Economia Brasileira vai mal; Indústria vai pior

O trabalho por conta própria, comum nos setores de serviços e comércio, cresce também na indústria. A proporção desses trabalhadores no setor industrial passou de 16% em 2012 para 20% em 2019, comparando terceiros trimestres, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. O setor têxtil concentra a maior parte desses profissionais também atuarem em segmentos como produção de móveis e alimentos.

São 341 mil pessoas a mais trabalhando por conta própria na indústria, um aumento de 16% entre 2012 e 2019. A título de comparação, o setor perdeu 1,35 milhão de empregados com carteira nesse intervalo. Além disso, foram fechados 62 mil postos sem carteira. Mesmo contando com o acréscimo do conta própria, a perda no setor foi de 1 milhão de empregos em sete anos.

Depois de dois anos de recuperação parcial da crise, a indústria de transformação ficou praticamente estagnada no ano passado, com sua sonhada aceleração se revelando uma propaganda enganosa. Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), revela: quatro em cada dez segmentos do setor encerraram o ano em recessão.

Dos 93 subsetores da indústria investigados, 41 enfrentaram queda de moderada a forte no ano passado (44% do total), com baixas no volume de produção mais intensas do que 1%. É uma quantidade maior do que em 2018 (37 de 93, ou 40%). Outros 11 segmentos ficaram estagnados (sem variação na produção ou próxima de zero). E 41 cresceram mais de 1%.

Com 41 segmentos em recessão e 41 em crescimento, poderia ser uma questão de copo meio cheio, meio vazio. Mas estamos no terceiro ano de recuperação, após uma longa crise, então teria sido melhor se já tivéssemos superado essa etapa. Houve quedas disseminadas, revelando as dificuldades de 2019.

O levantamento foi feito pelo IEDI a partir da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o Iedi, 2019 foi mais um tropeço, mostrando a fragilidade da recuperação industrial, sujeita a voltar a recessão frente a obstáculos.

Dados do IBGE mostraram a indústria de transformação teve estagnação (0,2%) em 2019 em relação ao ano anterior. O resultado aponta para uma perda de ímpeto da recuperação. O setor havia crescido 2,2% em 2017 e mais 1,1% em 2018. Durante a crise, a transformação acumulou queda de 18,8% de 2014 a 2016.

Os ramos da indústria com ano em queda são diversificados. Entre os mais importantes, estão os setores siderúrgico (-6,1%); os produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-3,7%); os tratores, máquinas e equipamentos de agricultura e pecuária (-12,4%); e os tubos de aço (-16%).

No setor de papel e celulose, a produção foi afetada pelo excesso de estoques na China, o que provocou um processo de ajuste de oferta, explica Paulo Hartung, presidente-executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Para ele, a recuperação da economia brasileira pode ampliar o consumo de pasta para papel em 2020. “O setor está otimista para este ano.”

Já os fabricantes de máquinas agrícolas queixam-se da queda da exportações para Argentina (devido à crise) e Paraguai (por causa de uma seca local). Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, diz que as exportações recuaram 16% em valor.

O resultado é medido pelo faturamento, e não por quantidade, como o IBGE. No nosso cálculo, houve crescimento de 4,7% da receita real em 2019. Só que nosso resultado não inclui os tratores, que teriam registrado queda de 15% segundo dados divulgados pela associação das montadoras, a Anfavea.

Os segmentos da indústria de transformação em campo positivo incluem bens de consumo e de capital. Dos bens duráveis, chama atenção o crescimento da linha branca – a produção de fogões, refrigeradores e máquinas de lavar avançou 10,7% em 2019. Mais crédito, liberação de recursos do FGTS e a recuperação do mercado de trabalho ajudaram.

Entre os bens de capital, estão máquinas e equipamentos de uso industrial (+16,4%), máquinas e equipamentos de uso geral (+8,2%), estruturas metálicas e obras de caldeiraria pesada (+7,8%). Também se recuperam produtos da construção civil, como artefatos de concreto e cimento (+6,7%).

Itens alimentícios também tiveram bom desempenho. A produção de conservas de frutas e legumes cresceu 30,2%. Já a fabricação de produtos de carne mostrou avanço de 5,6%, o que pode ter sido ajudado pela maior demanda por proteína do mercado da China, após uma peste ter reduzido o plantel de suínos no país.

O quarto trimestre de 2019 teve alguma amenização do número de setores em queda, mas ainda pequena e pouco disseminada.

A queda nas exportações brasileiras de manufaturados para a Argentina, país que deve enfrentar o terceiro ano de recessão, será provavelmente menos intensa neste ano, mas deverá ter efeito negativo na indústria de transformação e no Produto Interno Bruto (PIB), como ocorreu em 2018 e 2019. Cálculo da pesquisadora Luana Miranda, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), é de que o impacto deve reduzir o crescimento do PIB brasileiro em 0,36 ponto percentual neste ano – no ano passado, o efeito negativo foi de 0,55 ponto. Para 2020, o Ibre/FGV estima um avanço da economia brasileira de 2,2%.

O baque pode ser ainda maior por causa da mudança no regime de importação de mercadorias anunciada pelo governo argentino no mês passado. A alteração condiciona 279 novos produtos a um processo de licença não automática. A validade dessas licenças foi reduzida de 180 para 90 dias. Assim, itens como motocicletas, eletrônicos e eletrodomésticos terão de ter autorização prévia para entrar no mercado vizinho.

Desses novos produtos, 201 estiveram presentes na pauta de exportação do Brasil para a Argentina em 2019 e representaram 34% do volume total vendido para lá no ano passado. Não está claro qual critério será utilizado pelo governo argentino no processo de análise dessas licenças. Assim, a nova medida tem potencial para reduzir ainda mais as vendas externas brasileiras. A magnitude dessa redução é incerta.

Sem levar em conta a nova regra para as importações, o cálculo sobre o impacto no PIB brasileiro em 2020 considera que o consumo doméstico na Argentina deve cair 4,5% neste ano e que o volume das exportações brasileiras para o país cairá, em média, 9%. O recuo das vendas é bem menor que os 32% de 2019 e os 16% de 2018, segundo estimativas do índice Icomex, da FGV, porque a baixa base de comparação ajuda. Assim, este também será o terceiro ano seguido em que a crise argentina terá efeitos negativos sobre a atividade no Brasil, embora em magnitude menor.

Em 2019, cerca 35% do que o Brasil exportou para a Argentina foram insumos industriais, 22% foram peças e equipamentos de transporte, e 19,8%, automóveis. Estes eram 27% das exportações em 2017. Os automóveis são parte importante das vendas para o país, mas têm perdido peso. O mercado argentino se tornou relevante também para os bens intermediários.

No ano passado, segundo o IBGE, a produção de intermediários — responde por 60% do fabricado pela indústria — caiu 2,2%, muito influenciada pelo desastre de Brumadinho (MG) e também pela retração na Argentina.

No total, a produção industrial brasileira caiu 1,1% em 2019, após crescer nos dois anos anteriores.

A redução do comércio com a Argentina e também com o resto do mundo atenuou os efeitos do aquecimento da demanda doméstica em especial no fim do ano passado. Há uma integração importante entre as cadeias produtivas argentina e brasileira no setor manufatureiro.

Dada a relevância desse parceiro comercial, o valor adicionado da indústria de transformação poderia ter crescido 2,2% em 2019, ante estabilidade na comparação com 2018. A previsão para 2020 é de crescimento de 1,3%. Sem o efeito Argentina, a expansão chegaria a 2,7%.

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