Como organizar as Finanças Pessoais e começar a investir?

Entrevista concedida a Fábio Gallacci (Portal do Banco Safra) em 08/01/20:

1 – Gastos no final do ano, muitas contas chegando em janeiro, impostos, fatura do cartão de crédito…como evitar o descontrole das contas nessa época de retomada da rotina?

Não há como evitar o descontrole das contas de gastos já efetuados a serem ainda pagos. Para todos os gastos, é necessário planejamento financeiro. No caso desses sazonais, antes de ocorrerem. Por exemplo, no caso de IPVA e IPTU, respectivamente, em janeiro e fevereiro, têm de ser previstos com uma reserva adequada para pagá-los.

Pense: “o tempo de minha vida ativa será 35 anos, mas poderei viver mais 20 anos em vida inativa. Então, para manter o padrão de vida alcançado, terei de desdobrar o ganho em um ano para manter-me quase por dois. Para isso, necessito Educação Financeira”.

Em Finanças Comportamentais, aprendizagem de um comportamento racional significa “domesticar os instintos primários”. Com esse autocontrole mental se evita gastos de consumo sob impulso emocional – e não por necessidade básica.

Faça um Orçamento Pessoal/Doméstico e estabeleça metas financeiras. Quando se aposentar, o patrimônio líquido deve ser nove vezes a receita total líquida recebida anualmente, após descontos tributários e previdenciários, em todas as fontes de renda.

O algoritmo denominado “1-3-6-9” sugere acumular, para manter o padrão de vida (ou de consumo) na aposentadoria, nove vezes a remuneração anual aos 65 anos. Com esse valor, é possível um saque mensal por cerca de vinte anos (240 meses) no mesmo valor presente da receita total líquida, supondo juros de 0,5% a.m. para capitalizar o saldo do capital financeiro.

2 – Existe alguma “fórmula” para equilibrar os gastos? Há como fugir do cheque especial, por exemplo?

Nunca faça dívidas para consumo, apenas para investimento em residência ou em ativos produtivo, por exemplo, um carro para utilizar como taxi/Uber. Você tem de receber juros do banco e não pagar juros.

A fórmula é: Receitas – Investimento Planejado = Despesas. Depois de realizado o investimento, por exemplo, com 20% da receita pessoal, planeje os gastos essenciais e evite os supérfluos dentro do valor restante. Adeque seu padrão de vida. Lembre-se: lazer é essencial dentro do planejado, não além dele.

 

3 – O que cortar primeiro para voltar a uma situação mais estável?

Se tiver dívida, o objetivo principal é liquidá-la, para ter uma vida financeira saudável. Se não tiver fluxo de renda suficiente, para pagar a dívida, troque de carro (ou outro patrimônio) por um mais barato ou venda e passe a usar Uber/transporte público.

Jamais faça outra dívida para consumo. Para adquirir moradia, só se for com prestação inferior ao aluguel de imóvel similar. No início do contrato de financiamento habitacional, o máximo de comprometimento da renda deve ser 30%, mas objetivando uma queda relativa durante o prazo até o vencimento.

 

4 – Com a situação equilibrada, a pessoa já pode começar a pensar em investir para ampliar seus rendimentos?

Desde logo, isto é, a partir do início da vida profissional a pessoa tem de planejar seus investimentos financeiros. Quem ganha acima do teto do INSS (R$$ 6.033 em 2020) está entre os 10% mais ricos do país e, geralmente, possui Educação Superior. Necessariamente, para manter seu padrão de vida durante a aposentadoria, ela tem de investir.

Mentalizando essa meta, evitará “rasgar dinheiro”, por exemplo, em troca contínua de carros para demonstração de status social. Ou fazer viagem cara para tirar selfie simplesmente com a pretensão de demostrar uma falsa “exclusividade” e/ou “esnobismo”.

 

5 – Há uma alguma “porcentagem” do orçamento que pode ser separada para investir sem comprometer o orçamento e colocar a pessoa em situação difícil novamente?

Para alcançar a meta, inicialmente, separe no mínimo 20% da renda pessoal líquida e, depois, adeque seu padrão de vida aos 80% restante.

Ao fazer isso, por exemplo, nos dez primeiros anos de sua carreira como graduado/analista, recebendo R$ 5.000, investirá R$ 1.000 com juros médios de 0,5% ao mês. Conseguirá acumular R$ 164 mil. Isto será quase três vezes acima de um salário anual exigido até os 35 anos pelo algoritmo 1-3-6-9.

Com o título de mestre/gerente, ganhará cerca de R$ 10.000 e somando àquele valor o investimento mensal de R$ 2.000 por mais dez anos, acumulará R$ 625 mil.

Tornando-se doutor/supervisor com salário de R$ 15.000, investirá mais R$ 3.000 mensais por 15 anos e atingirá o saldo R$ 2,4 milhões. Com esse valor acumulado em capital financeiro poderá retirar R$ 17.200 por vinte anos (240 meses), mantendo o mesmo padrão de vida atingido no fim da carreira profissional.

 

6 – Para uma pessoa novata no mundo dos investimentos, qual seria o passo mais adequado para esse começo?

O primeiro passo é adquirir Educação Financeira, seja em um curso, seja em leituras com autodidatismo. É necessário conhecer todos os riscos e os rendimentos potenciais dos produtos financeiros. Evite especular para ganhos de capital (“comprar barato, vender caro”) se não for profissional nesse ofício.

A meta estratégica da vida financeira é substituir os rendimentos do trabalho pelos rendimentos do capital financeiro, ou seja, o trabalhador assalariado se tornar “rentista” quando se aposentar.

 

7 – De um ponto de vista mais conservador, quais seriam as melhores opções de investimentos?

Conservadorismo em Finanças é bem-vindo; em Política, não. No Brasil, investimento prudente sempre será em renda fixa com juros pós-fixados acima da taxa de inflação. Quando houver tendência de baixa da taxa de juro, aplica-se em prefixados.

A primeira lição de vida financeira saudável é ganhar dinheiro no mercado de trabalho, investindo em sua reputação/titulação profissional. Investimento no mercado financeiro visa proteger o poder aquisitivo das reservas contra a corrosão inflacionária.

Para trabalhador por fora do mercado de capitais, vale mais a pena investir na formação escolar e/ou profissional em vez de se arriscar em obter ganhos de capital na alienação de ativos.

Duas posturas pessoais são importantes para obter um saldo líquido positivo para aplicação financeira:

  1. o investimento na carreira profissional, ascendendo na escala salarial via titulações e ganhando extras via reputação, reconhecimento e/ou prestígio para obter oportunidades de ganhos extras;
  2. o autocontrole das despesas domésticaspor todos os membros da família.

É prioritário o investimento na boa Educação dos filhos, em escola comunitária, onde os pais acompanham ativamente a evolução educacional deles, e em cursos de inglês. Gasta-se em média 15% da receita total líquida por filho, mas os capacita a ultrapassar a barreira dos vestibulares em Universidade pública de excelência com ensino gratuito.

Quando os filhos se tornam universitários, o gasto passa a ser com alimentação e moradia, inclusive aluguel, e planos de saúde, em outra cidade, no caso, o local do centro de excelência. A conta é mais ou menos 30% da receita total líquida, no mínimo durante 24 anos até cada filho ficar empregado ou independente.

Aquisição de uma moradia ou construção de casa própria dá muita segurança em “época de vacas magras”, seja de desemprego, seja de queda de renda real. Quando não se paga aluguel ou prestações de financiamento imobiliário, e deixa de ter gastos com educação dos filhos, após a meia-idade ou na entrada da terceira-idade, esse percentual da receita total líquida pode ser destinado à acumulação de capital financeiro, para os rendimentos deste substituírem os rendimentos do trabalho. Gastos com saúde substituem então os gastos com educação.

 

8 – Mais adiante, com os dois pés no mundo dos investimentos, quando a pessoa pode ser dar a chance de algo mais ousado? É uma questão apenas de personalidade ou é preciso ter mais “lastro” para isso?

As pessoas com Educação Superior começam suas vidas profissionais, geralmente, na faixa dos 25 anos de idade, ganhando pouco.

Após os 35 anos, entram em seu estágio de maior ascensão profissional com promoções e aumentos salariais. Isso propicia maior acumulação do patrimônio. As obrigações familiares, nesta fase da vida, costumam não ser tão grandes.

Com 45 anos (e “a crise de meia-idade”), já com filhos, começam a ficar mais conservadoras, com foco maior na preservação do patrimônio já acumulado.

Com 55 anos, a curva de crescimento de ganhos de capital, por causa da suposta relação proporcional entre risco e retorno, começa a cair.

Assim segue até chegar na idade da aposentadoria aos 65 anos. Nela, supostamente, a pessoa para de acumular patrimônio e começa a usar o antes acumulado para sua subsistência. Aí, aquela curva reverte, apontando para a exaustão do patrimônio líquido financeiro.

Em resumo, a aversão ao risco de cada investidor é variável ao longo dos ciclos da vida. Ela determina o percentual de aplicações em ações, ou seja, renda variável considerada arriscada e/ou ganho de capital incerto dentro da carteira de investimentos financeiros. Uma dedução prática é:

  • entre 25 e 35 anos: 30% em ações;
  • de 35 a 45 anos: 20%;
  • de 45 a 55 anos: 10%;
  • após 55 anos: 0%.

 

9 – Quais os investimentos o senhor aconselharia para quem quer voar mais alto, mas sem irresponsabilidades?

Aconselho investir em Educação Financeira em simultâneo com investimentos na formação para ter uma carreira profissional de alta reputação. Ganha-se muito mais, sem riscos proporcionais, com a renda do trabalho em lugar dos rendimentos do capital financeiro em juros e/ou da especulação para ganho de capital.

Para trabalhadores em geral – e não profissional do mercado de capitais –, ganha-se com seu trabalho e protege-se o poder aquisitivo do patrimônio líquido acumulado no mercado financeiro. Trata-se de avaliar periodicamente o portfólio para verificar se seu poder aquisitivo está superando a corrosão inflacionária. Senão, “rebalancear”, isto é, faça nova seleção em sua carteira de ativos.

Investimento financeiro para não profissionais do ofício destina-se a não perder – e não a “ganhar dinheiro de maneira fácil” (ou “voar mais alto”). Evite arriscar a perder seu dinheiro acumulado com muito custo em horas de trabalho.

 

10 – Se tiver mais algo que o senhor queira falar e eu não perguntei, por favor, fique à vontade…

Vale sempre fazer contas com valores nominais – e não decidir com base em apenas pequenas diferenças percentuais, tipo % de CDI baixo. O ganho representa muito pouco em termos nominais.

Por exemplo, para ganhar R$ 5.000 por mês – um salário típico de recém-formado em Ensino Superior – em juros mensais de 0,5%, o trabalhador necessita ter acumulado um milhão de reais.

Com esse salário a pessoa já está entre as 10% mais ricas em renda do país. Para entrar no grupo de 5% mais ricas, terá de ganhar R$ 10.000 por mês com maior titulação e/ou experiência profissional. Em juros de 0,5% a.m. representaria ter acumulado dois milhões de reais.

Para chegar no topo da pirâmide social (1% mais rico), em renda do trabalho teria de ganhar R$ 30.000, o que conseguiria obter em juros de 0,5% se tivesse acumulado seis milhões de reais. Nesse caso, seria um cliente do Private Banking. Existiam 120 mil clientes nesse segmento em novembro de 2019. Em média per capita, cada qual possuía R$ 10,5 milhões.

Esses investidores ricaços tinham 23,2% de seu volume financeiro total (R$ 1,259 trilhões) investidos em fundos de ações (7,2%) e renda variável (16%), ou seja, diretamente em ações e clubes de investimento. Suas 57 mil famílias, em sua maioria, não serão herdeiras? Ou os chefes-de-família serão self made man com ações das próprias empresas?

É o caso de os trabalhadores investirem nessas empresas ou como seus proprietários investem? Investir de 1/5 a ¼ de seu dinheiro em risco (volatilidade de cotações), em uma economia instável e dependente como a brasileira, é prudente?

Conseguiriam todos eles os 32% da valorização da bolsa de valores alcançado pelo índice Bovespa em 2019? Em média per capita, os investidores de 26 a 35 anos têm saldo de R$ 39.635; de 36 a 45 anos, R$ 112.363; de 46 a 55 anos, R$ 273.856; de 56 a 65 anos, R$ 444.553; acima de 65 anos, R$ 924.133.

Grosso modo, a excepcional valorização em percentual (32%), se fosse distribuída de maneira uniforme em valores nominais no ponto-de-chegada — embora o número de investidores tenha dobrado com entradas durante o ano –, representaria para cada qual, respectivamente, ganhar R$ 12.683; R$ 35.956; R$ 87.633; R$ 142.256; e R$ 295.722. Esses valores (proxies) não poderiam ser obtidos com rendimentos do trabalho sem risco por cada pessoa dessas faixas de idade e de riqueza?

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