Salários, Faculdade, Gênero e Raça

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Publicou artigo (Valor, 17/01/2020) sobre as diferenças de salário entre as pessoas parecerem estar mais associadas à sua raça e gênero em vez de aos tipos de faculdades cursadas. Compartilho-o abaixo.

“Há muito tempo é possível comparar os ganhos salariais dos alunos que fizeram faculdade com relação aos que deixaram a escola após o final de ensino médio no Brasil. Mas, não tínhamos como calcular esses diferenciais separadamente para os alunos da rede pública e privada.

Agora isso já é possível, pois os novos questionários da Pnad Contínua do IBGE perguntam que tipo de escola as pessoas cursaram no ensino médio e no superior. Com esses dados, podemos responder questões interessantes.

  • Por exemplo, qual a diferença salarial entre os alunos que cursaram universidades públicas e privadas?
  • Existe diferença salarial entre brancos e negros que frequentaram o mesmo tipo de escola no ensino médio e também o mesmo tipo de faculdade?
  • E entre os homens e as mulheres?
  • Fazer ensino médio em um colégio privado aumenta em quanto as chances de ingresso numa universidade pública?

Vamos aos dados.

Antes disso, é importante deixar claro: não estamos descrevendo aqui uma relação de causalidade entre estudar em uma faculdade pública, por exemplo, e os salários dos diferentes grupos demográficos. As pessoas acumulam diferentes níveis de capital humano ao longo da sua vida. Eles são importantes para seu desempenho futuro e que podem ser correlacionadas com o tipo de escola que frequentam.

Além disso, a qualidade das escolas públicas e privadas varia muito e as pessoas escolhem cursos diferentes no Ensino Superior. Dito isso, é interessante entender como se comportam os diferenciais salariais entre pessoas diferentes que cursaram faculdades diferentes.

Para fazer essa análise, juntamos os dados de 2016, 2017 e 2018 e separamos somente as pessoas com entre 25 e 39 anos de idade que moram em regiões metropolitanas, para trabalhar com uma amostra mais homogênea.

O primeiro resultado interessante é: quem cursou ensino médio em uma escola privada ganha 126% a mais do que quem cursou uma escola pública, independentemente das suas escolhas futuras.

Quem cursou uma faculdade pública ganha 11% a mais se comparado a quem frequentou uma faculdade privada. O diferencial de cursar uma universidade pública com relação a parar de estudar no ensino médio para quem estudou em uma escola pública é de 150% e para quem estudou em uma escola privada é de 186%.

Um dos resultados mais interessantes é a diferença salarial entre pessoas de raça e gênero diferentes tender a ser bem maior do que a diferença entre ter cursado uma faculdade pública ou privada para pessoas da mesma raça e gênero. A figura acima, por exemplo, compara o salário médio entre pessoas que cursaram tanto o ensino médio como o ensino superior em instituições públicas.

Enquanto os homens brancos desse grupo ganham cerca de R$ 5.400 por mês, os homens negros ganham R$ 3.800, as mulheres brancas têm salário médio de R$ 4.200, enquanto as mulheres negras ganhavam R$ 2.600.

Os homens brancos ganham mais que o dobro do que as mulheres negras que frequentaram o mesmo tipo de escola e faculdade (não necessariamente com a mesma qualidade). E os negros que frequentam universidade pública tendem a ser mais positivamente selecionados do que os demais grupos, pois tiveram que vencer mais dificuldades ao longo da vida.

Entre os que cursaram faculdades privadas e estão entre os 10% com maior remuneração no seu grupo demográfico, a média salarial dos homens brancos é de R$ 20.000, ao passo que entre os homens negros é de R$ 11.500, as mulheres brancas ganham R$ 12.900 e as mulheres negras com maior remuneração ganham R$ 7.900.

Esses dados indicam que parece haver uma dificuldade maior de acesso a posições mais bem remuneradas entre as mulheres e negros. Entre os 10% com menor remuneração, as diferenças salariais são bem menores, com exceção das mulheres negras. Elas ganham bem menos do que os piores remunerados nos demais grupos.

Para analisarmos os diferenciais de acesso à faculdade, trabalhamos somente com os jovens de 20 anos de idade que ainda moram com seus pais, para podermos estratificar a amostra de acordo com a educação do responsável (embora percamos os jovens que já saíram de casa). Ao fazermos isso, descobrimos somente 17% dos jovens homens brancos com pais menos educados, tendo feito o ensino médio em escolas públicas, está na faculdade, ao passo que entre os filhos de pais mais educados na mesma situação (escolas públicas), 88% já estão no ensino superior.

Entre os jovens brancos oriundos de escolas privadas com pais menos educados, 57% está na faculdade aos 20 anos, três vezes mais do que os que estudaram em escolas públicas. Isso se reflete no valor das mensalidades das escolas privadas. Ela dá maior probabilidade de entrada em uma boa faculdade e do diferencial de salários que essa faculdade trará para seus alunos.

A taxa de ingresso no ensino superior é maior entre as mulheres do que entre os homens em todos os grupos demográficos e tipo de escolas cursadas. Exceção ocorre entre as mulheres brancas com pais menos educados que cursaram o ensino médio em escolas privadas. Elas têm uma probabilidade 10 pontos percentuais menor de estar na faculdade do que os homens.

Seria interessante entendermos melhor as razões para isso. Por fim, as diferenças nas probabilidades de ingresso no ensino superior entre os brancos e negros com pais menos educados é bem pequena, com exceção dos jovens negros que cursaram o ensino médio em escolas privadas.

Em suma, pequenas mudanças nos questionários das pesquisas domiciliares podem fornecer uma riqueza de informações que nos ajudam a entender melhor a nossa sociedade e desenhar políticas públicas para igualar oportunidades.

A principal mensagem dessa análise exploratória dos novos dados é: as diferenças de salário entre as pessoas parecem estar mais associadas à sua raça e gênero do que aos tipos de faculdades cursadas no ensino superior, pelo menos entre os que completaram o ensino médio.

Gabriel Vasconcelos (Valor, 09/01/2020) publicou informação adicional possível de ilustrar essa reflexão, baseada em trabalho de pesquisa do IPEA.

Cada usuário do sistema de educação pública “recebe” do Estado um valor médio entre R$ 297 e R$ 415 por mês ao longo de sua formação, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Esses valores equivalem, segundo a pesquisa, a quanto cada aluno gastaria para estudar, nas mesmas condições, em uma instituição privada. Segundo o Ipea, o valor de mercado desse serviço equivale a uma mensalidade de R$ 60,80 a R$ 74,09 para cada brasileiro, estudante ou não.

A diferença entre os valores máximos e mínimos é fruto das especificidades entre as três metodologias de cálculo usadas, baseadas, respectivamente:

  1. nos gastos públicos;
  2. no retorno financeiro da educação medido no mercado de trabalho; e
  3. na comparação com o ensino privado.

A distância pequena entre os valores mostram, segundo o economista do Ipea Sergei Soares, a solidez das estimativas.

Além de valorar o serviço, outro objetivo do Ipea era medir o grau da distribuição de renda promovido pela educação pública. A despeito da qualidade, a conclusão é que seu impacto é “bastante relevante” na redução da desigualdade no país.

Na média, segundo Soares, é como se o Estado brasileiro entregasse para cada família que usa o ensino público o equivalente a 6% de sua renda mensal na forma de educação. O estudo mostra esses valores repassados por meio do ensino público reduzirem a desigualdade em algo entre três e quatro pontos do índice de Gini, ou entre 6% e 8% a disparidade entre mais ricos e mais pobres. O índice de Gini varia de zero a um e mede o grau de concentração da renda em uma população.

Ensino público é transferência de renda do contribuinte para o estudante, em sua maioria crianças. Como no Brasil elas estão muito concentradas nos décimos mais pobres da população, o dinheiro vai para as famílias mais pobres”, diz Soares.

Embora não negue as lacunas qualitativas do ensino no país, o economista considera que o nível de financiamento público da educação no Brasil é “adequado”.

“O gasto público com educação, hoje na faixa de 5% do PIB, não deve aumentar nem diminuir, mas isso não exclui ajustes.” O pesquisador argumenta: levantamento da Unesco considerando 184 países, dos quais 80% possuem leis que impõem ao Estado o dever de proporcionar oito ou mais anos de instrução pública e gratuita aos seus cidadãos, mostra que o gasto público médio com educação situa-se dentro desse patamar de 5% do PIB.

Soares diz ser comum valorar a educação pública ao dividir o gasto total pelo número de beneficiários, o que ignora a eficiência do gasto. “Fazer esse cálculo é olhar só para o insumo, e não para o produto”, diz.

Já no método que parte da relação entre educação e mercado de trabalho, Soares trata o ensino como um projeto de investimento e compara a diferença entre o valor presente dos rendimentos futuros de homens e mulheres de 25 anos com diferentes anos de escolaridade.

Por fim, na comparação com o mercado, o pesquisador identifica alunos da rede privada com desempenhos semelhantes aos da rede pública em exames como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ele toma como parâmetro o gasto das famílias com educação por meio de dados do IBGE.

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