Bolha de Ações Infladas por Pessoas Físicas em Fuga da Renda Fixa para Renda Variável

Rita Azevedo (Valor, 20/01/2020), finalmente, resolve tratar de um alerta feito há muito tempo por este modesto blog pessoal.

Um investidor PF ganha a alcunha de acionista quando passa a diversificar seus investimentos, repetindo um movimento crescente entre os brasileiros frente à queda da taxa básica de juros e à melhora das perspectivas econômicas. O avanço começou a ganhar corpo em 2017 e acelerou no ano passado, com:

  1. a popularização de plataformas de investimento,
  2. o crescimento de casas de análise independentes e
  3. a chamada “FinTwit”, uma comunidade composta por analistas, gestores e “traders” a usarem a rede social Twitter para discutir diariamente o comportamento do mercado financeiro.

Somente em 2019, a bolsa somou cerca de 865 mil novas contas de investidores pessoa física, alcançando a inédita marca dos 1,67 milhão. Desde 2017, o crescimento foi de 171%. Se isto não é uma bolha inflada por profecia autorrealizável, quando há a “sorte do iniciante” ao entrar em mercado de ações em alta, o que é então?!

Além da Via Varejo, outras companhias registraram forte avanço de investidores individuais em suas bases. Na empresa de softwares Linx, o número aumentou nove vezes, para pouco mais de 5,8 mil pessoas. No banco BTG Pactual, o crescimento foi de cerca de 800%, para 12,2 mil investidores. Na administradora de benefícios e no grupo de medicina diagnóstica Fleury o aumento foi de cerca de 500%, para 26,5 mil e 85,8 mil, respectivamente. O Carrefour registrou a maior queda, de 29%, para 3,3 mil, seguido pela Tenda, com recuo de 28%, para 7,9 mil pessoas.

No levantamento, foram usados dados de empresas cujas ações compõem o IBRX 100, índice que reúne os papéis com maior representatividade e liquidez da B3. Foram desconsiderados os dados de duas empresas (SLC Agrícola, e Lojas Americanas) devido à divergências nos dados, além de companhias que não eram listadas em 2017. Os números foram retirados dos formulários de referência de 2019 e dos documentos de 2017.

No caso da Via Varejo, o crescimento no número de acionistas pessoa física foi influenciado pela compra de uma participação pela gestora de investimentos XP, cerca de 7% do capital social, em junho de 2019. A empresa ganhou mais visibilidade com a mudança na gestão e com as perspectivas de recuperação financeira.

Para o BTG Pactual, o aumento de investidores individuais acompanhou a valorização de 235% dos seus papéis em 2019 — a segunda maior alta do Ibovespa no ano, atrás apenas das ações da Qualicorp e acima dos papéis da Via Varejo.

O aumento significativo do número e participação de pessoas físicas no nosso capital dá bastante orgulho (e lucro), principalmente porque corrobora o movimento de especulação dos investidores e ilusória democratização do mercado de capitais brasileiro. A publicação do formulário de referência, em junho de 2019, até meados de dezembro, foi registrado acréscimo de 80% no número de investidores individuais, para 22 mil.

Pesquisa recente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra a possibilidade de receber dividendos e juros sobre capital próprio é um dos fatores ilusionistas capaz de levar investidores a aplicar em ações. Só nos últimos dois anos, o grau de interesse dos jovens brasileiros, em início de carreira profissional e buscando se enriquecer rapidamente, pela palavra “dividendo” em pesquisas no Google aumentou 275%, segundo informações do Google Trends.

O acionista pessoa física tem uma predileção maior pelo recebimento de proventos e vê como mais atraentes os papéis pagadores de dividendos, ao explicar o aumento de 282% no número de investidores pessoa física na Itaúsa nos últimos dois anos. “Como uma holding, somos reconhecidos no mercado como bons pagadores de dividendos”. O número de pessoas físicas a investir em ações da empresa ligada ao maior banco privado brasileiro soma 218,1 mil.

Por muito tempo, uma das metas da bolsa brasileira era os investidores pessoa física chegassem a 5 milhões. O número foi estabelecido por Raymundo Magliano Filho, presidente da então Bolsa de Valores de São Paulo de 2001 a 2008, e adotado também por Edemir Pinto. Este respondeu pela presidência de 2009 a 2017. Fracasso total!

Hoje, depois de retumbante fracasso, a B3 não trabalha com metas, mas vê oportunidades de crescimento com a migração de investidores da renda fixa para a variável. “No Brasil há mais de 20 milhões de brasileiros com mais de R$ 5 mil na poupança”, diz o ilusionista. “A melhora do cenário macroeconômico é o que vai guiar essa transição para a renda variável.”

Ele acha o público-alvo de PF ser depositante de poupança!

A bolsa brasileira tem se movimentado para facilitar essa transição. No início de janeiro, a B3:

  1. zerou a tarifa mensal de manutenção de conta de custódia,
  2. isentou tarifas sobre o valor em custódia e sobre o processamento de proventos financeiros para investidores com valor em custódia inferior a R$ 20 mil e
  3. simplificou a cobrança por meio do abatimento das tarifas do fluxo de proventos.

“Essas alterações buscam estimular o crescimento da base de investidores pessoas físicas com a remoção de tarifas fixas e isenção para pequenos investidores”, disse a companhia em comunicado divulgado à época.

Em termos absolutos, as empresas com o maior número de acionistas pessoa física no Brasil são Telefônica e TIM. Juntas, as duas têm mais de 3,1 milhões de CPFs em suas bases. O número alto é explicado porque também foram consideradas as pessoas que, no passado, receberam ações da Telebrás ao comprar linhas telefônicas. Com o desmembramento da Telebrás, elas passaram a compor a base de investidores de outras empresas de telefonia. O Valor questionou a Telefônica e a TIM sobre o número de investidores ativos, a negociarem atualmente na bolsa, mas o dado não foi divulgado.

Desconsiderando empresas de telefonia, as maiores bases de pessoa física estão obviamente nas mais conhecidas corporações brasileiras, resultando na chamada “diversificação ingênua“:

  1. Banco do Brasil, com 447,3 mil,
  2. Petrobras, com pouco mais de 360 mil, e
  3. Bradesco, com 341 mil.

Nos últimos dois anos, essas companhias registraram aumento de 35%, 29% e 4% respectivamente, no número de investidores individuais.

Adriana Cotias (Valor, 20/01/2020) avalia: o fortalecimento do mercado de capitais brasileiro passa pela pessoa física e a estratégia da B3 é fomentar a chegada desse investidor. Do saldo de R$ 2,8 trilhões em renda variável na depositária de ativos da bolsa, a pessoa física responde por cerca de R$ 345 bilhões, ou só 12% do total, o que ainda é muito pouco. Com o tempo, a expectativa é “a distribuição da pizza” ficar mais equilibrada.

É o começo de um movimento com o potencial de continuar até a bolha inflar demais e explodir, desinflando. No Brasil, nos portfólios em geral, direta ou indiretamente, a alocação é baixa, a própria alocação dos fundos [em ações] é muito pequena.

A B3 tem um olhar para o investidor individual. A diferença, agora, é as condições macroeconômicas serem mais favoráveis ao desenvolvimento do mercado de risco especulativo – com a Selic na mínima histórica, em 4,5% ao ano, e o menor peso do crédito subsidiado na economia. O brasileiro, desacostumado a reveses habituais na economia de mercado de capitais, vai ter de aprender a conviver com outros riscos. Os ilusionistas dizem: os tempos de alto retorno em ativos líquidos e de curto prazo são “página virada”.

Faz parte do trabalho de inflar bolha de ações trazer o investidor PF para a bolsa. Não adianta explicar o risco, para ele ter a percepção de na renda variável a expectativa de retorno é acima da renda fixa, mas com imensos solavancos, não é uma linha reta. Internamente, a avaliação da bolsa é o movimento de migração estar apenas no começo até os juros subirem por conta de um choque cambial virado choque inflacionário..

O executivo diz observar principalmente a entrada de investidores com tíquetes mais baixos, ou seja, fora do perfil visto até aqui da alta renda. Foi nesse contexto quando a B3 adotou uma nova política de tarifação, isentando a taxa de custódia mensal. Algumas corretoras já assumiam essa tarifa, mas o executivo diz que ao aliviar o custo de captação dos intermediários, a bolsa promove o aumento do número de CPFs. Mesmo com a criação de uma taxa, de 0,12% para o processamento de proventos, no conjunto haverá um estímulo para os novos investidores.

A antiga política de tarifação trazia o legado de três estruturas diferentes — Bovespa, BM&F e Cetip –, era preciso fazer uma revisão, diz um gestor de recursos. Mesmo o incentivo dado à negociação de grandes investidores ele diz ser favorável para o mercado por fomentar a liquidez da bolsa.

O caminho típico do analista-investidor PF em busca da “sorte do iniciante” é com 18 anos (“maior”) já entrar na bolsa. Essa entrada precoce se dá após acompanhar o aparente sucesso de investidores no YouTube e em outras redes sociais quando se sente encorajado a entrar no jogo da renda variável.

Passa a testar a análise técnica – baseada em gráficos – para dar um aparente caráter de “ciência” à especulação: negociar mini contratos de Ibovespa e de dólar futuro em operações de compra e venda no mesmo dia. Em dado momento, perdeu qualquer merreca e sente no bolso as dores da pouca experiência.

Reconhece estar em começo de carreira, então pesa porque a perda chega à metade do salário, custa meio mês de trabalho. Ele não tem uma estratégia definida e a questão emocional influencia muito: você acaba de perder e quer recuperar, tem o objetivo de fechar com ‘x’ valor positivo e acaba se autossabotando.

Recém-formado em qualquer curso de Ensino Superior, mas sem dispor de Educação Superior, o fim do período “experimental” no mercado, coincide com a sua contratação por alguma empresa onde estagiava. Agora, com “o holerite mais gordinho”, o incauto em busca de enriquecimento fácil troca a ideia do lucro rápido e se dedica à leitura de relatórios das corretoras.

Passa a seguir gestores e analistas com perfil fundamentalista nas redes sociais e diz querer construir um patrimônio, tijolo a tijolo. A carteira ganhou viés de longo prazo e traz nomes de empresas como Energias do Brasil, Sinqia, BR Malls, Localiza, Magazine Luiza e Lojas Renner. Há ainda boa parte das suas economias, um total de R$ 7,5 mil, em Fundos de Investimentos Imobiliários (FII).

Ações, fundos imobiliários e de índices (ETF) foram destaque no incremento da pessoa física na bolsa no ano passado, com o número de CPFs mais do que dobrando, para 1,4 milhão, depois de um incremento de 27,8% em 2018. Os valores em custódia subiram 69%, a R$ 345 bilhões. O número de contas total encostou no 1,7 milhão, segundo a B3.

Apesar da aceleração do passo, a percepção de participantes do mercado é o movimento estar só no primeiro ato por conta de haver tempo ainda da bolha inflar mais, enquanto não houver um choque cambial inflacionário com resposta em alta da taxa de juros básica. Com a Selic na mínima histórica, em 4,5% ao ano, sobra dinheiro sem alternativas de renda fixa.

Daí a avaliação equivocada: a migração de todos os públicos para a renda variável ser “um caminho sem volta”. É uma ilusão completa por parte de quem nunca vivenciou uma bolha de ações.

A fatia do patrimônio em ações é comparativamente baixa em relação à economia norte-americana, único caso realmente de “economia de mercado de capitais”. Lá, a parcela investida em bolsa varia de 25% a 50%.

Pelos últimos dados da Anbima, do R$ 1,9 trilhão aplicado pelos investidores nos segmentos de varejo e varejo de alta renda, a compra direta de ações respondia por R$ 76,1 bilhões ao fim de novembro, ou menos de 4% do bolo. E mesmo no private banking, com um total de R$ 1,08 trilhão, havia R$ 147,1 bilhões em ações, uma fatia de 13,6%.

Em fundos, a categoria ações representava um total de R$ 496,8 bilhões, dos R$ 5,4 trilhões do setor ao fim de 2019. Há R$ 845,5 bilhões na poupança rendendo praticamente nada, mas sem tomar a direção equivocada da renda variável. Ela não será sem tropeços e perdas de renda do trabalho.

O Brasil sempre teve uma distorção pela baixa participação em ‘equity’, não só pela pessoa física, mas pelos investidores em geral. Com a queda do juro para um nível mais normal, o brasileiro recém-formado em Ensino Superior caminha para ter um portfólio mais parecido com o norte-americano.

Os ilusionistas dizem: “Ações deveriam ser algo natural, não de curto prazo para investimento especulativo. É participar do crescimento das empresas e fazer alocação permanente.”

Para o gestor, ganhador por estar antes comprado à espera dos iniciantes, o Brasil tem condições de pelo menos decuplicar a parcela investida na bolsa rapidamente, caminhando para a ter uma participação mais parecida com a de outros mercados.

Porém, em geral as pessoas acham serem mais tolerantes a risco face à realidade. De fato, só nos momentos de revés são capazes de perceberem não aguentarem. No fim, os jovens mimados reclamam: “mamãe nunca me contrariou!”

“Quando era garoto e fui pela primeira vez na montanha-russa no Playcenter, fui no primeiro carrinho e não tinha a menor ideia do que era aquilo. Só que quando veio a primeira descida, pensei que fosse morrer. Na bolsa vai ser assim, o investidor acha que tem pouca aversão a risco, mas só vai saber quando tiver a primeira correção.”

A melhor maneira de se acostumar com a volatilidade é estudar, encarar a renda variável como um projeto de aprendizado permanente. A cada ano, é de se esperar a bolsa ter pelo menos dois ciclos de queda de 10% em dólar. Esse é o tamanho de oscilação para cada investidor considerar como hipótese para medir qual parcela direcionar a opções de maior risco.

Ajuda na popularização do universo da bolsa o fato de, no passado, O Mercado tinha pouca relação com o dia a dia das pessoas, concentrado em commodities como Petrobras e Vale. Hoje, há vários exemplos de marcas visíveis por o investidor encontrar em qualquer lugar, como Burger King, Localiza, Lojas Renner, Vivara, podendo se tornar sócio delas. É a ilusão do “capitalismo de pequenos acionistas“!

Há ainda um deslocamento grande de dinheiro para a renda variável por vir, situação em 2019 ainda mascarada pelos retornos de dois dígitos com títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs). Isso aliviou a situação de fundos de pensão, RPPS e dos investidores mais ricos. Para este ano ficou assimétrico ter muito título longo porque qualquer mexida na taxa de juros representa uma perda de capital maior.

A educação financeira vai ter de ser colocada à prova porque a condição macro torna mais urgente o planejamento de longo prazo. Ou o investidor aumenta o risco da sua carteira ou vai ter de poupar valores mais altos ou trabalhar mais tempo para se aposentar. Com o tempo, as pessoas vão sentir mais fortemente a punição de ter o dinheiro a 4,5% ao ano.

Os fundos de ações vão ser um dos principais destinos do dinheiro hoje acomodado na renda fixa. Depois de liderarem a captação do setor no ano passado, com R$ 86,2 bilhões, estima-se ingressos da ordem de R$ 400 bilhões em 2020. Só pelo fluxo local especulativo, as ações brasileiras já teriam motivo para se valorizar.

Este início de 2020 tem sido um bom teste para quem nunca tinha colocado o pé na bolsa. Os investidores vão aprender na carne, mas a alternativa de não ter volatilidade é ficar com 4,5% ao ano, isso se tiver 100% do CDI. A vida é difícil, lide com isso!

Ficou caro deixar o dinheiro no CDI e quem não se mexer corre o risco de ver o seu patrimônio corroído por custos de manutenção altos em produtos de renda fixa tradicionais. Finalmente, para o bem dos “banqueiros de negócios”, a taxa de juros não é mais a grande determinante da alocação de recursos no Brasil.

Fundos de ações, fundos imobiliários e fundos multimercados de alta volatilidade também compram ações para atender à terceirização da gestão por parte de investidores. Eles estão entre as classes a ganhar mais robustez neste ano, além dos emergentes Fundos de Infraestrutura.

Se no começo o tema investimentos era coisa do mundo virtual para o jovem em busca da “sorte do iniciante”, agora o tema ocupa boa parte das conversas com os colegas, especialmente os mais jovens. A maioria tem até 25, 27 anos, ainda não saiu da casa dos pais, sem responsabilidade financeira. Têm uma liberdade maior do que, por exemplo, o chefe pai de família e não quer estar exposto a risco.

Sempre, em períodos de bolsa para cima, é assim: as valorizações ganham as manchetes e atraem para o mercado de risco algumas centenas de milhares de investidores novatos. Usufruem da “sorte do iniciante” por entrar na alta e logo na baixa perderão tudo!

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