Educação sob Demanda: Conteúdo Personalizado… e Bem Pago

Jacílio Saraiva (Valor, 10/02/2020 informa: negócios do vinho, investimentos em startups, transformação digital, fintechs e gestão de carreiras de figuras públicas. Essas modas são alguns dos novos temas de cursos de pós-graduação. Quatro grandes instituições privadas de ensino vão os lançar em 2020. Ao todo, são 25 opções inéditas.

As escolas apontam novas tendências, como:

  1. a personalização (ou customização) de disciplinas de acordo com as necessidades do aluno,
  2. um avanço de 20% das aulas on-line sobre o total das grades e
  3. uma queda estimada de até 60%, ao ano, desde 2017, da quantidade de empresas bancando a formação dos funcionários.

Em lugar do Ensino de Excelência Público e Gratuito, disponível nas Universidades Federais e Estaduais, os preços começam em R$ 5,4 mil e podem atingir R$ 91,9 mil, de acordo com o tipo de programa, duração e conteúdo. O ensino pago também estão adotando o pagamento facilitado, com a ampliação do prazo de parcelamento, de 24 para até 36 meses.

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) terá seis novos cursos este ano, como o MBA customizado “Gestão de tecnologia da informação”. O aluno escolhe as disciplinas com um coach e o programa é personalizado a partir das suas necessidades. Ele pode selecionar 18 disciplinas entre 360 matérias.

As novidades incluem os MBAs “Private equity, venture capital e investimentos em startups” e “Gerenciamento de projetos”, reformulado este ano, com o ingresso das metodologias ágeis. Os MBAs da FGV têm 432 horas aulas ou duração aproximada de 18 meses. Custam a partir de R$ 26,4 mil.

Na bateria de cursos de curta duração, com aulas durante três meses e preços a partir de R$ 5,4 mil, foram criados “Fintechs-Inovação e disrupção no mercado financeiro” e “Transformação digital”. No ano passado, o Brasil recebeu os maiores investimentos em fintechs, de fundos nacionais e estrangeiros, com um volume estimado em US$ 1 bilhão, daí o oportunismo para explorar O Mercado.

Fora do ramo da tecnologia, a FGV apresenta “Formação executiva em negócios do vinho”. Há uma demanda por líderes capazes de desenvolver estratégias na área para explorar a elite.

É preciso ser objetivo na escolha de o que e como estudar em negócios, de comunicação e vendas em qualquer setor em moda. Recentemente, o governo federal decidiu criar um fundo para modernizar a vitivinicultura brasileira, com planos de injetar R$ 130 milhões para os produtores do país. O curso também será oferecido, pela primeira vez, na FGV do Rio de Janeiro.

Somente em São Paulo, a instituição mantém 2,8 mil alunos nas turmas de pós- graduação. São mais de 30 opções de MBA – eram menos de 20 em 2018 – e 35 cursos de curta e média duração. Até hoje, o mais procurado é o MBA “Gestão empresarial”. Ele já registrou 2,9 mil matrículas desde 2010. Os estudantes querem turmas com um perfil de alunos nivelado, para haver troca de experiências. Novos nichos de mercado a serem explorados devem puxar, nos próximos meses, outras trilhas de conhecimento, como cibersegurança e análise de dados.

Na opinião do coordenador geral de pós-graduação e extensão do Ibmec-SP, além de estarem atentas às demandas do mercado, as escolas precisam se preocupar como os estudantes vão pagar a fatura. No Ibmec-SP, cerca de 10% da base de alunos é subsidiada por seus empregadores. Procuram fazer a aplicação do conteúdo ser feita, em tempo real, no trabalho deles, e flexibilizam o pagamento. Good business!

Um programa se estende de 12 a 18 meses e pode ser quitado em até 30 parcelas. O Ibmec-SP tem 611 matriculados em 13 pós-graduações – eram oito em 2018 -, que custam de R$ 34,9 mil a R$ 61,9 mil. Este ano, montou MBAs como “Varejo digital”, além do “LL.M em regulação e inovação financeira”, especialização para quem atua no mercado de capitais.

Os estudantes vão atrás do próprio desenvolvimento, mesmo sem investimento de terceiros. Estão interessados em atingir melhores resultados nas suas carreiras.

É o caso de quem se formou em Administração de Empresas pela Universidade de Bradford, no Reino Unido, e concluiu em 2018 o MBA “Executivo internacional”, durante dois anos. A carreira dá uma guinada depois da pós. Antes de empreender, trabalhou por vinte anos em multinacionais, ocupando, por três vezes, a função de country manager no Brasil. Depois de concluir o MBA, tirou um semestre sabático e embarcou em um novo projeto, para fundar e comandar um negócio por conta própria

Antes de se matricular na pós-graduação, ele se sentia acomodado e com perspectivas de crescimento limitadas. Ele estava assistindo de longe o surgimento de tecnologias disruptivas e queria explorar outras possibilidades em seu setor. O MBA lhe fez descobrir um mundo de oportunidades.

O investimento, de cerca de R$ 100 mil, incluiu três viagens internacionais, com aulas e visitas a empresas nos Estados Unidos, Europa e Índia. Hoje, ele sabe falar o jargão profissional direitinho, feito um papagaio: “estou mais preparado como líder e seguro para assumir maiores desafios.”

O coordenador de pós-graduação, iniciação científica e extensão da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap), avalia, antes de escolher uma pós, o aluno precisa traçar um planejamento profissional de médio e longo prazo, a fim de avaliar objetivos e um cronograma de cumprimento. Depois, deve procurar os cursos mais adequados para atingir ou chegar próximo das metas.

Mas nem sempre é tão fácil como se planeja. Em 2017 e 2018, todo o mercado educacional, principalmente na pós-graduação, enfrentou dificuldades em função da crise econômica. Muitas instituições sentiram a queda no número de alunos e de turmas, e algumas até encerraram essa formação. Ora, foi o custo do apoio ao golpe…

Ao mesmo tempo, a quantidade de empresas que fornecia subsídios para os funcionários fazerem cursos de pós-graduação minguou. Somente na Faap caiu 60%, ao ano, desde 2017, estima o coordenador. As verbas acabaram direcionadas para programas livres ou de extensão, mais baratos, que ganharam um avanço anual de 50% nas matrículas. Já o volume de turmas ficou estabilizado, com um decréscimo de 10% no total de estudantes. “Houve reestruturação dos cursos e maior assertividade nas ofertas.”

De acordo com o coordenador, houve ainda uma mudança no perfil dos alunos de pós, principalmente na faixa etária, nos últimos quatro anos. Antes, o padrão de idade ia de 30 a 35 anos. Hoje, há maior presença de profissionais com mais de 36. Na Faap, 49% dos estudantes têm até 30 anos e 51% possuem mais de 31 – dentro desse conjunto, 15% têm mais de 41 anos.

Na opinião do especialista, a presença de gerações diferentes confere valor ao aprendizado. “Há jovens com experiência profissional acumulada e gente com mais idade em cargos elevados. Eles necessitam de atualização”. Ele explica: em cursos multidisciplinares, tratando ‘do todo’ em uma área do conhecimento, o que é aprendido com os participantes vira insumo para o desenvolvimento da turma.

Para os processos seletivos 2020/2021, a Faap apresenta 31 cursos, sendo 17 em São Paulo, sete em Ribeirão Preto, seis em São José dos Campos (SP) e um a distância. Do total, 13 serão ministrados pela primeira vez. Duram, em média, 20 meses, e custam de R$ 9,4 mil (on-line) a R$ 27,6 mil.

Entre as estreantes, está a pós “Gestão de negócios e carreiras de figuras públicas”. “O foco é capacitar ‘talent managers’ [empresários] que trabalham ou querem entrar em um mercado que necessita de profissionalização na área jurídica, financeira e de gerenciamento de imagem.”

No Insper, para manter a relevância dos cursos diante de novas demandas, a escola recrutou, há um ano e meio, uma equipe de executivos do mercado que tem como missão trazer as melhores práticas e necessidades das organizações, que serão utilizadas na atualização dos conteúdos. Com 3,8 mil alunos na pós-graduação, o número de cursos foi de 18, em 2017, para 21, este ano, com a entrada de “Controladoria e contabilidade”, “MBA Executivo internacional” e “Master em gestão pública”.

Entre as alternativas avançadas, de 18 meses, até mestrados e doutorados, com duração de quatro anos, os preços vão de R$ 45,5 mil a R$ 73,1 mil. De acordo com o coordenador da pós-graduação lato sensu, a maior porcentagem de alunos que tiveram, em 2019, as aulas pagas pela empresa está nos MBAs, com uma participação de 40%, seguida por LL.Ms e LL.Cs (27%), mestrado e doutorado (26%).

“Iniciaremos este ano 13 cursos de pós-graduação on-line, sendo nove especializações e quatro MBAs”, afirma o diretor geral da FIA Business School. A instituição mantém 2,8 mil alunos em 45 cursos de especialização e 20 MBAs. Registra um salto de 20% no catálogo, em relação a 2018, impulsionado por opções on-line. Os preços variam de R$ 12,8 mil (pós on-line) a R$ 91,9 mil (“MBA Executivo internacional”) e o prazo de pagamento foi estendido de 24 para 36 meses.

A escola vai investir em professores convidados, como o escritor e consultor indiano Ram Charan, o advogado Ronaldo Lemos e o economista Eduardo Giannetti. Este ano, lança o Alumni FIA, programa de relacionamento com ex-alunos que inclui parcerias com recrutadores e pesquisas sobre carreiras. “Haverá sessões e fóruns para os participantes possam interagirem e fechar negócios.” Very good business!

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