Queda da Renda do Trabalho e Ascensão da Desigualdade

Assis Moreira (Valor, 21/01/2020) informa: as turbulências sociais estão de novo em alta no mundo, refletindo a crescente reação às desigualdades sociais e econômicas, aponta estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) baseado no número de protestos e greves.

Em relatório sobre o emprego e as questões sociais no mundo, que coincide com a abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), a OIT mostra alta de convulsões sociais em 7 de 11 sub-regiões do mundo e constata o fiasco em se alcançar crescimento sustentável e inclusivo.

Seu índice de turbulências sociais aponta para maiores agitações na Argélia, Egito e Sudão. Na América Latina, elas têm subido em países mais atingidos por crises econômicas e sociais como Bolívia, Chile, Equador e Venezuela.

A proporção da renda do trabalho – em contraposição à proporção da renda nacional que vai para os detentores de capital – caiu em nível mundial de 54% em 2004 para 51% em 2017. A queda é maior na Europa, Ásia Central e América.

“Para milhões de pessoas é cada vez mais difícil viver à custa de seu trabalho”, afirmou o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. “A desigualdade é inaceitável e insustentável. A persistência e a amplitude da exclusão e das desigualdades profissionais impedem as pessoas de ter um trabalho decente e um futuro melhor. Isso é inquietante e com repercussões pesadas sobre a coesão social.”

A OIT mostra que isso ocorre num cenário precário sobre a economia global, com impacto no mundo do trabalho. A atividade industrial em particular tem sido atingida duramente, deteriorando a confiança dos empresários e as decisões dos investidores. Tensões comerciais e geopolíticas deprimem a confiança e o crescimento econômico e têm ramificações sobre cadeias globais de produção.

Para a agência, o crescimento poderá levar anos para retornar a níveis de antes da crise de 2009.

O relatório mostra: o desajuste entre oferta e demanda da mão de obra tem repercussões que vão bem além do desemprego, para uma ampla subutilização de trabalhadores. Há atualmente 188 milhões de desempregados no mundo. Outras 165 milhões de pessoas têm emprego, mas desejam trabalhar mais horas pagas. E 120 milhões não estão classificadas como desempregadas, mas estão só marginalmente vinculadas ao mercado de trabalho. Ou seja, mais de 470 milhões de pessoas no mundo carecem de acesso adequado ao trabalho ou têm negada a oportunidade de trabalhar o número de horas que deseja.

A taxa de desemprego mundial ficou em 5,4% em 2019 e a previsão é de que não varie nos próximos dois anos. Significa a estagnação da taxa após gradual declínio observado entre 2009-2019. A projeção é de que a taxa fique em 13% quando combinada com a subutilização da mão de obra.

A recente queda da taxa mundial do desemprego foi impulsionada principalmente pelos países desenvolvidos, apesar da baixa expansão econômica na última década. Para a OIT, isso ajuda a refutar refuta afirmações de que a mudança tecnológica causa a perda maciça de empregos.

Em todo caso, esse crescimento decorre de vagas criadas principalmente no setor de serviços, em que o valor agregado médio por trabalhador é mais baixo.

Outra constatação é que o trabalho remunerado não é garantia de ocupação digna ou de ganhos adequados para muitos dos 3,3 bilhões de empregados no mundo. Cerca de 2 bilhões de trabalhadores estão empregados de maneira informal, representando 61% da força de trabalho mundial.

Mais de 630 milhões de trabalhadores no mundo continuam vivendo na pobreza extrema ou moderada. Esta se define com empregados recebendo menos de US$ 3,2 por dia em termos de paridade de poder de compra.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê: o Brasil continuará com mais de 12 milhões de desempregados nos próximos cinco anos, com a criação de vagas aumentando lentamente.

Para a entidade, a taxa de desemprego na maior economia da América Latina cairia de 12% em 2019 para 11,9% em 2020 e 11,4% em 2025. O número de desempregados recuaria de 12,8 milhões em 2019 para 12,6 milhões em 2024.

“Não vemos um empurrão importante para permitir que taxa [de desemprego] volte ao que era em 2014”, afirmou Stefan Kuhn, economista da OIT, citando menor demanda na economia global, entre outros fatores. Em 2014, a taxa de desemprego era de 6,7% e o número de desempregados, de 6,7 milhões, quase a metade de hoje.

O Brasil terá assim, por anos, uma taxa de desemprego três vezes maior que a média global, de 5,4%. Para Khan, um retorno a taxas anteriores à recessão no país pode levar vários anos. “Não há uma previsão de queda acelerada [do desemprego] no Brasil”, disse. Ele menciona o que ocorreu na Grécia e na Espanha, após as crises de 2008 e 2009. “Ainda não vimos as taxas de desemprego se reduzirem ao que eram antes”, afirmou.

Em relatório sobre o emprego e questões sociais, a OIT prevê crescimento melhor do PIB na América Latina e Caribe. Apesar disso, o desemprego continuará estável, com taxa de 8,1% em 2020 passando para 8,2% em 2021. O número de desempregados cresce de 25,8 milhões para 26,4 milhões. A mão-de-obra subutilizada chegou a 66 milhões de pessoas, 19,9% do total.

O crescimento do emprego na região está desacelerando, de 1,8% em 2018 para 1,1% em 2021. Além disso, estima-se que 19,5 milhões de trabalhadores não ganham o suficiente para tirar suas famílias da pobreza. O trabalho informal continua elevado. Em 2019, 53,1% de todos os trabalhadores tinham emprego informal, com baixa produtividade e baixos salários.

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