Taxa de Juros e a Relação Monetária segundo Ludwig von Mises

Resumo o dito por Ludwig von Mises, no livro “Ação Humana: Um Tratado de Economia”, na minha área de conhecimento principal.

“A moeda desempenha nas operações de crédito o mesmo papel que em todas as outras transações mercantis. Em geral, os empréstimos são concedidos em moeda, e os juros e o principal são pagos em moeda.

Os pagamentos decorrentes dessas transações influenciam os encaixes apenas temporariamente. As pessoas quando recebem os empréstimos, os juros e o principal usam o dinheiro recebido para consumo ou para investimento. Independentemente do fluxo de dinheiro recebido, essas pessoas só aumentarão os seus encaixes se forem motivadas por razões específicas a agir dessa maneira.

O estado final da taxa de juros do mercado é o mesmo para todos os empréstimos do mesmo tipo. As diferenças na taxa de juros são causadas ou por diferenças na confiabilidade e honorabilidade do devedor, ou por diferenças nos termos do contrato.

As diferenças nas taxas de juros não causadas por situações desse tipo tendem a desaparecer. Os pretendentes a um crédito procuram os emprestadores capazes de cobrarem uma menor taxa de juros. Os emprestadores procuram as pessoas dispostas a pagar uma maior taxa de juros. No mercado de dinheiro, as coisas se passam da mesma maneira de outros mercados.

Nas operações de crédito interlocais, devem também ser levadas em consideração as taxas de câmbio interlocais, assim como as diferenças possivelmente existentes entre os respectivos padrões monetários.”

[Até aí, Ludwig von Mises não apresenta nada de novo. Mas logo passa antagonizar com quem tem ideias divergentes.]

“Esse processo tem sido interpretado de uma maneira inteiramente errada. As pessoas dizem o Banco Central de um país ter uma função importante e vital a cumprir, no interesse da nação.

O Banco Central teria o sagrado dever, dizem eles, de preservar a estabilidade das taxas de câmbio de moedas estrangeiras e proteger as reservas de ouro da nação contra os ataques dos especuladores estrangeiros e dos seus cúmplices nacionais.

A verdade é: tudo o que um banco central faz para evitar a sua reserva de ouro evaporar, ele o faz para poder preservar a sua própria solvência. Tendo comprometido a sua solidez financeira ao expandir o crédito, precisa agora desfazer o que já fez, para evitar consequências desastrosas. Sua política expansionista finalmente esbarra nos obstáculos limitantes da emissão de moeda fiduciária.

Ao se lidar com questões monetárias, assim como com todos os outros problemas catalácticos, não se deve fazer uso da terminologia militar. Não há uma “guerra” entre os bancos centrais; não existem forças sinistras “atacando” a posição de um banco e ameaçando a estabilidade das taxas de câmbio. Não há necessidade de um “defensor” para “proteger” o sistema monetário de um país.

“Além do mais, não é verdade o impedimento de o banco central ou os bancos privados de um país de reduzirem a taxa de juros do mercado interno serem considerações sobre a preservação do padrão-ouro e sobre a estabilidade das taxas de câmbio, ou ainda, considerações quanto à necessidade de frustrar as maquinações do cartel internacional formado pelos banqueiros capitalistas. A taxa de juros do mercado não pode ser reduzida por meio de uma expansão de crédito, a não ser por um período curto, e mesmo assim sofrendo todas aquelas consequências descritas na Teoria do Ciclo Econômico.”

[Esta é a tese principal de Ludwig von Mises: a expansão do crédito provoca as diversas fases do ciclo econômico. Em termos contemporâneos seria a sequência alavancagem financeira-boom-auge-crash-depressão-desalavancagem financeira-normalização.

Ele está correto quanto a isso. Porém, ao adotar a Economia Normativa – o que deveria ser – em lugar da Economia Positiva – o que é – passa a ser um pregador condenando essa prática do mundo real! Em suas consequências dinâmicas desordenadas, condena como “mau hábito” a expansão do crédito!]

“Na realidade, os Bancos Centrais se tornaram, cada vez mais, meros departamentos subordinados ao Tesouro, simples instrumentos para execução de uma política inflacionária de expansão creditícia. Na prática, não faz a menor diferença se pertencem ou não ao governo e se são diretamente dirigidos por funcionários do governo. Na verdade, os bancos capazes de concederem crédito circulante são hoje em dia e em todos os países apenas sucursais do Tesouro.

Só há uma maneira de manter uma moeda nacional ao par com o ouro e com as divisas estrangeiras: conversibilidade incondicional. O Banco Central tem de comprar, ao par, qualquer quantidade de ouro ou de divisas lhe oferecida, dando em pagamento notas bancárias ou depósitos em conta corrente. Por outro lado, tem de vender, ao par, sem discriminação, qualquer quantidade de ouro e divisas lhe solicitada pelo público, recebendo em pagamento notas bancárias, peças de moeda metálica ou saldos de conta corrente.

Esta era a política dos Bancos Centrais no regime do padrão-ouro (gold standard). Esta era também a política dos governos e dos bancos centrais que haviam adotado o sistema monetário comumente denominado de padrão de conversível em ouro (gold exchange standard).”

[Ludwig Heinrich Edler von Mises (Lviv, 29 de Setembro de 1881 — Nova Iorque, 10 de Outubro de 1973) morreu logo depois dos seguintes acontecimentos.

Quando os bancos centrais europeus mostraram a intenção de resgatar, em ouro, o máximo possível de seus inflados estoques de dólares, Nixon, ao mesmo tempo impondo um congelamento de preços e salários nos Estados Unidos – na vã tentativa de controlar a inflação no país – decidiu, em 15 de agosto de 1971, unilateralmente e sem prévio aviso, pôr fim ao restante do padrão-ouro, acabando com a convertibilidade direta do dólar em ouro e quebrando o sistema de Bretton Woods (o “Choque Nixon”).

Os EUA não mais honrariam o compromisso assumido em 1944 e, pela primeira vez na história, o dólar tornava-se totalmente fiduciário, ou seja, sem qualquer lastro em ouro. Essa decisão foi ratificada na reunião do Fundo Monetário Internacional, realizada em 1973.

O ouro se tornaria doravante apenas uma mercadoria e não mais meio de pagamento. Isso levou ao sistema monetário internacional a atuar no chamado regime das taxas flutuantes de câmbio.]

 

 

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