e Kaldorianos. Mostra a existência de uma base comum dessas abordagens em torno de de cinco pressupostos brevemente expostos. Finalmente, questiona a crítica pós-keynesiana a modelos macroeconômicos padrão de críticos neo-keynesianos. Estes, em conjunto com regulacionistas e institucionalistas, radicalizaram seu discurso desde a crise financeira global (Stiglitz, Krugman, Blanchard).

O pós-keynesianismo (PK) é uma escola heterodoxa de pensamento econômico. Ela se desenvolve em meados da década de 1950. Suas origens estão nas reações críticas às obras de John Maynard Keynes. Foram, em especial, reações à Teoria Geral, obra publicada em 1936, mas antes ainda com as reflexões críticas contribuídas por um grupo de jovens economistas de Cambridge agrupados em The Circus, depois da publicação do livro A Treatise on Money, em 1930. No entanto, é necessário esperar, até início da década de 1970, para essa escola de pensamento assumir o nome de pós-keynesianismo.

Seus principais representantes foram qualificados, antes, como neo-keynesianos, ou reagrupados e rotulados de membros “Escola Anglo-Italiana” ou “Escola de Cambridge” da Economia keynesiana. Essas últimas escolas ganharam popularidade com os modelos de crescimento e distribuição de Kaldor – Pasinetti (Baranzani & Mirante, 2013), propondo uma alternativa à teoria neoclássica baseada na produtividade marginal. O objetivo principal era concluir o trabalho de Keynes, integrando a acumulação de capital e a análise de longo prazo sob a influência de Joan Robinson (1956).

Embora seja verdade Nicholas Kaldor e Joan Robinson às vezes falarem da abordagem pós-keynesiana, são as trocas de correspondência entre Alfred Eichner e Joan Robinson, no início dos anos 70, a maior fonte de divulgação do nome dessa escola de pensamento. Jan Kregel (1973) a incluiu como subtítulo de seu trabalho dedicado à Escola keynesiana de Cambridge. Eichner e Kregel (1975) retomam a expressão no título de seu estudo publicado no Journal of Economic Litterature. Finalmente, no palco decisivo, Paul Davidson e Sydney Weintraub criam o Journal of Post Keynesian Economics em 1978.

Vários autores pós-keynesianos (PK) conduziram estudos nos quais propõem a história do pensamento pós-keynesiano. O exercício se torna difícil por causa do fato da ausência de coesão completa no PK para se impor tanto no plano teórico quanto no metodológico. Então, não é surpreendente ter uma infinidade de classificações de correntes e fundamentos da análise PK.

A classificação das correntes PK mais conhecidas é a realizada por Hamouda e Harcourt (1988). Ela permite a distinção de três ramos complementados aqui com a ajuda dos trabalhos de Arestis e Sawyer (1993), Arestis (2013), Lavoie (2011), Lavoie (2014), Hein & Lavoie (2014); e King (2015):

  1. Os Pós-Keynesianos norte-americanos, também chamados PK Marshallian (Arestis & Sawyer, 1993), fundamentalistas do PK (Lavoie 2014, King 20153), keynesianos financistas ou ainda reagrupada na Keynes School (Davidson, 1982). Seus tópicos de pesquisa privilegiam a economia monetária de produção, instabilidade e fragilidade do sistema financeiro, preferência de liquidez e incerteza fundamental. Hamouda & Harcourt (1983) os qualificam como PKs “americanos”. Os primeiros representantes dessa corrente (Hyman Minsky, Sydney Weintraub, Paul Davidson, Victoria Chick, Basil Moore) têm origens ou foram formadas nos Estados Unidos. No entanto, seus representantes atuais (por exemplo, Fernando Carvalho, Giuseppe Fontana, Jan Kregel, Edwin Le Héron) também pertencem a outras regiões.
  2. Os Kaleckianos, em torno de Joseph Steindl (aluno de Kalecki) e Joan Robinson, para quem as obras de Kalecki foram mais enriquecedoras do que os de Keynes, pois pretendiam construir uma teoria alternativa à de Keynes, onde se distinguiu, corretamente trabalhadores e capitalistas na teoria geral do emprego, juros e dinheiro, mas os Kaleckianos consideraram ele não haver examinado todas as consequências desta distinção essencial, ao contrário de Kalecki. Este ramo corresponde à Robinsoniana na tipologia dirigida por Arestis (1996). Na atualidade, essa corrente é muito profunda. É um grupo em volta em particular de Malcolm Sawyer, Amitava Dutt, Engelbert Stockhammer, Eckhard Hein, Robert Blecker, Steve Fazzari, Lance Taylor, Jan Toporowski, etc. Entre eles, destacam-se os tópicos de pesquisa privilegiados por esta atual corrente em torno de ciclos econômicos, crescimento, teoria dos preços. Empresta especial atenção aos conflitos de distribuição de renda e, de perspectiva mais marxista, na formação do lucro. Note-se grande parte das obras kaleckianas são enquadradas, sob um ponto de vista empírico, na visão um tanto caricatural pela qual a PK seria relutante em usar instrumentos quantitativos.
  3. Os sraffianos ou neo-ricardianos, ou seja, os herdeiros de Piero Sraffa, estão localizados na sequência de Luigi Pasinetti e Piero Garegnani. O foco é concentrado nos preços relativos dos sistemas de produção multissetoriais, opções tecnológicas, teoria do capital e desequilíbrios de longo prazo. A inclusão dessa corrente nem sempre teve consenso entre o PK. Por exemplo, John E. King (2015) não os integra na tipologia. Mas, globalmente, eles são cada vez menos credíveis. Deve-se dizer: as controvérsias sobre a teoria do capital pela escola keynesiana de Cambridge, na década de 1960, é a consequência direta dos críticos sobre o trabalho Sraffa. Existe, então, uma forma de patrimônio histórico em relação entre Sraffa e o PK. Por outro lado, a maioria dos sraffianos contemporâneos (em particular, Gary Mangiovi, Massimo Pivetti e Franklin Serrano) compartilham as mesmas posições que os PKs no relacionamento de causalidade entre investimento (I) e poupança (S), o papel da demanda efetiva de curto e longo prazo e a endogeneidade da oferta de dinheiro. Recentemente, houve o surgimento de convergências em pontos de vista de uma parte do trabalho da PK sobre o meio ambiente e a ecologia e, por outro lado, na análise de sistemas de produção multissetorial dos sraffianos, particularmente adaptado à evolução do impacto da produção sobre o uso de recursos naturais e a contaminação poluente.

A classificação de Hamouda e Harcourt (1988) tem a vantagem de ser simples. No entanto, tem três principais desvantagens.

Primeira, ela focaliza a priori os autores anglo-saxões, enquanto a Escola PK agora agrupa pesquisadores da Europa continental, latino-americanos, asiáticos, etc.

Segunda, esqueceu alguns autores de PK como chefes de linha ou fluxo. Eles acrescentaram um novo ramo na classificação: Galbraith, Kaldor, Goodwin, Pasinetti, Godley, os circuitoistas, etc. Vamos parar por um momento sobre estes últimos para ilustrar os limites da taxonomia de Hamouda & Harcourt.

Trazidos por Graziani, Parguez, Barrere, Poulon e Schmitt, os circuitoistas estão próximos da corrente “americana” ou “fundamentalista”, segundo Lavoie (2014, p. 39). Mas eles são mais europeus em lugar dos “americanos” e, acima de tudo, eles têm muitos pontos em comum com a segunda corrente, a dos Kaleckianos (Arestis e Sawyer 1993, Lavoie 2014). Circuitoistas concordam em dar importância às instituições (a endogeneidade da moeda é uma hipótese central e o circuito repousa sobre a articulação próxima entre os três “polos” bancos, empresas e famílias) e aos relatórios de energia. Simplesmente, esses temas são cancelados no estabelecimento das prioridades das três filiais da Hamouda & Harcourt. Então, é possível exigir ou classificar, em resumo, os circuitistas nessa classificação?

Finalmente, as três correntes de Hamouda e Harcourt (1988) excluem, como será visto mais adiante, autores a priori relacionados a outras escolas heterodoxas. Porém, seus trabalhos convergem mais ou menos com os fundamentos do Programa de Pesquisa Científico do PK. Entre outros, destacam-se Veblen, alguns institucionalistas, reguladores, os (neo) estruturalistas, etc.

Levando em consideração essas deficiências, é conveniente remodelar a classificação dos autores do PK. Além das três correntes mencionadas, Ponsot se propõe adicionar duas outras correntes, a dos Kaldorianos, considerando Lavoie 2014 e Hein & Lavoie 2015, e dos PKs institucionalistas, como Arestis e Sawyer 1993, Arestis 1996, Lavoie 2014, Hein & Lavoie 2015.

  1. Os Kaldorianos encontram os fundamentos de sua análise em Nicholas Kaldor, Roy Harrod, Richard Goodwin, John Cornwall e Wynne Godley. Os itens privilegiados são crescimento econômico, processos cumulativos, regimes de produtividade, restrições monetárias. Deve-se enfatizar a ênfase dada às restrições na economia aberta, como restrição do balanço de pagamentos. A metodologia utilizada se apoia na identidade macroeconômica fundamental vinculada ao saldo financeiro, saldo privado entre poupança e investimento, déficit público e saldo de transações correntes: (S-I) + (T-G) = BTC. Isso é baseado no trabalho formalizado inicialmente por Wynne Godley, depois no Departamento de Economia Aplicada (Universidade de Cambridge) e no Instituto Levy.

Os herdeiros dessas abordagens fundadoras são, por exemplo, Mark Setterfield em Macroeconomia, ou Anthony Thirlwall em Economia do Desenvolvimento. Semelhante aos Kaleckianos, os Kaldorianos recorrem em abundância a métodos empíricos e modelagem. Um caso particular é a Modelagem SFC (modelos coerentes de fluxos e estoques), desenvolvida de forma extensa na França pela geração jovem do PK.

  1. PKs ​​institucionalistas: a inclusão da abordagem institucionalista é relativamente recente, porque vem dos anos 90. Arestis & Sawyer (1993) dizem eles se referirem a Thorstein Veblen e citam Hodgson. Consideram a ponte com o PK poder contribuir para fornecer ferramentas, conceitos e métodos bem utilizados para consolidar a microeconomia PK. Fred Lee (1998) adota essa perspectiva. Outros fatores contribuíram para a abordagem. A admissão ao Journal of Post Keynesian Economics de John Kenneth Galbraith, sem dúvida, desempenhou um papel decisivo, bem como a divulgação nos círculos PK das obras de seu filho James Galbraith.

Outra conexão está na análise de convenções e a abordagem institucionalista monetária francesa. Ela se concentra nos comportamentos miméticos. Os trabalhos de André Orléan (1998) sobre a imitação de antecipações e racionalidade auto-referencial sobre mercados financeiros caracterizam o trabalho de Keynes sobre especulação, em A Teoria Geral do Emprego, Juros e Dinheiro, em particular sua metáfora do concurso de beleza.

A abordagem MMT (Modena Teoria Monetária), relativamente recente, é ativa e empregada por PK institucionalistas contemporâneos. Ela se inspira em três grupos de autores:

  1. os chartalistas, no início do século XX (Knapp, Innes);
  2. a Teoria das Finanças Funcionais, construída por do Abba Lerner na década de 1940; e
  3. a Teoria da Instabilidade Financeira, elaborada por Hyman Minsky.

Trazido por Randall Wray, Eric Tymoigne e Pavlina Tcherneva, a abordagem MMT se concentra na relação institucional entre o governo e o Banco Central, as informações dadas pelos agentes econômicos com o uso da moeda, a organização de sistemas de pagamento e os “regimes monetários soberanos” (Wray, 2012). Ele se pergunta sobre a capacidade do Estado de gerar ações e instituições capazes para alcançar o pleno emprego (Fullwiller, 2003). Finalmente, esta abordagem fornece uma visão radical do financiamento por emissão monetária do déficit orçamentário e deduz uma Teoria do Estado através da atuação do Banco Central como emprestador de último recurso (EDR), além da ideia do salário universal fixo.

Cinco correntes de pensamento compõem a Escola PK. No entanto, é conveniente medir os problemas enfrentados por qualquer taxonomia: esse processo tende, com efeito, isolar os autores em caixas rotuladas [inclusive para constituir “câmeras de ecos”, “bolhas impermeáveis ao debate contraditório” e meios de ascensão na carreira profissional através de troca de favores, citações e convites] e conceder uma visão estática da escola de pensamento.

Em geral, no debate científico e público, os autores evoluem e outros novos aparecem. Por outro lado, alguns elaboram suas obras sem preocupação de ocupar um único quadrado e “pensar fora-da-caixa”, como foi visto, por exemplo, com os circuitoistas.

Outro exemplo revela um problema de consistência nessa classificação: alguns autores PKs institucionais, como as do MMT, por exemplo, referem-se fortemente a Minsky, o último está organizado na primeira categoria, a dos fundamentalistas.

Isto visto, se deve considerar o ecletismo e a pluralidade dos autores da PK, apesar da evidência de cinco correntes bem identificadas. Esse fenômeno de hibridação também se refere a PKs seniores (por exemplo, Philip Arestis, Geoffrey Harcourt, John E. King, Edward Nell, Steve Keen) e juniores (como Louis-Philippe Rochon, Matias Vernengo, Sergio Rossi ou Matthew Forstater). Estes atestam a riqueza e variedade de obras contemporâneas de PK.

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