Choque de Demanda na Primeira Década do Século XXI

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), conta a história do marco zero do preço mundial do petróleo: Cushing, Oklahoma, ponto de encontro do petróleo cru, doce e leve, conhecido como West Texas Intermediate, ou simplesmente WTI. Cushing desempenha um papel especial na nova indústria global de petróleo porque o WTI é um notável benchmark para o cálculo do preço dos outros petróleos.

Logo depois de sua descoberta, em 1912, o campo petrolífero de Cushing atingiu o status de estrela como “a rainha dos campos petrolíferos”. Por um tempo, produziu quase 20% de todo o petróleo dos Estados Unidos. A cidade de Cushing tornou-se uma das clássicas efervescentes cidades, devido às atividades petrolíferas, capazes de experimentarem prosperidade súbita no início do século XX. É onde se pega “a febre do petróleo”.

Depois da produção de Cushing cair, a cidade se transformou em um importante entroncamento de dutos. Quando começaram a se vender contratos futuros de petróleo, em 1983, o mercado de futuros precisou de um ponto físico de entrega.

Cushing, cujos dias de glória tinham ficado no passado, dispunha de uma rede de oleodutos e tanques de armazenamento, além de ser abençoada por sua localização central, foi a escolha óbvia. Entra e sai de Cushing até 1,1 milhão de barris por dia — uma grande quantidade em termos absolutos, mas o equivalente a apenas 6% do consumo total de petróleo dos Estados Unidos. Esse petróleo é a commodity física capaz de fornecer o “correlativo objetivo” aos barris “de papel” e aos barris “eletrônicos” comercializados no mundo inteiro.

Outros tipos de petróleo bruto também são usados como marcadores, principalmente o Brent, encontrado no mar do Norte. Entretanto, a definição dos preços de grande quantidade do petróleo bruto do mundo baseia-se no WTI armazenado nos tanques de Cushing, tornando a calma e pequena cidade de Oklahoma, cujo apogeu ficou no passado, um dos pontos centrais da economia mundial.

A notável ascensão dos preços do petróleo iniciada em 2004 provocou uma discussão: seria esse aumento súbito resultado dos mecanismos de oferta e procura ou de expectativas e mercados financeiros?

A resposta certa é “todas as alternativas anteriores”. As forças de oferta e procura eram muito poderosas. Mas, ao longo do tempo, intensificaram-se em função dos mercados financeiros, incorporando a nova dinâmica do petróleo.

O século XXI trouxe um profundo remodelamento da indústria do petróleo: a “globalização da demanda”. Esta refletia o reordenamento da economia mundial.

Durante décadas, o consumo estivera centrado nos países industrializados, conhecidos então como mundo desenvolvido — em especial, América do Norte, Europa Ocidental e Japão. Eram os países onde havia o maior número de automóveis, estradas asfaltadas e os maiores PIBs do planeta. Entretanto, inexoravelmente, essa predominância refluiu com o crescimento das economias emergentes nos países em desenvolvimento e o crescente impacto da globalização.

Embora o consumo total de petróleo no mundo tenha aumentado 25% entre 1980 e 2000, os países industrializados ainda usavam um terço desse total quando o novo século começou. Foi então quando veio o choque de demanda. Ele atingiu o mercado mundial de petróleo em 2004.

Ele estimulou o consumo associado à demanda agregada e teve um impacto impressionante no preço. Foi também um choque de reconhecimento de uma nova realidade global. Entre 2000 e 2010, a demanda mundial de petróleo aumentou 12%. Na época, porém, a proporção entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento era de meio a meio.

Nos idos de 1973, quando uma mudança violenta e repentina abalava o mercado mundial de petróleo, ocasionando a elevação dos preços, tratava-se invariavelmente de algum tipo de “choque de oferta”, ou seja, uma desestruturação na oferta. Isso ocorreu durante o embargo do petróleo na época da Guerra do Yom Kippur, em 1973, e no tumulto que veio com a Revolução Iraniana em 1978-1979, ou ainda com a Crise do Golfo em 1990-1991.

O último choque de demanda significativo tinha sido o aumento repentino do consumo na Europa e no Japão, no final da década de 1960 e início da de 1970. Afetou o equilíbrio global de oferta e demanda, abrindo caminho para o embargo do petróleo de 1973. Mas isso foi há muito tempo.

O novo choque de demanda foi alimentado pelo melhor desempenho econômico global em uma geração e pelo papel crescente dos países emergentes como o motor do crescimento econômico global. No entanto, isso pegou o mundo de surpresa.

A China passava por um período de crescimento intenso. O desenvolvimento econômico do país em 2003 chegou a 10%; em 2004, a China cresceu mais 10%. O carvão, principal fonte de energia do país, não conseguia suprir as demandas da máquina de exportação chinesa.

Para acentuar ainda mais a escassez, o sistema ferroviário, por meio do qual o carvão era transportado, estava sobrecarregado e muito congestionado. Havia longas composições de vagões carregados de carvão parados em trilhos pelo país inteiro.

O petróleo era a única alternativa prontamente disponível para gerar eletricidade, fosse nas usinas de energia ou em geradores a diesel nas fábricas. Como medida de segurança, as empresas também estavam armazenando suprimentos de petróleo adicionais.

Normalmente, a demanda de petróleo aumentava 5% ou 6% ao ano na China. Em 2004, crescia impressionantes 16% — em uma velocidade muito maior do que a economia como um todo. O mercado mundial não estava preparado para tal. Em agosto, as manchetes anunciavam preços ascendentes no “fortíssimo mercado do petróleo bruto”.

A economia mundial ingressava em uma nova era de expansão. Entre 2004 e 2008, o crescimento médio da economia chinesa foi de 11,6%. A Índia, que entrava em uma “estrada de crescimento”, avançaria em média 8% durante o mesmo período.

O intenso crescimento global se traduziu em maior demanda de petróleo. Entre 1999 e 2002, a demanda mundial de petróleo aumentou em 1,4 milhão de barris por dia. Entre 2003 e 2006, cresceu quase quatro vezes mais, chegando a 4,9 milhões de barris.

Era o choque de demanda.

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